Os anéis de Saturno são mais do que apenas rostinhos bonitos. Novos dados coletados pela Cassini, enquanto orbitava o planeta, mostram que a sombra de seus anéis alteram a atmosfera do planeta.

A nova pesquisa, feita por cientistas na Suécia e nos Estados Unidos, demonstra uma clara diferença entre partículas nas partes norte e sul da ionosfera do planeta, sua camada superior eletricamente carregada. Mas a estrela do estudo é mesmo a Cassini. A sonda continua trazendo novas descobertas, mesmo três meses após mergulhar na atmosfera de Saturno.

“É de se imaginar essa fase de grand finale da missão da Cassini como uma missão completamente nova da espaçonave veterana”, disse William Kurth, cientista do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Iowa, em entrevista ao Gizmodo. “Nunca houve um plano de se chegar tão perto de Saturno… estamos apenas molhando nossos pés com os novos dados que temos.”

Cientistas definem a “superfície” de Saturno, um gigante de gás, como um lugar em que sua pressão é de um bar — pouco menos do que a pressão média ao nível do mar, a 60.268 quilômetros de seu centro. A ionosfera começa cerca de 300 quilômetros acima e segue por mais cinco mil quilômetros. A ionosfera da Terra vai de 60 quilômetros a mil quilômetros para cima e seu raio é de cerca de 6.400 quilômetros, para efeito de comparação. Essa região é povoada por partículas que foram ionizadas ou que se tornaram carregadas ao perder elétrons graças à radiação do Sol.

A Cassini entrou na ionosfera de Saturno em 27 de abril deste ano e começou a orbitar, período no qual cientistas puderam coletar dados com seu instrumento Radio and Plasma Wave Science (RPWS). Além de medir a densidade de elétrons e partículas ionizadas, a ferramenta descobriu que os anéis A e B estavam causando quedas notáveis na quantidade de ionização na porção sul da ionosfera. Os cientistas publicaram os resultados nesta segunda-feira (11), na Science, e os discutiram no encontro da American Geophysical Union, em Nova Orleans, também nesta segunda.

Esses resultados são importantes pela maneira como podem ajudar a explicar como as partículas se movem ao redor do planeta e de sua atmosfera, informações que poderiam talvez serem extrapoladas para outros gigantes de gás.

Pode apostar que ainda tem muitos dados que os cientistas precisam analisar para compreender completamente a atmosfera do planeta. Kurth advertiu que esses resultados contavam apenas com um dos instrumentos da sonda e com as primeiras 11 de várias órbitas e que os resultados não usaram dados do mergulho final da Cassini.

Esses dados são o ponto final de vários anos da coleta de dados científicos importantes feita pela missão, disse Kurth.

“É simplesmente incrível”, afirmou. “É triste que a sonda não esteja mais conosco, mas ela deixou um enorme legado em termos de observação, não apenas pelos últimos seis meses, mas por todos os 13 anos (de sua missão).”

[Science]

Imagem: NASA/JPL-Caltech