Há 80 anos, um cara chamado Ole Kirk começou a fazer brinquedos de madeira em uma pequena loja em Billund, Dinamarca. Alguns desses brinquedos ainda estão guardados em um cofre subterrâneo secreto, embaixo do local onde Ole criou a sua lendária empresa: Lego.

O cofre é chamado Pista da Memória e também contém cada conjunto de Lego já fabricado. Esses vídeos são de uma visita exclusiva àquele lugar mágico, bem como à fábrica onde centenas de milhares de blocos são produzidos e armazenados todos os dias.

Entrei sorrateiramente no cofre secreto graças a Jette Orduna, a curadora da Casa de Ideias, o museu do Lego. Foi uma experiência que me tocou de uma forma inesperada. Não foi de espanto ou pura admiração. Eu já estava boquiaberto ao fim do passeio dentro da fábrica da Lego. Não, isso foi algo mais, algo maior do que a impressionante visão de 4720 jogos de Lego dentro dessa caverna. Essas não são simples caixas cheias de blocos. Essas são passagens para um portal do tempo de emoções e dias mais simples há muito esquecidos.

Eu não sabia disso enquanto olhava uns jogos mais antigos, dos anos 1950. Jette comentava sobre os primeiros jogos de Lego, obviamente se deixando levar pela minha empolgação. “Aqui a caixa de madeira que algumas lojas na Dinamarca usavam, geralmente cabeleireiros e lojas mais genéricas” dizia ela enquanto a abria com muito cuidado para que eu visse o conteúdo, blocos vermelhos e brancos sem tubos, alguns deles com janelas desenhadas, “eles vinham com blocos de Lego bem particulares. Naquela época, os pais sempre os compravam para seus filhos, então eles continuavam expandindo seus sistemas Lego.” Ela voltou a nossa atenção para outro jogo, enquanto eu continuava perguntando o que era isso e aquilo. “Sim, é chamado ‘eletrônico’ porque esse trem podia ser ativado com um apito”, explicava, apitando em seguida.

Eu me divertia como se fosse um arqueólogo. Suas explicações, os designs legais das caixas, a rápida evolução dos primeiros anos… Estava impressionado com a engenhosidade daquilo tudo, curioso sobre as origens do mito. Mas era apenas isso. Apenas a simples curiosidade. Até chegarmos aos anos 1970.

Sabendo do meu histórico, Jette foi direto a uma das prateleiras, no fim de um longo corredor. Ela olhava para cima e para baixo, seus lábios apertados, concentrada em encontrar alguma coisa. Enquanto ela procurava, eu olhava ao redor, com os olhos bem abertos, pensando “oh, é isso?” e “nah, não pode ser… pode?”, minha empolgação aumentando a cada segundo. Foi quando ela retirou uma grande caixa retangular com laterais amarelas, dizendo “a-há! Aqui está.”

Eu me virei e vi o que ela tinha nas mãos: o Lego Space Galaxy Explorer.

O Lego espacial que fez Jesus chorar.E então aquilo me acertou. Decolei. Quanta sorte. Boom.

Uma onda de emoções tomou o controle, me acertando na cabeça como um Lego Airbus 380. Dezenas de imagens começaram a surgir na minha mente, fotos antigas de Natais e aniversários que eu achava estarem para sempre esquecidas, completamente renovadas, com as cores corrigidas e restauradas pela Lucasfilm para um relançamento em Blu-ray. Eu podia até ver aquela citação de Hollywood “Better than ever!”, “O passado nunca pareceu tão bom!’ e “Cinco estrelas!” com relevos em prata em uma caixa de edição especial. Estavam ali meu pai e minha mãe — que construíram uma enorme ferrovia de Lego e o Trem Azul para nós quando éramos muito pequenos para isso, e que desde então nunca mais pararam de nos dar novos jogos todo ano — e, depois, meus dois irmãos e minha irmã, brincando no tapete, montando todos os tipos de novas e maravilhosas construções populadas pelas mais estranhas criaturas. E o cheiro. O perfeito cheiro de blocos de Lego.

