Bill Gates não parece muito interessado em manter seu título de homem mais rico do mundo.  Ele foca, principalmente, em filantropia, mas não pense por um segundo que ele perdeu a capacidade de iniciar um novo marco para seus competidores ricos. Segure-se: uma nova era em que multibilionários da tecnologia são os donos da cidade em que você vive se aproxima.

Em algum lugar nos arredores das White Tank Mountains, no Arizona, existe um terreno com aproximadamente 10,1 mil hectares que em breve se chamará Belmont. De acordo com os registros de propriedade revisados pelo Arizona Republic, a área mais inabitável foi recentemente adquirida pela companhia de investimentos Belmont Properties LLC, uma companhia que é controlada pela Cascade Investment, uma holding que, por sua vez, é controlada por Bill Gates. Sim, são diversas camadas que distanciam a posse do que em breve se tornará uma cidade.

Em um comunicado, Larry Yount, gerente da Belmont Partners, explicou o que Gates e cia. têm em mente para a cidade que será construída do zero:

O desenvolvimento de Belmont exemplifica o panorama geral do que tem sido um marco único no desenvolvimento econômico da história do Arizona. Belmont ilustra que o Arizona continua pioneiro na América nas tendências de planejamento urbano e importantes desenvolvimentos em avanços de energia solar e sistemas de distribuição elétrica, automóveis autônomos, banda larga e data centers.

De acordo com o Arizona Republic, a área conterá “até 80 mil casas, 3.800 acres de indústria, escritório e varejo, 1.537 hectares de espaço aberto e 190 hectares de escolas públicas”.

Tudo isso parece bem interessante. É animador pensar na construção de uma cidade que pode ser o modelo visionário para o desenvolvimento da infraestrutura em um país como os EUA. É tudo muito interessante até você lembrar que, até o ano passado, as cinco empresas mais valiosas do mundo eram todas empresas de tecnologia. É tudo muito interessante até você lembrar que o Vale do Silício pode acabar automatizando muitos dos nossos empregos. É tudo muito interessante até você se lembrar que um punhado de bilionários está remodelando cada faceta de nossa sociedade, e eles não têm a mínima ideia de quais serão as consequências dessas ações. É tudo muito interessante até você gritar: “Bill Gates está construindo sua própria cidade!”.

É comum comparar a Era da Informação, que está apenas começando, com o começo da Revolução Industrial. Estamos vendo salários estagnarem, renda indo apenas para as mãos de alguns, a destruição de ocupações confiáveis e megacorporações engolindo cada competidor que se atreve a ameaçar sua dominância. Tudo isso enquanto sindicatos que ajudaram a enterrar barões usurpadores do passado são enfraquecidos a ponto de se tornarem virtualmente impotentes. Mas uma característica daquela era tem demorado para surgir nesta nova: a cidade operária.

Muitas das cidades construídas nos EUA no inicio do século XX eram virtualmente propriedade da companhia que empregava os cidadãos. Moradores trabalhavam para a companhia, compravam mercadorias nas lojas da companhia e pagavam alugueis de suas casas para a companhia. Era ótimo para a empresa porque ela geralmente pegava de volta todo o dinheiro que gastava e costumeiramente também era dona do governo local. As condições de trabalho, no entanto, eram bem ruins.

Hoje, Apple e Google provavelmente são as empresas que mais se aproximaram de construir sua própria versão da cidade operária. Elas nos empurram essas incríveis estruturas de trabalho que encorajam funcionários a trabalhar por maratonas enquanto fornecem boas refeições e amenidades. É um pouco diferente da exploração dos tempos antigos; a mão de obra também precisa ter habilidades avançadas. Engenheiros trabalham longas horas, funcionários de serviços não recebem as mesmas regalias, e temos ainda a explosão da mão de obra sem-teto na região do Vale do Silício.

Isso significa que uma nova forma de cidade operária liderada por Bill Gates está prestes a surgir? Na verdade, não. Gates provavelmente trará toneladas de investimentos e parceiros externos para construir Belmont, e ela provavelmente vai se parecer com a maioria das pequenas cidades do Arizona. Por enquanto, ele está apenas investindo US$ 80 milhões no projeto, e não há nenhuma indicação de que a Microsoft esteja envolvida. Mas caso essa tendência econômica continue, e este déjà vu do início da era industrial persista, é melhor você ter medo de cidades como “ZuckerBurg”, na Pensilvânia, ou “BezosTown”, em Illinois. E vamos combinar que “Bill’sVille” é um nome muito melhor que Belmont?