Em 1908, o lendário timo Nimrod, de Ernest Shackleton, estava a caminho do Polo Sul quando os homens foram surpresos por algo inesperado: o som de água líquida, rugindo através da paisagem congelada em direção ao mar. Cento e nove anos depois, cientistas confirmaram que esse som, descrito por um dos primeiros exploradores como “estranho, após o normal silêncio antártico”, não era uma invenção da imaginação dos homens, nem era um acaso. Centenas de canais individuais fluem através do continente de gelo do nosso planeta durante o verão, e eles têm feito esse caminho há décadas.

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Uma nova análise comandada por cientistas do Observatório Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia, foi o primeiro a revelar uma vasta rede de bacias de drenagem, incluindo riachos, canais, lagos e até cachoeiras, espalhadas através do continente da Antártica. Apesar de bacias individuais de drenagem terem sido documentadas na Antártica há anos e várias delas terem sido estudadas em detalhe, essa primeira pesquisa em grande escala mostra a profusão com a qual o continente congelado da Terra sangra até o mar durante o verão.

“Existiam algumas dicas de riachos aqui e ali, mas nós não tínhamos ideia de que eram tão espalhados, ou tão grandes, ou que permaneciam por tanto tempo”, Jonathan Kingslake, glaciologista da Universidade de Columbia e autor principal do estudo publicado na Nature, disse ao Gizmodo. “A grande pergunta para mim é: dadas as predições de como a Antártica irá aquecer, a quantidade de água derretida vai dobrar nesse século. Se isso acontecer, esses sistemas de drenagem conseguiriam entregar água a lugares sem causar que o gelo desmorone?”

Essa é uma preocupação séria, mas não a única possibilidade levantada pelo novo trabalho. Em um estudo de acompanhamento também publicado na Nature, a glaciologista Robin Bell, junto com Kingslake e outros, explorou como as redes de drenagem podem na verdade ajudar a Plataforma de Gelo Nansen; um local atravessado pela expedição Nimrod de Shackleton, e alguns anos depois pelo time Northern Party, do capitão Robert Falcon Scott, na expedição Britânica Antártica, a se suportar. Nessa plataforma, rios e uma cachoeira de 120 metros de extensão expelem água em excesso da plataforma de gelo até o oceano.

“Modelos de gelo Antártico agora só levam em consideração lagoas e danos às plataformas de gelo”, Bell disse ao Gizmodo. “Nós mostramos que a água pode se mover”, talvez, para longe do perigo. A complexa física por trás do fluxo de gelo e água da Antártica pode parecer hermética, mas tem grandes consequências quando se trata do continente inteiro ter água congelada o bastante para aumentar os níveis do mar mundial em até 60 metros, deixando cidades costais como Miami e Nova York bem abaixo do nível do mar. Mas antes de prevermos como a água do degelo vai impactar a calota polar em um mundo em aquecimento, nós precisamos de mais dados sobre o quão comum é o fenômeno no continente hoje. Para isso, Kingslake e seus colegas se voltaram para os dados do satélite Landsat e fotografias aéreas, usando esses dois bancos de dados para construir o primeiro registro das redes de drenagem do continente, indo até o ano de 1947.

Sua análise revelou amplos sistemas de riachos, rios e lagos, aproximadamente 700, em sua maioria nas bordas da calota antártica, mas, em alguns casos, se estendendo profundamente até seu interior. Por mais que esses fenômenos sejam efêmeros, se espalhando como mato nos meses quentes do verão, parece que eles existem intermitentemente há quase um século.

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Cientistas descobriram que rios sazonalmente fluem nas bordas da maioria do gelo antártico. Cada X vermelho representa um dreno separado. Imagem: Kingslake et al. 2017

“Impresionantemente, nós vimos fenômenos em fotografias aéreas dos anos 1940 bem parecidas com as que observamos em imagens de satélites”, Kingslake disse. “Eu acho notável que, dois anos após a Segunda Guerra Mundial, as pessoas estavam voando ao longo da Antártica tirando fotos desses fenômenos.”

