Estamos no ano de 2013. Já vimos humanos pisarem na Lua e transmitirem trilhões de gigabytes pelo mundo com o toque de um botão, mas ainda – ainda – não conseguimos prever terremotos. Mas sabemos algo: mexer com certas coisas pode induzir terremotos.

American Geophysical Union se reuniu nesta semana em San Francisco, nos Estados Unidos, e geólogos discutiram algumas das decisões humanas que podem induzir terremotos. É complicado vincular definitivamente um terremoto a uma atividade humana, mas cientistas encontraram evidências convincentes de contribuições humanas para diversos tremores. Eis alguns dos nossos possíveis arrependimentos sísmicos:

Barragens e represas – terremoto de Sichuan, na China, em 2008

É só água, mas cara, água é pesada. Grandes reservatórios de água criados por represas por muito tempo induziram terremotos, passando por Zâmbia, Grécia e Índia. O terremoto de 2008 em Sichuan, na China, matou quase 70 mil pessoas e foi um dos mais devastadores da história recente, e alguns cientistas vinculam ele à construção da Represa Zipingpu na região.

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Imagem via Wikimedia Commons

A Represa Dam fica a alguns metros de distância de uma falha geográfica, e adicionar o peso dos litros de água nela pode ter contribuído para a ruptura da falha. “Nenhum processo geológico pode lidar com tanta concentração de massa em uma área pequena, a não ser um vulcão”, explicou o geólogo Christian Klose.

Extração de água subterrânea – terremoto de Lorca, na Espanha, em 2011

Tirar água da terra faz com que o lençol freático caia, e também pode desestabilizar uma falha geográfica existente.

O terremoto de 2011 em Lorca, na Espanha, causou enorme destruição por sua magnitude 5.1 devido ao epicentro ser localizado próximo à superfície. Seu epicentro superficial pode ser relacionado à extração de água subterrânea nas proximidades de Lorca, de acordo com estudo publicado na Nature Geoscience. Desde 1960, a extração de água fez com que o lençol freático da região cair por incríveis 250 metros.

Usinas geotérmicas – Campo Geotérmico Salton Sea e Campo Geotérmico The Geyers

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Foto aérea da falha geográfica de San Andres. Fonte: Leohotens via Wikimedia Commons.

No final da infame Falha de San Andreas na Califórnia está o Salton Sea – e, ao longo da sua costa sul, o Campo Geotérmico Salton Sea. A usina extrai água quente e de alta pressão do solo e transforma em vapor para rodar turbinas e gerar energia. Se você acha que extrair água tão próximo à Falha de San Andreas é uma má ideia, bem, você está certo.

Em um estudo publicado em 2011 pela Science, pesquisadores da Universidade da Califórnia explicaram que a atividade sísmica aumentou na região do Salton Sea conforme as atividades do campo geotérmico cresceram. Enxames de terremotos – diversos pequenos tremores com magnitude abaixo de 6 – ocorrem regularmente na região. E mesmo que esses pequenos tremores não causem muitos danos, eles podem interagir com outras grandes falhas, como a de San Andreas localizada convenientemente próximo, e assim induzir terremotos mais perigosos.

Centenas de quilômetros ao norte na Califórnia está o Campo Geotérmico Geysers, o maior do mundo. Como ele não está próximo a nenhuma grande falha, atividades sísmicas induzidas são menos prováveis de causar grandes destruições. No entanto, pesquisadores descobriram que essas atividades sísmicas eram próximas a zero em 1960, e agora estão entre 20 e 30 por ano.

Fraturamento hidráulico e poços de injeção – Terremoto de 2011 em Oklahoma, nos Estados Unidos

Quando falamos em fraturamento hidráulico, o problema não é exatamente a extração de petróleo ou gás. É o que acontece com eles depois, quando o resíduo do fluído do fraturamento hidráulico é injetado de volta no subsolo em poços profundos. O fluído pode vazar e lubrificar falhas geográficas, fazendo elas deslizarem com mais facilidade. Um estudo publicado na Geology vincula o terremoto de Oklahoma em 2011 a isso.

A atividade sísmica em Oklahoma disparou após o início do fraturamento hidráulico na região: o número de terremotos saltou de cerca de uma dúzia em 2008 para mais de 1.000 em 2010. Sequências de terremotos são comuns na região. Com o fraturamento hidráulico cada vez mais comum nos Estados Unidos, o perigo dos poços de injeção de águas residuais se tornou iminente.

Arranha-céus – Taipei 101

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Foto via Wikimedia Commons

O maior prédio do mundo quando foi construído, a torre Taipei 101 em Taiwan deveria ser a grande jóia da cidade, capaz de suportar ventos de tufões e terremotos. Ironicamente, as coisas feitas para ela resistir a terremotos podem… causar terremotos.

Segundo o geólogo de Taiwan Cheng-Horn Lin, a enorme quantidade de massa da Taipei 101 está colocando muita pressão nas rochas sedimentares abaixo dela. Isso por causa de todo o aço e concreto colocados para fazer o arranha-céu sólido o suficiente para resistir a terremotos. Desde que a construção começou, diz Lin, a região detectou diversos micro-terremotos e dois grandes tremores vindos diretamente debaixo do edifício.

Durante a sua construção, em março de 2002, um terremoto de magnitude 6,8 derrubou dois guindastes. O prédio em si não foi danificado. Então se ele realmente causa terremotos e consegue resistir a eles, você já sabe para onde ir quando a terra começar a tremer, certo?

Torcedores de esportes empolgados demais – jogo do Seahawks, em Seattle, Estados Unidos.

Na semana passada, o Seattle Seahawks marcou um touchdown em um jogo de futebol americano contra o New Orleans Saints. A comemoração foi tão grande que um sismógrafo na Universidade de Washington, próxima ao estádio CenturyLink Field, registrou um terremoto de magnitude entre 1 e 2 causado pelos torcedores do Seahawks. Mas quando o sismômetro está tão próximo, podemos considerar um terremoto? Bem, eis uma mensagem: se você estiver bem perto de um sismômetro, você pode criar o seu próprio terremoto.

[Science – Mother Jones – KQED – The Guardian]

Imagem de topo: IrinaK/Shutterstock