A “Última Ceia” de Giorgio Vasari, catastroficamente danificada em 1966 pela enchente do Rio Arno em Florença, finalmente teve suas partes reunidas de novo — com uma ajuda de cola feita de esturjões. Sim, esturjões, os peixes.

A Fundação Getty, de Los Angeles, financiou o trabalho pesado, que foi tão complexo que teve que esperar quase meio século até que as técnicas de restauração de arte necessárias fossem desenvolvidas. Essas técnicas incluem uma impressionante gama de materiais e processos técnicos, que se concentram em parâmetros extraordinariamente específicos de uma obra de arte: sua expansão térmica, sua reação à umidade e até mesmo a pressão barométrica da sala ou do compartimento em que ela está. Tudo isso dá faz com que esses objetos se pareçam com espécimes biológicas num museu de história natural. Em outras palavras, é como se eles não fossem artefatos mortos, mas sim vivos, que respiram, transpiram, dilatam e reagem à luz do sol.

ultimaceia

Tipos completamente novos de materiais precisaram ser desenvolvidos para cumprir a tarefa de restauração. No caso específico da “Última Ceia” de Vasari, os painéis individuais do quadro –que foram separados depois dos danos causados pela inundação– encolheram em diferentes tamanhos, com desigualdades de cerca de 3cm, deformando a pintura e tornando impossível encaixar tudo de novo.

Como o Guardian explicou na semana passada, as condições debilitadas do quadro tiveram um fim com algumas técnicas pouco avançadas –como enfiar “pequenas lascas de madeira” nos vãos entre os painéis–, além de um exemplo bem esquisito e inesperado de biomimética, como revestir novamente a superfície da pintura com “uma cola feita de esturjões, trazida à Florença por experts russos depois da enchente”. A parte de trás do quadro foi, então, estabilizada cirurgicamente usando uma série de barras transversais “especialmente trabalhadas”, semelhantes a talas usadas para colocar no lugar uma perna fraturada; uma delas foi, na verdade, feita pelo próprio Vasari, para ajudar a segurar a obra original unida em uma única peça.

Em todo caso, a estabilização química, térmica e atmosférica de objetos históricos é um campo extraordinário em termos de necessidades técnicas e avanços científicos. Cada pintura, estátua, parte de um móvel, sarcófago ou outro objeto antigo que você vê hoje num museu é também uma façanha técnica. Assim como orquídeas raras são cultivadas em pequenas estufas com luz e temperatura feitas sob medida para elas, quadros e outras obras de arte são pequenas atmosferas e ecossistemas exibidos em colunas para você ver e aprender um pouco de história. [Guardian]