Semana após semana nós ouvimos as histórias de terror da Foxconn, mas a metrópole de gadgets da Apple é apenas um lugar dentro de um país enorme. Os detratores dizem que é desumana; os defensores dizem que é bem acima dos padrões chineses. Mas o que “ruim” realmente significa dentro de uma fábrica chinesa? Vamos colocar a Foxconn em contexto.

A última opinião sobre Foxconn veio do programa Nightline da ABC. Mas um tour altamente supervisionado, feito para a TV não mostra o contexto total. Na verdade, em um ritmo rápido como é o da televisão, você pode até achar que a operação parece bem até decente. Mas é decente comparado a quê? A Foxconn não está isolada – é o sintoma de uma nação que não está funcionando bem.

De acordo com relatos do Gizmodo, The New York Times e outros, os trabalhadores da Foxconn têm que aturar a tensão psicológica e física. Eles dormem em beliches, precisam dividir pias comunitárias com inúmeros outros funcionários, e executar repetidamente as mesmas tarefas manuais ao ponto da exaustão física. Um parágrafo do Times mostra bem a situação:

Os funcionários fazem excessivas horas extras, em alguns casos sete dias por semana, e moram em dormitórios lotados. Alguns dizem que eles passam tanto tempo em pé que as suas pernas incham até que eles mal podem andar. Trabalhadores menores de idade ajudam a montar os produtos da Apple, e os fornecedores da empresa descartam indevidamente resíduos perigosos e falsificam arquivos, de acordo com relatos da empresa e grupos de direito que, dentro da China, são geralmente considerados grupos de monitoração independentes confiáveis.

Perigoso, cansativo, monótono e legalmente suspeito. Isso não é apenas o estado da Foxconn – é o estado das fábricas na China. Condições duvidosas são a norma social, explica Robert Baugh, diretor executivo do Conselho da União Industrial (AFL-CIO). Regulamentos exigindo salários decentes, segurança, e bem estar de modo geral são raros e pouco executados: “Dizer que eles são negligentes na China é um grande eufemismo,” explica Baugh. Abusos dos direitos humanos da China industrial são “muito difundidos,” e trabalhadores subjugados têm poucos recursos além de um sistema judiciário nada amigável, pobreza extrema, ou suicídio. Baugh diz que a razão é simples: Dinheiro. Fazer os trabalhadores das montadoras trabalharem tanto quanto possível, mesmo que seja ao ponto de exauri-los completamente, é “um incentivo financeiro para os empregadores,” fundamental para a “sua capacidade de operar e conseguir lucros massivos”.

E isso vai muito além da Foxconn. Obviamente é do interesse de Baugh manter quantos empregos puder nos EUA e as fábricas chinesas são sua principal ameaça. Mas sua avaliação é apoiada por partidos neutros como o defensor dos trabalhadores Verité, que lamentou o brutal estado atual das coisas e a fraca regulamentação pela China em um relatório divulgado este mês:

Em uma fábrica da China, os funcionários trabalhavam continuamente por 20 dias sem folga e com 70 a 80 horas totais por semana.

Em uma fábrica de eletrônicos, sempre que o intervalo de 10 minutos acabava, o chefe da linha de montagem gritava com os trabalhadores e ameaçava que se eles não voltassem para o trabalho imediatamente, eles sofreriam punições, ou não seriam pagos. Os funcionários descreveram isso para a Verité como “apressando-nos para o trabalho como se guiassem porcos para o abate.”

Um trabalhador de uma fábrica de roupas na China contou para a equipe da Verité que ele não tinha um dia de folga há um mês porque a confecção estava com uma demanda muito grande, e fazia hora extra até 3:00 ou 4:00 da manhã. Antes da audição da Verité, os funcionários receberam instruções para dar respostas padrão para os nossos auditores, dizendo que eles nunca fazem muita hora extra, e que eles encerram o expediente por volta de 7:00 da noite.

Verité conclui que todo o universo das fábricas chinesas está doente:

Toda fábrica sobre pressão para produzir mais com menos… Trabalhadores são pressionados a trabalhar violando a lei, violando códigos corporativos e colocando a própria vida em risco… Horas de trabalho excessivas são um problema sério nas fábricas da China. A Verité encontra rotineiramente escalas de trabalho em fábricas que violam a lei chinesa em horas de trabalho e códigos de conduta do consumidor. Os exemplos acima são extremos, porém não são raros…

E existe a Foxconn, que oferece moradia, cafeterias e cyber cafés. A Verité diz que por causa da abundância de produtos sofisticados, “por padrão, a Foxconn é mais segura do que outras fábricas na China”. E ei, eles acabaram de receber um aumento de 25%. Este deve ser um trabalho relativamente aceitável, certo?

