Nos últimos anos, médicos vêm fazendo cirurgia em animais – como cães e porcos – após substituir o sangue deles por água salgada e fria. Sem batimentos cardíacos nem atividade cerebral, eles ficam clinicamente mortos até o fim da operação. Agora é a vez de testar isso em humanos.

Segundo o New York Times, pesquisadores no hospital da Universidade de Pittsburgh (EUA) iniciaram um teste clínico para avaliar em humanos este método de hipotermia induzida. O alvo são vítimas de tiro ou esfaqueamento que sofrerem parada cardíaca após perder muito sangue.

Mas como o sangue do corpo é substituído por água salgada? O NYT explica:

O dr. Sam Tisherman e sua equipe vão inserir um tubo – chamado de cânula – na aorta do paciente, injetando no sistema circulatório uma solução salina fria até a temperatura do corpo cair para 10ºC. À medida que o paciente entra em uma espécie de animação suspensa, sem sinais vitais, os cirurgiões terão cerca de uma hora para reparar as lesões antes de ocorrer dano cerebral.

Em condições normais, um cirurgião tem cerca de cinco minutos para agir antes que o paciente sofra dano cerebral.

De acordo com a National Geographic, o líquido “resfria primeiro o coração e o cérebro, e depois o restante do corpo, até que a temperatura do paciente também seja de 10ºC. O resfriamento demora de 15 a 20 minutos, e deixa o paciente sem sangue, respiração, movimento ou qualquer sinal de vida” para a cirurgia ser realizada.

Depois da operação, os médicos usam uma máquina coração-pulmão para devolver sangue oxigenado ao paciente, mais um permutador de energia térmica para aquecer o corpo. O coração volta a bater quando a temperatura do corpo chega a 30ºC. No entanto, a pessoa só recupera a consciência depois de alguns dias ou mesmo semanas.

Sempre há um risco de que os pacientes voltarão com vida, mas em estado vegetativo. No entanto, em testes com animais, a maior parte sobrevive à animação suspensa e não sofre danos cerebrais: por exemplo, os cães se lembram de truques antigos e conseguem aprender outros.

Na verdade, o método é mais polêmico pela forma que será aplicado: como o alvo do estudo são pacientes em parada cardíaca, eles não darão consentimento para participar do teste. O hospital vem fazendo uma campanha para divulgar o projeto, e para distribuir braceletes indicando que você não aceita participar. No entanto, só 14 pessoas pediram o bracelete.

A equipe planeja testar o novo método em dez pacientes, enquanto outros dez recebem o tratamento convencional. Os testes começaram em abril, mas o dr. Tisherman ainda não revela se já usou a animação suspensa, e diz que o estudo pode demorar alguns anos até ficar pronto. [New York Times, National Geographic]

Foto por University of Pittsburgh Medical Center