Você sabe sobre o que estou falando, aqueles eram os dias e essa coisa toda. Mas de verdade. Sentimentos e lembranças de tempos quando tudo era inocente e a sua única preocupação era a sua bicicleta, um grande tapete cheio de blocos de Lego e a quantidade de leite no seu cereal.

Depois disso, foi uma onda atrás da outra, pulando do Lego Space parao Lego Technic para o Lego Town para o Lego Castle para o Lego Pirates e o Lego Star Wars. Cada um trazia uma lembrança, um momento Kodak particular borrado pelas ocasionais lágrimas nos olhos.

Quando eu menos esperava, tinha acabado. E enquanto subia as escadas, de volta ao presente, lentamente deixando o passado retornar para o baú do tesouro, pensava: “Tem que ser por isso. Tem que ser esse o motivo pelo qual o Lego é tão amado por quase todo mundo no planeta.” Claro que ele é divertido. Os detalhes, os incríveis temas, a forma como você toca fisicamente eles, como eles fazem você usar suas mãos, a criatividade e a lógica, tudo junto. Está tudo lá, todas as partes do apelo universal.

Mas há muito mais. Algo mais fundamental, maior que a soma de todas essas qualidades. De baixo de tudo isso existe uma conexão primitiva, algo que faz todo mundo voltar à infância quando vê os blocos e voltar a momentos mais brilhantes, despreocupados, mesmo em níveis subconscientes.

E pensando nisso, me juntei a Jette e Jan no Mundo Real com um sorriso no rosto. A vida não era tão ruim, afinal. Não se algo tão simples como um bloco colorido é capaz de me fazer sorrir novamente.

Dentro da fábrica mágica!

Este vídeo mostra uma coisa que pouquíssimas pessoas tiveram a oportunidade de testemunhar: o interior de uma fábrica da Lego, sem barreiras ou segredos. Eu filmei cada etapa da criação de um bloco. Do granulado cru armazenado em grandes silos às máquinas de modelagem para as gigantes catedrais de estocagem para os armazéns de decoração e empacotamento, você pode ver absolutamente tudo, incluindo os segredos mais bem guardados da empresa: os moldes dos blocos. Embora as áreas de armazenamento sejam partes impressionantes da planta, devo admitir que nada me prepararia para o alcance e a complexidade que é exigida para fabricar e empacotar 19 bilhões de blocos por ano. O tamanho dessa fábrica, especialmente comparada aos minúsculos blocos que ela produz, é de tirar o fôlego.

O armazém e a sala de moldes

Nós começamos no armazém principal, que fica a meio quilômetro. Aqui ficam os silos que guardam o plástico cru granulado. Através deles, 60 toneladas de material são processadas a cada 24 horas. Essas torres estão ligadas às máquinas de modelagem através de um labirinto de tubos que empurram as misturas de granulados com um barulho metalizado constante.

Ele é o sistema digestivo da enorme fábrica, sempre alimentando as linhas de modelagem através de tubos e movendo grandes caixas cheias de peças (usando correias transportadoras) para a área de armazenamento em uma dança precisa que nunca termina: essa fábrica trabalha o tempo todo para suprir a sede do mundo por Lego.

As máquinas de modelagem

Tudo é reciclado na fábrica. O plástico granulado é um subproduto do diesel e o que quer que seja descartado no processo de fabricação acaba reciclado. As partes que sobram dos moldes (o plástico que preenche os canais que transformam o plástico quente em uma peça negativa) e caem da máquina, são recolhidas do chão e colocadas de volta no ciclo de produção. Qualquer outra sobra, como peças defeituosas ou o plástico transparente usado para limpar o interior dos tubos quando eles precisam mudar a cor de produção de uma máquina de moldagem, também é recolhida e vendida para outras empresas para a produção de outras coisas, como canos e até óleo para aquecimento.

As máquinas produzem mais de dois milhões de peças por hora, colocando-as incessantemente em caixas coloridas e com códigos de barra. Dei uma olhada ao redor e não vi muitas pessoas. Uma mulher estava em um daqueles corredores compridos olhando algumas máquinas de moldagem com uma grande marca “QT” nelas. Ela era responsável pelos testes de qualidade, certificando-se que a produção estava em perfeitas condições.

