Uma grande variedade de animais encantadores, porém destrutivos, está tornando mais difícil a tarefa de agricultores brasileiros na Amazônia, segundo um estudo recém publicado no periódico Journal of Wildlife Management. E eles ainda têm fotos para provar.

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Os pesquisadores se aventuraram pela região de Juruá, no Estado do Amazonas, em abril de 2013. Os moradores de lá dependem de agricultura de subsistência para se alimentar e para complementar a renda. Um dos principais produtos da região é a mandioca (o ingrediente da tapioca, o principal alimento da região). Entre 2013 e 2015, eles entrevistaram pessoas de 47 comunidades e colocaram 130 câmeras em estações na floresta próximas às plantações. As câmeras capturaram mais de 60 mil fotos de 40 distintas espécies.

A jaguatirica não está entre os animais que colocam em risco as plantações de subsistência, mas ela passou para dar um oi. Imagem: Universidade de East Anglia/Flickr

Baseado nas entrevista e nas fotos, os pesquisadores identificaram 11 espécies que rotineiramente entram nas plantações para comer mandioca. Os animais mais perigosos captados foram o Caititu (uma espécie de porco do mato), o veado-mateiro, pacas, cutias (um roedor de pequeno porte) e ratos de espinho. Esses animais fizeram os agricultores da região perderem 7% da plantação de mandioca anualmente em média, mas às vezes eles destruíam tudo.

Os animais também causaram um impacto indireto. A mandioca tem duas variedades: uma versão amarga com altos níveis de cianeto, e uma mais doce, com baixos níveis de cianeto. A versão mais doce precisa de menos processamento para ser ingerida e vendida, então vale mais. E é exatamente essa variação que é a preferida dos animais, forçando os agricultores da região a diminuírem as plantações para não terem tanta perda. Mesmo com essa estratégia, os agricultores gastam horas afastando os animais da plantação. Sem essa vigilância, os pesquisadores estimam que as perdas poderiam ser ainda maiores.

A cutia é um pequeno roedor que adora mandioca. Imagem: Universidade de East Anglia/Flickr

O que chama a atenção, segundo os pesquisadores, é que todos esses animais perigosos parecem estar presentes em grandes quantidades. Então é provável que pessoas das comunidades comecem a caçá-los sem se preocupar com o desequilíbrio que isso pode ocasionar ao meio-ambiente.

“Este estudo mostra que essas invasões de plantações na Amazônia não precisam se tornar um conflito entre humanos e a vida selvagem”, disse Mark Abrahams, autor principal do estudo e ecologista da escola de ciências ambientais da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, em um comunicado. “Conservacionistas podem trabalhar com as comunidades locais e ajudá-las a lidar com os recursos naturais. Espécies vulneráveis, como macacos-aranha, que não prejudicam a agricultura de subsistência, podem ser protegidos de caça, enquanto invasores, como as cutias, poderiam ser caçados para subsistência.”

Estes esforços podem ser parte de uma iniciativa na região de Juruá para promover a vida selvagem e a conservação da floresta e ainda promover recursos sustentáveis para as comunidades locais, concluiu Abrahams

[Journal of Wildlife Management]

Atualizado às 15h45 com um título mais elucidativo

Foto do topo: Caititus comem mandioca na floresta. Imagem: Universidade de East Anglia/Flickr