Mas os pilotos da Segunda Guerra Mundial não foram os primeiros humanos a notar os misteriosos rios gelados da Antártica. Como Bell descobriu quando ela estava compilando os registros de estudo da plataforma de gelo Nansen, os primeiros exploradores antárticos já estavam cientes do fenômeno.

“Eu estava tentando determinar se existiam provas para alguma mudança e percebi que ambos os grupos Nimrod e o Norther Party tinham atravessado a Nansen [no começo do séc XX]”, Bell disse ao Gizmodo, explicando como ela viajou ao Scott Polar Research Institute, na Inglaterra, para ler os registros de diário do Northern Party. “Foi impressionante segurar aqueles escritos feitos à mão de cientistas que estudaram a Nansen mais de 100 anos atrás”, ela disse.

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Degelo de verão na plataforma de gelo Amery na Antártica leste. Imagem: NASA

Agora que nós sabemos como a rede de drenagem antártica é tão antiga quanto ampla, a maior pergunta na mente de todos é o quão rapidamente ela pode se expandir causada pela mudança climática e como isso vai impactar a calota de gelo conforme o planeta aquece. Nós já sabemos que as lagoas de água de degelo podem acelerar o colapso da calota, ao acrescentar tensão extra ao gelo, ou penetrar nas rachaduras causando suas expansões. Cientistas observaram esses processos acontecendo na plataforma de gelo Larsen B em 2002, quando mais de dois mil lagos efêmeros drenaram através da plataforma até o oceano abaixo em alguns dias, um evento que coincidiu com a repentina desintegração da calota de gelo. Se piscinas estanques de água forem mais frequentes em um mundo mais quente, isso pode acontecer com mais frequência.

Mas o trabalho de Bell na plataforma de gelo Nansen aponta para uma função distintamente diferente para a água de superfície, em certas situações. Lá, uma grande rede de rios, combinada com canais de cachoeiras na borda das geleiras, canaliza a água líquida rapidamente até o oceano, prevenindo o acúmulo de lagoas que quebrariam o gelo.

“No caso da Nansen, existe uma situação extrema em que a água é drenada até o oceano”, Kingslake disse. “Nós achamos que isso reduz o impacto do degelo na plataforma.”

Alison Banwell, glaciologista do Scott Polar Research Institute, da Universidade de Cambridge, e que não estava envolvida em nenhum dos estudos, disse ao Gizmodo que estudos futuros devem focar em como muitas outras plataformas de gelo têm grandes redes de rios que transportam a água de degelo eficientemente até o oceano. “Atualmente, nós só estamos cientes do sistema do rio e cachoeira de Nansen”, contou.

Bell acrescentou que a água de degelo de superfície não é o único processo que preocupa os glaciologistas e que pode acelerar o colapso da calota de gelo. “Outra grande influência que contribui para o derretimento do gelo antártico, e consequentemente o afinamento da calota, é o derretimento sob a superfície”, ela disse. “Esse processo pode ser tão ou mais significativo do que o degelo de superfície. Mais pesquisa é necessária.”

No momento, cientistas têm mais perguntas do que respostas sobre os sistemas efêmeros de drenagem antártica. O aspecto mais destacado do trabalho pode, no entanto, ser o lembrete que ele oferece de que o conhecimento antigo não é inútil. Em 1909, quando o membro do time Nimrod, T.W.A. David, anotou em seu caderno que um “rio de água descongelada pode ser ouvido rugindo” à distância sobre a plataforma de gelo Nansen, ele certamente não saberia que peso suas palavras teriam um século depois. Nós precisamos do passado para conseguir entender o futuro.

“Eu me sinto honrada em ter tido a chance de trazer seu duro trabalho de observação de volta à nossa atenção”, Bell disse.

[Nature, Nature]

Imagem do topo: Cortesia de Jonathan Kingslake