No último sábado completou-se 25 anos desde que a Voyager tirou uma foto da Terra fazendo sua órbita no Sistema Solar. Nosso planeta — a 6 bilhões de quilômetros da nave — é esse pequeno pálido ponto azul iluminado por um raio de Sol. Trata-se de uma imagem icônica, e todas as pessoas que gostam de ciência conhecem a importância dela.

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Em verde: a localização aproximada da Voyager quando a foto foi tirada.

Em verde: a localização aproximada da Voyager quando a foto foi tirada.

A foto foi feita a pedido de Carl Sagan, que convenceu a NASA de que os gastos para tirar a foto valiam a pena, mesmo que ela não tivesse valor científico. Essa foto, ele argumentou, nos mostrará “nosso lugar no Universo“. Muitos se opuseram à ideia porque apontar para o sol poderia danificar os equipamentos da sonda interplanetária. Mas no final, graças à tenacidade de várias pessoas e da ajuda de Richard Truly, administrador da NASA na época, a foto acabou sendo tirada. Você pode ver uma versão maior abaixo:

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O livro no qual Carl Sagan fala sobre a foto, O Pálido Ponto Azul, está fora de catálogo, mas pode ser encontrado aqui por um preço bem salgado. Mas se você lê em inglês, a versão para Kindle sai bem mais em conta.

Veja o Sagan diz sobre a foto no livro:

A essa distância, a Terra pode não parecer muito interessante. Mas para nós é diferente. Considere novamente esse ponto. É aqui. É o nosso lar. Somos nós. Nele estão todos aqueles que você ama, todos aqueles que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram, todos que já viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e cada pai, cada criança esperançosa, cada inventor e cada explorador, cada professor de moralidade, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveu ali — nesse grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramado por todos os generais e imperadores para que, entre glória e triunfo, eles pudessem ser mestres momentâneos de uma fração do ponto. Pense nas infinitas crueldades cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra seus iguais de outro canto. Pense em quão frequentes foram os desentendimentos deles, em quão sedentos eles estavam para matar uns aos outros, em seus ódios fervorosos. Nossas atitudes, nossa autoimportância imaginária, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo são desafiadas por esse ponto de luz pálida. Nosso planeta é um espécime solitário na grande escuridão cósmica que nos circunda. Em nossa obscuridade — em toda essa vastidão — não existe nenhum indício de que a ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o única mundo que conhecemos, até agora, capaz de abrigar vida. Não há outro lugar, pelo menos num futuro próximo, para onde a nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Nos estabelecermos em outro lugar ainda não é possível. Goste você ou não, no momento, a Terra é o nosso lar. Tem sido dito que a astronomia é uma experiência de humildade e firmeza. Talvez não exista uma demonstração melhor da tolice das vaidades humanas do que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Para mim, ela reforça a nossa responsabilidade de sermos mais gentis uns com os outros e de preservar e valorizar o nosso pálido ponto azul, o único lar que já conhecemos.

Você pode ouvir essas palavras na voz de Carl Sagan (com legendas) no vídeo de destaque. Abaixo, uma versão na voz do dublador Guilherme Briggs.