Cientistas conhecem mais ou menos 700 mil asteroides e cometas, e todos eles são parte do Sistema Solar. Digo, todos, menos um. E, como mostra uma nova pesquisa, ele é esquisito demais.

Nesta segunda-feira (20), cientistas relataram sua análise do ‘Oumuamua, um objeto interestelar encontrado no mês passado. A rocha veloz, de formato estranho, imediatamente surpreendeu astrônomos com sua composição química e outras propriedades, que indicaram que deve haver muito mais objetos interestelares flutuando por aí do que se pensava antes.

“A presença do ‘Oumuamua sugere que estimativas prévias da densidade de objetos interestelares eram de forma pessimista, baixas”, escreveram os autores no estudo publicado na segunda-feira, no periódico Nature.

A história do ‘Oumuamua começa em 19 de outubro de 2017, quando o sistema telescópico havaiano Pan-STARRS1 o encontrou. Cientistas o chamaram de A/2017 U1, mas imediatamente perceberam que estavam olhando para algo estranho, já que seu formato de órbita era extremamente hiperbólico. Isso significa que, em vez de orbitar o Sol, essa coisa veio em tal velocidade que “claramente” indicou ser de fora do Sistema Solar.

A breve visita dificultou que se nomeasse o planeta — o esquema de designação de planeta menor não permite nomear algo apenas visto uma vez. Pesquisadores criaram então uma nova classificação para esses objetos interestelares, e deu a nosso visitante um nome havaiano que “reflete a maneira como esse objeto se parece com um observador ou mensageiros enviando de um passado distante para entrar em contato conosco”, de acordo com o Minor Planet Center. ‘Oumuama significa “mensageiro de longe chegando primeiro”.

As observações da luz em constante variação do ‘Oumuama mostrou aos cientistas que o objeto não era esférico, mas provavelmente tinha um formato de charuto, medindo 800 m x 80 m x 80 m. Ele é vermelho e provavelmente feito de metal e matéria rica em carbono, como alguns cometas. Cientistas também observaram que ele não tinha uma aparência como a de cometas, o que é surpreendente, considerando o fato de que maioria das rochas vindas da distante nuvem Oort são cometas.

Isso preparou terreno para um enigma: os cientistas presumiam que objetos interestelares se comportariam mais como cometas do que asteroides, até que o ‘Oumuamua chegou. Se eles são mais como asteroides, isso indicou à equipe que existem muito mais dessas rochas interestelares no Sistema Solar do que se pensava anteriormente, de acordo com o estudo. Ele também acrescenta um novo fato ao considerar impactos na Terra. “O impacto de um objeto interestelar seria muito mais energético do que o de um objeto do Sistema Solar com massa parecida, devido à maior velocidade de impacto”, escrevem os autores.

Quanto a de onde ele veio, ninguém sabe ainda. O estudo sugere um disco de detritos próximo, ou que sua trajetória foi alterada por algum planeta ou outro cometa. Talvez ele tenha sido desencadeado pelo ainda não descoberto Planeta Nove. Tudo é especulação, é claro.

Cientistas nunca poderão ver o ‘Oumuamua novamente, conforme ele foge em velocidade. Mas sua breve visita sugere que essa pode não ser a primeira vez que cientistas observam algo assim.

[Nature]

Imagem do topo: ESO