O iPad é um dispositivo feito principalmente para consumo de conteúdo: livros, revistas, HQs, música etc. Então um sistema unificado de assinatura digital de conteúdo é mais do que bem-vindo. Foi o que a Apple lançou esta semana: é só tocar no botão “Assinar” e pronto, você receberá automagicamente as edições mais recentes de revistas como a Popular Science, ou jornais como o New York Times. Pena que esse sistema da Apple é maligno.

As regras do sistema valem para todo tipo de conteúdo: assinatura de revistas, jornais, vídeo, música e até compra (não assinatura!) de livros. E ele funciona mais ou menos como os apps: você vende suas assinaturas pelo iPad, e a Apple fica com 30% da receita. Se o usuário assinar através do seu site, no entanto, você não paga nada à Apple. Parece justo, não? Mas a Apple colocou três cláusulas que estragam tudo.

Primeiro, você não pode colocar nenhum link no seu app para fazer assinatura digital através do site. Ou seja, um usuário comum do iPad, vendo apenas o botão de “Assinar”, em vez de ir visitar seu site vai preferir tocar no botão – e a Apple ganha mais com isso. Segundo, se você tem app para iPad e vende assinatura pelo site, você é obrigado a vender assinaturas pelo sistema da Apple também. Ou seja, não dá pra escapar do sistema de assinaturas.

E mais: a assinatura via iPad tem que custar tanto quanto ou menos que a assinatura via seu site. Ou seja, nada de promoções “assine direto conosco e economize!” – a Apple proíbe isso.

“Ora”, você pode dizer, “mas a Apple só está garantindo o que é seu”. De fato, eles arriscaram demais lançando o iPad: quanta gente não previu que ele iria fracassar? E agora vejá só ele, vendendo milhões. Agora eles estão explorando o mercado que criaram. Nada mais justo, certo?

Prejuízo aos provedores

Só que trancafiar provedores de conteúdo dessa forma põe em risco o negócio deles. Os jornais e revistas têm que aguentar a gana da Apple por dinheiro – eles estão em crise nos EUA – mas não só eles sofrem. O serviço Rhapsody, de assinatura mensal de música, já avisou: pagar 30% da receita deles para a Apple tornaria o serviço economicamente insustentável. O impacto é ainda maior para empresas pequenas: o Instapaper lançou um serviço de assinatura que, por US$1/mês, pega textos de outros sites e os armazena offline, em formato de fácil leitura. E eles não gostaram da novidade da Apple.

Lembre que as regras valem para venda de livros também. Para a Amazon, maior loja de e-books do mundo, por exemplo: se eles tiverem que pagar 30% para cada livro vendido através do sistema, eles praticamente não têm lucro algum com isso. Sem lucro, pra que vender através do iPad? Eles poderiam se retirar da plataforma, se não fosse pela estratégia deles de “compre em um lugar, leia em todos” (ou seja, compre seu e-book na Amazon e leia no Kindle, iPhone, iPad, Android, PC…). Ou seja: eles estariam de mãos atadas por causa da nova política da Apple.

O problema não é que a Apple cobre para distribuir conteúdo no iPad. O problema é que eles estão cobrando demais por isso. Como sugere Jason Kincaid do TechCrunch, cobrar uma pequena taxa dos provedores de conteúdo faria todo o sentido, seria totalmente justificável. Mas 30%? E sem jeito de escapar disso? É um exagero.

Fight!

Tudo leva a crer que agora veremos uma disputa entre a Apple e provedores de conteúdo descontentes com a nova política. O Rhapsody disse que vai procurar, junto a serviços semelhantes no mercado, uma resposta legal e comercial à Apple. E dois órgãos americanos, o Departamento de Justiça e a FTC vão investigar a nova política de assinaturas da Apple, para garantir que ela não viole leis antitruste no país – ou seja, que ela não esteja abusando de sua superioridade no mercado. O novo sistema da Apple deve ser implementado por todos os provedores de conteúdo para iPad até o dia 30 de junho. Mas, pelo visto, isso vai longe.

Enquanto isso, o Google lançou um serviço de assinaturas, que pode ser acessado em mais lugares que o serviço da Apple (no celular, tablet e também no seu computador) e que cobra só 10% da receita dos provedores de conteúdo.

Todos estão de olho em você, Apple. [Gizmodo US]