Na verdade não.

Os dormitórios? Não apenas os trabalhadores pagam pelo privilégio de serem empilhados neles, mas eles são mais um mecanismo de controle do que uma acomodação. Uma empresa que tem se alastrado tanto quanto a Foxconn começa a substituir o próprio governo. Então, quando se trata de colocar travesseiros embaixo de uma cabeça esgotada, não é uma questão de humanidade: “Eles simplesmente precisam fazer isso,” explica Baugh. “Muitas dessas pessoas que trabalham nesses lugares vêm do campo, e não há moradia para elas. É do interesse da própria Foxconn ter pessoas ali e disponíveis para o trabalho.” Corporações como a Foxconn têm que oferecer moradia porque os trabalhadores rurais migram para montar iPhones e Wiis são muitos – e a produtividade dessa quantidade de pessoas só pode ser aproveitada se for oferecido o básico. Além disso, Baugh diz, “isso torna os trabalhadores dependentes”. Se a sua cama e médico são fornecidos diretamente pelo seu patrão, quem é você para considerar pedir demissão? Onde você irá dormir?

A conveniência é apenas outro meio de explorar mais dos trabalhadores, concorda Micki Maynard, autor, ex-repórter das fábricas de carro para o NY Times, e especialista em industrialização no século 21. Moradia na empresa significa que “eles esperam que você esteja disponível” – por exemplo, na noite em que a Foxconn acordou 8,000 trabalhadores no meio da noite para produzir telas de vidro para o iPhone, um ato que Baugh corretamente rotula como “repugnante”. Não há escapatória para o trabalho quando o seu emprego é também a sua casa – você só precisa ficar nele tempo o suficiente para a recompensa dos sonhos: “Você cresceu na sua vila, não iria para a faculdade, você tem sua família, viu a maneira que eles cresceram. Você vai [para a Foxconn] por três anos, vive na moradia, e então pode voltar para casa e ter uma vida confortável”, explica Maynard.

Mas enquanto isso, critique as condições de trabalho para aqueles que montam o seu iPhone, pecinha por pecinha, e é provável que você irá receber como resposta alguma variação de: Bem, para os padrões chineses, na verdade é muito bom. Você sabia que eles têm moradia de graça? E eles com certeza estão melhor agora do que em suas antigas vilas.

Nós já percebemos que “pelos padrões chineses” não significa muita coisa. E a falácia de que os trabalhadores podiam estar em uma condição pior, é a mesma de que é de alguma maneira aceitável tentar animar um homem que está dormindo em uma favela porque ele não está dormindo na lama. Podemos voltar muito no tempo, mas isso foi posto da sua maneira mais visível e racista há 236 anos atrás, pelo filósofo escocês e entusiasta das fábricas Adam Smith:

Claro, comparado com os luxos mais extravagantes dos nobres, a acomodação [de um trabalhador comum] sem dúvida, pode parecer extremamente simples; e ainda assim, pode ser verdade, talvez, que a acomodação de um príncipe europeu nem sempre exceda tanto aquela de um trabalhador industrial frugal, como as acomodações do último excede a de muitos reis africanos, os mestres absolutos das vidas e liberdade de dez mil selvagens nus.

Em suma: Nunca reclame do seu trabalho – você poderia estar vivendo em uma floresta. Obrigado, Adam.

Mas, no melhor dos casos, é uma argumentação falaciosa e dois séculos depois ainda estamos repetindo. A China não tem nenhuma das conquistas alcançadas no movimento trabalhista americano, porque nunca foi permitido ter um movimento trabalhista. Mesmo em uma economia com cada vez menos vagas, os trabalhadores nos EUA são assegurados com 40 horas de trabalho por semana, com benefícios definidos de hora extra, um aparato regulatório completo para fiscalizar e garantir a segurança, e o direito de sindicalização contra os empregadores. Não é um sistema perfeito, mas é um que permite – ou pelo menos, é permitido – americanos fazerem carreiras nas linhas de montagem, ao invés de trocar o arado por um gadget. Não existe isso na China. A Foxconn pode ser um pouco melhor do que as piores fábricas chinesas ou a sobrevivência em aldeias agrícolas pobres, mas comer cinco pregos ao invés de quinze ainda é terrível.