As aranhas da família Migidae não saem muito. Elas, sem remorso algum, são caseiras, passando quase sua vida inteira relaxando em uma só toca. Diferentemente de suas parentes próximas, mas muito mais famosas, as tarântulas, essas aranhas são minúsculas, com maioria da espécie pequena o bastante para caber em uma unha. A apenas alguns metros de distância de onde elas originalmente chocam, elas constroem tubos revestidos de seda dentro de cascas de árvores e se escondem lá dentro, esperando a presa chegar perto o bastante para um ataque de emboscada.

E, ainda assim, apesar dos simples e sedentários hábitos da aranha, as descobertas em um artigo recentemente publicado no periódico PLOS ONE sugerem que uma variedade desses humildes eremitas alcançou um feito aparentemente impossível — atravessar um oceano inteiro.

O intrincado aracnídeo em questão é a Moggridgea rainbowi, uma aranha encontrada apenas nas florestas da Ilha Kangaroo, na Austrália. Pesquisas recentes determinaram que essa aranha é meio que uma ovelha negra em sua família mais próxima, sendo a única espécie Moggridgea encontrada na Austrália. Onde estão os demais irmãos? Na África. Literalmente a milhares de quilômetros de distância ao longo do Oceano Índico.

A explicação para distribuições dramaticamente divididas como essa geralmente gira em torno do fato de que, até cerca de 150 milhões de anos atrás, os continentes de Austrália, África, Antártida e América do Sul todos faziam parte do supercontinente “Gondwana”. A marca da antiga Gondwana existe na distribuição de muitos grupos de organismos até hoje, incluindo as Migidae. O pressuposto sobre a aranha Moggridgea australiana solitária era de que ela era uma espécie relíqua de uma era passada, separada de seus parentes africanos pela deriva continental.

Essa é uma explicação perfeitamente razoável, mas que ainda não havia sido testada diretamente. Para confirmar que a divisão continental estava por trás dessa fragmentação familiar, o momento de separação das populações de aranhas africanas e australianas precisaria se alinhar com o momento das massas terrestres africanas e australianas. Por sorte, técnicas genéticas modernas podem permitir que os cientistas estimem quanto tempo atrás diferentes espécies se divergiram umas das outras, e isso é exatamente o que uma equipe de cientistas australianos fez com essas aranhas.

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A aranha pode ter atravessado o oceano, indo da África até a Austrália. Crédito da Imagem: Nick Birks

O grupo de pesquisa coletou amostras de DNA de várias espécies de aranhas Moggridgea africanas, da Moggridgea rainbowi, da Austrália, e alguns outros parentes da Bertmainius. Analisando o DNA, os pesquisadores encontraram diferenças específicas entre vários genes nas aranhas e os compararam para verificar as relações evolutivas entre espécies. Isso confirmou que a espécie Moggridgea australiana era de fato mais intimamente relacionada às aranhas africanas. Então, para descobrir quando todas essas espécies se separaram uma da outra, os cientistas usaram um “relógio molecular”, que conta com o fato de que mutações de DNA se acumulam a uma taxa previsível.

Os resultados mostraram que a espécie Moggridgea australiana é bastante jovem, tendo se separado de seus parentes africanos há apenas dois milhões de anos. Isso é muito recente para dar suporte à ideia de que a Moggridgea rainbowi é australiana por causa da divisão do supercontinente — África e Austrália se separaram uma da outra 110 milhões de anos atrás. Ao mesmo tempo, a divergência também é muito mais velha do que qualquer ocupação da Ilha Kangaroo pelos exploradores do século 19 ou colonos europeus, que, teoricamente, poderiam ter levado a aranha da África por meio de navios.

Dois milhões de anos atrás, a maneira mais lógica de uma aranha dessas chegar da África para a Austrália seria atravessando o Oceano Índico. Ao contrário de algumas outras aranhas, que podem usar sua seda para “flutuar como um balão” e até mesmo direcionar o seu caminho aéreo em distâncias oceânicas enormes, essas aranhas estão firmemente presas ao chão. Isso significa que o seu método de transporte mais provável tenha sido flutuar passivamente, navegando em alto mar em uma esteira de detritos de plantas. Esse fenômeno é uma carta na manga para seres vivos se espalharem pelo globo. Madagascar parece ter recebido muitos de seus mamíferos desse jeito, assim como a América do Sul, no que diz respeito às cobras-cegas. Nós já vimos isso acontecer em tempo real, quando detritos de furacão permitiram que iguanas colonizassem uma ilha do Caribe.

Um tanto ironicamente, o estilo de vida estacionário dessa aranha é provavelmente o que tornou possível a sua jornada épica. Confortáveis em suas tocas, elas estariam alheias a uma tempestade ou um deslizamento de terra que enviou seus lares de madeira para o mar. Basicamente, essas aranhas são menos “Bilbo saindo do Bag End para uma grande aventura” e mais “rapaz se torna acidentalmente um clandestino ao desmaiar no porão de um navio”.

Embora esse cenário ainda seja uma hipótese, é a única explicação até agora que se encaixa na cronologia de divergência das espécies africana e australiana. A proposta será solidificada se pesquisas de genética futuras nas outras aranhas da ilha também mostrarem uma linha de tempo evolutiva que não coincide com os eventos geológicos, ou se as aranhas forem descobertas em uma balsa de vegetação no mar.

As revelações deste estudo destacam o papel crescente da genética moderna na descoberta das origens épicas e inesperadas do que pensávamos ser organismos familiares. Neste ano mesmo, a pesquisa genética também melhorou a forma como pensamos os relacionamentos do elefante moderno e ajudou a revelar uma espécie de louva-a-deus com sexos que não se parecem nada um com o outro. À medida que novos métodos genéticos se desenvolvem, nossa compreensão sobre a Árvore da Vida continuará a mudar radicalmente.

Imagem do topo: Jason Bond via Wikimedia Commons