A CRISPR e outras novas biotecnologias poderosas tornaram a ciência que um dia era restrita a laboratórios chiques e ultramodernos cada vez mais acessível. Isso é, obviamente, uma coisa boa, na maior parte do tempo. Mas também significa que pessoas com intenções nefastas tenham acesso mais fácil às mesmas tecnologias.

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Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Bill Gates alertou que a comunidade global ainda não levou a ameaça de bioterrorismo suficientemente a sério. Gates pediu a governos e organizações privadas que façam “investimentos substanciais” para se preparar para potenciais ataques bioterroristas.

“Com o que a preparação parecerá para coisas intencionalmente causadas, isso precisa ser discutido”, disse, durante painel na semana passada. “É muito difícil avaliar a probabilidade de bioterrorismo, mas o dano potencial é muito, muito grande.”

O aviso de Gates veio após um anúncio de que a Fundação Bill e Melinda Gates se juntaria a governos de Alemanha, Japão e Noruega para criar a Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (Coalizão de Invenções de Preparação para Epidemias), feita para desenvolver novas vacinas e estratégias de combate aos focos de doenças. A fundação já gasta quantias consideráveis em pesquisas voltadas para eliminar doenças como a malária.

Gates não é o primeiro a, recentemente, demonstrar preocupações com as ameaças bioterroristas. Em novembro, um novo relatório feito pelo Conselho Consultivo de Ciência e Tecnologia aconselhou o ex-presidente Obama a renovar as estratégias de defesa do país contra o bioterrorismo, em resposta a tecnologias avançadas como o CRISPR.

O rápido avanço na biotecnologia, escreveu o conselho, “traz sério potencial de uso destrutivo tanto por parte de estados quanto de indivíduos com competência e acesso a instalações laboratoriais modernas”.

“Biólogos moleculares, microbiólogos e virologistas podem olhar à frente e antecipar que a natureza das ameaças biológicas mudará substancialmente nos próximos anos — de maneira previsíveis e imprevisíveis”, dizia o relatório. “O jeito antigo de pensar e de se organizar do governo norte-americano para combater ameaças biológicas precisa mudar e refletir e resolver este cenário que tem se desenvolvido rapidamente.”

No ano passado, um alto funcionário da segurança nacional chamou a edição de genes de “uma arma de destruição em massa”, ao lado da detonação nuclear, das armas químicas e dos mísseis de cruzeiro.

Ferramentas como o CRISPR poderiam potencialmente ser usadas para destruir o suprimento de comida de uma nação, interferir na biologia de uma pessoa ou para aumentar a virulência de um vírus para que ele possa se espalhar melhor. (Tais cenários, de fato, são a premissa da nova série de ficção científica produzida pela J.Lo, C.R.I.S.P.R.)

Ainda bem que, por enquanto, esses terrores em particular são apenas hipotéticos. Mas se quisermos que continue desta maneira, as autoridades talvez façam bem ao levar a sério o aviso de Bill Gates.

[CNBC]

Imagem do topo: Getty