Um enorme buraco no gelo que cerca a Antártica está atraindo a atenção de cientistas. Pesquisadores acreditam que a polínia de Weddell faz parte do ciclo natural, mas no atual tamanho – o maior já visto desde a primeira vez que foi identificado nos anos 1970 – pode ajudar a entender o processo que controla a circulação antártica, e como o Oceano Antártico está mudando devido as mudanças climáticas causadas por humanos.

Polínias são regiões de mar aberto que ocorrem nos oceanos árticos e antárticos onde se espera encontrar gelo, tipicamente ao redor de costas litorâneas por onde percorrem fortes ventos de inverno. A polínia de Weddell é incomum pois ocorre longe das costas, em uma região de água rasas conhecidas como Maud Rise. Ela foi vista pela primeira vez durante o inverno de 1974, quando um buraco com quase o tamanho de Oregon emergiu no gelo do oceano antártico durante o fim do inverno. A polínia apareceu novamente nos dois invernos seguintes, antes de desaparecer por décadas – mas concentrações de gelo raso persistiram na região.

No inverno de 2016, um vão de gelo semelhante ao que cientistas viram nos anos 1970 surgiu, apesar de consideravelmente menor, ele reapareceu, chamando a atenção de cientistas do antártico. Agora, a polínia abriu novamente. Em mais de 41,4 km², ela é maior que a Holanda, e um pouco maior do que era ano passado. Apesar de ser cinco vezes menor do que era nos anos 1970, de acordo com Torge Martin, um meteorologista e modelador climático no Centro Helmholtz de Pesquisa Oceânica em Kiel, na Alemanha, que estuda a polínia desde a metade de setembro.


Imagem: Mark Brandon

Outros pesquisadores da antártica também compartilharam sua animação com o buraco de gelo no Twitter:

Acredita-se que a polínia de Weddell surgiu graças ao afloramento de água morna, que libera calor no ar, antes de esfriar, ficar mais densa e afundar.

“A polinia é como uma grande janela”, diz Martin ao Gizmodo. “Apesar do calor do buraco de gelo escapar pelo oceano, esquentando a atmosfera, ele também esfria as águas abaixo dele”.

De acordo com Céline Heuzé, uma oceanógrafa física na Universidade de Gothenburg, na Suécia, água submersa dentro da polínia contribui na formação de uma água profunda do antártico muito fria e muito densa, que alimenta o sistema oceânico global.

“É um mistério na Antártica no momento”, diz Heuzé. “Na formação global, sabemos quanto de águas profundas deveriam ser formadas, mas as áreas que sabemos que as formam não estão criando quantidades o suficiente. Temos uma fonte de água profunda que estão faltando em algum lugar. Talvez [a polínia de Weddell] esteja contribuindo para isso”.

O ciclo da polínia – ou liberação de calor, seguido de afundamento da água – deve continuar até ser interrompido pelo calor da primavera, ou a adição de água fresca do gelo derretido, que estratifica o oceano. Enquanto a polínia é uma característica que ocorre naturalmente, alguns pesquisadores acreditavam que ela desapareceria com o aquecimento global.

Martin explica que os modelos climáticos de seu grupo afirmaram que a polínia de Weddell poderia voltar, como parece ocorrer.

“Enquanto muitos modelos climáticos tendem a produzir largas polínias em mares abertos, essa característica foi vista no passado mais como um erro do que um verdadeiro fenômeno”, diz Martin. “A reincidência dela confirma a nossa hipótese… que a polínia de Weddell não é um evento único, mas que ocorreu regularmente no passado”.

Martin também acredita que o ressurgimento da polínia sugere que o aquecimento global “não é forte o suficiente ainda para suprimir essa variação interna” no Oceano Antártico. Este oceano é, inclusive, meio que uma anomalia quando o assunto é a mudança climática: é um dos lugares que mais demora para se aquecer na Terra, e, com a notável exceção do ano passado, seu gelo oceânico vem crescendo, em vez de derreter, segundo registros de satélite.

Um estudo publicado ano passado atribuiu a habilidade do oceano de se manter frio com poderosas correntes despejando água quente do norte, apenas para ser reabastecido com águas velhas e geladas das partes mais fundas do oceano. Mudanças nos ventos ao redor da Antártica também estão envolvidos. A verdade é que não sabemos de fato porque o Oceano Antártico não se aquece mais rapidamente, e a polínia de Weddell é apenas mais uma peça neste complexo quebra-cabeça.

“Nós realmente não sabemos o que está acontecendo”, diz Heuzé. “Ainda não temos observações o bastante do Oceano Antártico”. Ela espera que o ressurgimento da polínia leve a expedições científicas à região – pois podemos aprender apenas até um certo ponto com imagens de satélite.

“No momento, qualquer expedição para o Oceano Antártico precisa ser planejada anos antes”, diz Heuzé. “Mas espero que agora que a polínia se formou, as pessoas sigam até lá para observá-la. Você pode monitorá-la por satélites, mas para saber mesmo o que está acontecendo com os oceanos é preciso ir até lá”.

Imagem de topo: Fumaça presente em uma típica polínia pequena (Jan Lieser, ACE CRC, Austrália)