Em determinado ponto eu estava tirando umas fotos de uma caixa cheia de blocos amarelos e, de repente, a máquina parou de funcionar. Temendo que eu tivesse feito alguma coisa errada, vi uma grande caixa meio instável vindo à distância, algum tipo de transporte esquisito com sensores igualmente estranhos no topo, direto de uma fazenda de Tatooine ou uma mina de Duna. Eu dei um passo para trás, e imediatamente me dei conta de que aquele era um dos muitos robôs da fábrica.

Esse robô de transporte atendia uma chamada dos mainframes centrais, os cérebros do corpo da Lego que controlam cada aspecto do processo o tempo todo. Os mainframes tinham paralisado a produção da máquina, seguindo o sinal do sensor próximo à caixa e enviando-o para o robô, alertando-o de que ele tinha que colher a plantação de blocos. Os robôs andam pelos corredores sozinhos, pegando caixas e deixando outras vazias para que a produção seja retomada.

As catedrais de armazenamento, decoração e empacotamento

Os robôs então colocam as caixas em transportadores, que as movem para as catedrais de armazenamento (clique aqui para ver um relatório completo sobre elas; o vídeo a seguir é só um resumo). Lá, grandes robôs-guindastes as elevam aos céus, colocando-as em torres sem fim de caixas. Existem quatro dessas catedrais na fábrica da Lego e não há humanos dentro delas. Os mainframes sabem o que há dentro o tempo inteiro e ordenam aos robôs-guindastes para pegarem caixas e as enviarem para a decoração e empacotamento, onde os jogos de Lego ganham suas formas finais.

Aqui, peças de Lego podem ficar por até dois dias. Um é para irem direto às linhas de empacotamento. O outro é para irem à decoração. A decoração é a parte mais cara do processo de um Lego. Aqui, as peças são pintadas uma a uma com precisão absoluta, como você pode ver em detalhes neste vídeo.

Nas linhas de empacotamento, as peças são distribuídas: elas são despejadas em uma máquina, que as separa uma a uma, então as conta usando sensores óticos e as colocam em caixas genéricas. Eu assisti a isso espantado, vendo como as peças caem nessas pequenas caixas em um minúsculo transportador. A cada etapa, uma, duas, três ou qualquer outra quantidade de peças caía dentro da caixa, de acordo com as instruções do conjunto em produção.

Ao longo do caminho, balanças de alta precisão pesam a caixa. Os computadores sabem exatamente quanto uma caixa tem que pesar em cada estágio, indicando que o número e tipo corretos de peças estão dentro. Se houver uma variação de microgramas, o alarme toca e um operador pega a caixa, classifica as peças e a coloca de volta na produção.

Completada a caixa, o conteúdo é jogado dentro de uma máquina de invólucro em plástico, que faz o saquinho com as peças dentro. A caixa então é jogada dentro de outra caixa e passada para outra linha de produção, onde mais saquinhos são adicionados até que todas as peças do conjunto estejam juntas, prontas para serem empacotadas e enviadas às lojas do mundo inteiro.

Na medida em que eu assistia as caixas indo embora, sendo embaladas para o envio, não tinha como não me sentir maravilhado com tudo aquilo. Dos grãos de plástico aos jogos/conjuntos completos, tudo controlado por computadores e robôs em uma escala que (dado o tamanho da maioria das peças) me deixou estarrecido. Da próxima vez que você olhar para uma caixa de Lego cheia de blocos, ou para a sua coleção de bonequinhos, pense no quão complexo e elegante é todo o processo de fabricação. O seu “brinquedo” ganhará uma dimensão completamente nova.

Eu não poderia pensar em uma música melhor para combinar com a história do abrigo secreto do que a versão de Johnny Cash para Memories Are Made of This, do álbum Unchained (iTunes, 7digital). Tristeza e felicidade ao mesmo tempo, trazendo várias outras memórias a tiracolo. Na verdade, ouça o álbum inteiro, porque ele é fantástico (bem como o resto da série American Recordings).

[Imagem do topo: Andrew Becraft/Flickr]