Já é sabido que a Terra está aquecendo e que as emissões de carbono pelos humanos são a causa disso. O que não é tão conhecido é o quanto a gente já comprometeu o nosso planeta no futuro em questão de aquecimento. Um novo estudo esmiuçou números e chegou a uma resposta alarmante, mas outros especialistas já estão criticando a abordagem, lembrando-nos que o curso da mudança climática segue incrivelmente difícil de se prever.

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O alvo de apenas dois graus Celsius de aquecimento, adotado por cientistas e políticos como um limite do qual devemos fica abaixo para evitar impactos climáticos catastróficos, muito provavelmente será ultrapassado neste século, de acordo com um estudo publicado na Nature Climate Change nesta segunda-feira (31). Usando modelos estatísticos que projetam tendências em fatores socioeconômicos, como o crescimento do PIB e populacional ao longo do tempo, o estudo, liderado pela Universidade de Washington, estima que haja apenas uma chance de 5% de que a Terra vá aquecer menos do que dois graus Celsius neste século.

Infelizmente, os autores estimam que exista uma chance de apenas 1% de permanecermos abaixo de 1,5 graus Celsius de aquecimento, o “melhor cenário” determinado no Acordo de Paris, algo que, pensa-se, oferece às nações compostas por ilhas pequenas perto do nível do mar uma chance maior de permanecer emersas. Em vez disso, os autores estimam uma chance de 90% de que as temperaturas subam de dois a 4,9 graus Celsius até o fim do século.

Por um lado, isso não é surpreendente — muitos especialistas acreditam que não estamos reduzindo nossa emissão de carbono coletiva rápido o bastante para nos alinharmos com o objetivo do Acordo de Paris. O planeta já aqueceu cerca de um grau desde os tempos industriais, e sabemos que vem mais aquecimento por aí, conforme as economias mundiais fazem a transição para energia renovável e conforme o calor tomado pelos oceanos é relançado na atmosfera. Um outro estudo da Nature Climate Change, na semana passada, também sugeriu que temos maiores chances de estourar o limite de dois graus Celsius do que pensávamos, por causa da incerteza sobre como definimos nossa linha de base de nível de CO2 pré-industrial.

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Mudança de temperatura global média projetada até 2100, de acordo com o novo estudo (Imagem: Adrian Raftery/Universidade de Washington)

Porém, quando enviei o novo estudo para o cientista climático Michael Mann, um dos coautores do estudo da semana passada sobre a definição da linha de base pré-industrial, ele foi imediatamente crítico aos métodos do estudo. “Sou muito, muito cético”, ele disse, apontando que, embora seu estudo tenha descrito restrições físicas ao aquecimento (por exemplo, quanto CO2 já emitimos), o novo estudo é baseado puramente em tendências socioeconômicas, e presumindo que essas tendências podem prever o futuro.

“Isso ignora o fato de que a vontade política depende de muitos fatores que não podem ser previstos baseados em comportamentos anteriores”, afirmou, apontando que o crescimento recente de energia renovável, por exemplo, superou as projeções de muitos previsores de mercado.

Ken Cladeira, cientista climático do Instituto Carnegie de Ciência, citou que, embora a conclusão do estudo tenha sido completamente esperada, projetar a trajetória de sistemas sociais complexos é mais do que simplesmente emitir uma opinião. “Na ciência, o salto do modelo para a realidade é sempre perigoso”, contou ao Gizmodo. “Poucos previram a queda da União Soviética, a rapidez sem precedentes do crescimento da China ou a eleição de Donald Trump.”

A questão, como coloca Caldeira, é sobre a probabilidade dos humanos mudarem seus padrões históricos de consumo de energia — e quando. “Se não mudarmos esses padrões, então o mundo provavelmente vai ficar muito quente”, ele disse. “Entretanto, vamos mudar esses padrões. A questão é se vamos fazê-lo antes de danificar radicalmente nosso ambiente, efetivamente, para sempre.”

Entrei em contato com Adrian Raftery, autor principal do novo estudo, com algumas das críticas listadas acima. Também tentei falar com alguns outros cientistas climáticos para ver o que achavam, e vamos atualizar esta publicação quando tivermos respostas.

Mas, resumindo, ainda há muita incerteza sobre o quanto o planeta vai se aquecer neste século. Um outro estudo, também publicado nesta segunda-feira na Nature Climate Change, sugere que provavelmente teremos apenas 1,5 graus de aquecimento. As duas novas estimativas estão basicamente na margem de erro uma da outra.

É claro, nada disso muda o fato de que precisamos agir rápido para evitar as piores consequências da mudança climática. Então, o que o cidadão comum pode fazer sobre tudo isso? Se você vive em uma nação rica, aqui vai uma lista de escolhas que você pode tomar para alinhar seu estilo de vida com o Acordo de Paris. Se um número suficiente de nós fizer um número suficiente dessas coisas, isso ajudará a impulsionar nossa economia na direção certa. Mas, em última instância, as decisões que levarão às mudanças mais impactantes, aquelas que não podem ser previstas por modelos baseados em tendências históricas, são maiores que nós. São decisões políticas, feitas nos níveis mais altos de governo.

[Nature Climate Change]

Imagem do topo: Lima Andruška/Flickr Creative Commons