Na noite de quarta-feira (11), a conta do Twitter de Rose McGowan foi suspensa. McGowan usou a plataforma como uma ferramenta para expor casos de assédio sexual em Hollywood, publicando uma série de tweets sobre Harvey Weinstein e mandou um “foda-se” para Ben Affleck. O Twitter explicou a suspensão tarde demais, afirmando que “a conta [de McGowan] foi temporariamente bloqueada porque um de seus tweets incluía um número de telefone privado”. Mas em resposta, um ex-funcionário da área de confiança e segurança do Tumblr disse que a desculpa do Twitter era “uma grande besteira“, e um monte de usuários decidiram boicotar o serviço nesta sexta-feira (13).

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A ideia do boicote foi lançada pela engenheira de software Kelly Ellis, que viu na iniciativa uma maneira de demonstrar solidariedade a McGowan. Muitas pessoas apontaram que McGowan aparentemente estava sendo silenciada por falar a respeito do assédio sistêmico enquanto o homem mais poderoso do mundo continua disparando tweets que têm o potencial de começar uma guerra nuclear. Depois, o Twitter disse que limitou a atividade de McGowan porque transmitir dados privados vai contra seus termos de serviços, mas a execução seletiva das políticas da empresa já deixaram muitas mulheres (e homens) irritados o suficiente para que se iniciasse um protesto dentro da plataforma. No momento, a hashtag #WomenBoycotTwitter está nos trending topics dos Estados Unidos.

A suspensão da conta de McGowan certamente foi o catalisador para o boicote, mas a falta de transparência do Twitter e seus esforços anti-assédio que ignoram alguns dos seus usuários mais vulneráveis fizeram com que muitas pessoas deixassem de usar o serviço nesta sexta-feira. O Gizmodo conversou com muitas mulheres sobre por que elas planejam boicotar o Twitter hoje e o que elas esperam que esse silêncio conquiste.

Ana Valens, escritora do Daily Dot, disse que “o grande número de trolls e bolsões de pessoas de extrema direita que infestam o Twitter estão afastando as mulheres. O boicote mostra ao Twitter que eles não podem ignorar esse problema por mais tempo e que mulheres podem (e vão) escolher deixar a rede social se o problema permanecer”.

Muitas pessoas, incluindo Valens, citaram o terrível sistema de denúncia do Twitter como um fator chave por trás desse boicote. Diversas mulheres detalharam as inúmeras tentativas infrutíferas de denunciar abusadores online – uma queixa muito comum contra a plataforma. Valens disse que, quando ela denuncia um usuário por assédio ou abuso, o Twitter solicita que ela envie sua carteira de habilitação com seu nome legal.

“Como uma mulher transexual, me tornar pública tornou as coisas ainda piores quando se trata de lidar com abusos. Eu não acho que o Twitter entende como combater abuso, então acredito que o boicote não mudará nada. Mas se isso colocar mais pressão para que eles mudem, então terá sido bem-sucedido ao meu ver”.

A Dra. Neera Saxena, farmacêutica da Filadélfia, disse em uma mensagem privada que já estava considerando boicotar a plataforma, mas não achava que teria um impacto se o fizesse sozinha. Ela ainda está cética a respeito de uma mudança real a partir de um êxodo em massa, mas disse que “simplesmente está frustrada com a maneira como Twitter opera”.

“Fui ameaçada, amaldiçoada e tenho visto muitos perfis que se parecem com bots espalhando informações de ódio, imprecisas e inteiramente fabricadas. Só espero que Jack e a equipe de suporte do Twitter possam ser pressionados a realizar mudanças.”

Assim como a Dra. Saxena, nem todas as pessoas que estão boicotando a plataforma estão otimistas de que a iniciativa terá algum resultado imediato, mas esperam que isso pressione o Twitter a pelo menos prestar mais atenção em seus usuários vulneráveis. Duas profissionais de relações públicas criticaram o Twitter por sua incapacidade de mostrar respostas ou mudanças significativas.

“Quer dizer, alguma coisa precisa mudar para fazermos algum progresso… Se não for agora, quando vai ser?”, disse a publicitária Lia Warner em uma DM. “Como uma profissional de relações públicas, acho que o Twitter deveria ter uma resposta”, disse Claudia Medellín, outra publicitária, também via DM. “Uma resposta bem pensada e humilde.”

“Acho que foi ruim para o Twitter fazer isso, para começo de conversa – eu não tenho ideia de qual será a resposta deles”, disse a cantora e compositora Damhnait Doyle em uma DM. “No entanto, parece que as pessoas estão acordadas agora, o que é um sentimento ótimo.”

A especialista em experiência de jogos, Celia Hodent, disse por mensagem que acredita ser crucial para o Twitter ter e reforçar um código de conduta dentro da plataforma, mas que as políticas “são aplicados de forma muito frouxa a certas personalidades que utilizam a plataforma de maneira forte, aos assediadores, ou a bots que estão poluindo nossas democracias”. Ela adicionou:

“Aliás, uma amiga desenvolvedora de jogos está sendo atormentada e assediada por alguém no Twitter, e, apesar de informar os incidentes, o Twitter não está fazendo nada para garantir que ela possa ter um espaço seguro na plataforma. Isso, infelizmente, não é um caso isolado. Mesmo após o desastroso chamado Gamergate (durante o qual muitas desenvolvedores de jogos mulheres foram assediadas), o Twitter (assim como o Facebook e outras plataformas sociais) ainda está atrasado para enfrentar as ameaças e o assédio.”