Alguns pais de pet alegam conseguir entender as expressões faciais de seus cães claramente, mas é completamente possível que eles só estejam projetando. Uma nova pesquisa sugere, no entanto, que não é só a imaginação deles: cães de fato mudam para o modo “olhos fofinhos”, mas só quando estão na presença de uma plateia cativa.

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Uma pesquisa publicada na Scientific Reports mostra que cães fazem expressões faciais na presença de humanos, e isso não é algo que eles fazem simplesmente porque estão animados. Em experimentos conduzidos por pesquisadores do Centro de Cognição Canina da Universidade de Portsmouth, cães orientavam seus rostos em resposta à atenção humana, enquanto exibiam significativamente menos movimentos faciais quando diante de comida. A descoberta sugere que cães usam expressões faciais para se comunicar com humanos, um traço que pode ter surgido como resultado da domesticação.

E, de fato, a expressão facial mais comum observada no experimento foi aquela dos olhos fofinhos. Aquela em que um cão, para parecer ainda mais adorável, levanta as sobrancelhas e fica com olhos esbugalhados. A língua estendida foi outra pose fofa observada no estudo.

Para o experimento, os pesquisadores testaram duas dúzias de cães de várias raças, todos bichos de estimação de alguma família, indo da idade de um a 12 anos. Cada cão foi amarrado a um ponto e colocado a cerca de um metro de distância de uma pessoa (o estímulo). As expressões faciais dos cães foram filmadas pelo DogFACS, um sistema de codificação que mede mesmo os menores movimentos de expressões faciais.

“Apresentamos aos cães uma situação experimental em que um demonstrador humano estava ou prestando atenção neles ou virado de costas, e variamos se ele trazia comida ou não”, escrevem os autores no estudo. “Os cães produziram significativamente mais movimentos faciais quando o humano estava prestando atenção. A comida, no entanto, como um estímulo incitante, mas não social, não afetou o comportamento dos cães.”

“As descobertas parecem dar suporte às evidências de que cães são sensíveis à atenção dos humanos e que expressões são potencialmente tentativas ativas de se comunicar, não apenas simples demonstrações emocionais”, explicou a autora principal Juliane Kaminski, em um comunicado. Outros mamíferos são conhecidos por fazer expressões faciais, mas essa é a primeira evidência a mostrar que os cães as fazem como uma forma de comunicação.

É possível que os cães tenham conseguido essa capacidade como resultado de nossa relação simbiótica de 15 mil anos com eles. Talvez tenhamos colocado essa capacidade neles, deliberadamente ou inconscientemente. E, aliás, um estudo de 2013 mostrou que potenciais donos de cães tinham maior probabilidade de escolher um cão com características faciais juvenis (ou seja, expressões faciais pedomórficas) do que cachorros com aparência “mais velha”. Dito isso, também é possível que os cães tenham mantido sua capacidade de fazer expressões faciais desde seus dias como animais selvagens. Uma análise comparativa com lobos modernos parecia estar em ordem.

Além disso, esse estudo não nos diz se os cães estão voluntariamente ou inconscientemente alterando seus rostos em resposta à atenção humana. Poderia ser uma tentativa direta de se comunicar ou então uma reação instintiva quando na presença de um humano atencioso. Isso não significa também que os cães são capazes de entender o estado emocional de uma pessoa ou sentir empatia por ela. Sabemos que cachorros conseguem farejar medo em um humano (e então ficar com medo, também), então é possível que eles possam, sim, sentir empatia e entender as emoções humanas, mas é preciso mais evidência científica para afirmar isso.

Enquanto isso, pai de pet, aproveite aquele olhar carinhoso do seu bichinho. E saiba que provavelmente é por causa de você.

[Scientific Reports]

Imagem do topo: latteda/Flickr