Em novembro de 2014, após viajar por dez anos e centenas de milhares de quilômetros, uma espaçonave europeia vai pousar em uma bola de gelo e poeira de 4 km de largura que viaja em direção ao Sol. E se tudo sair conforme o plano, esse acontecimento sem precendentes enfim nos dará o que precisamos para entender as origens da vida na Terra. O problema disso tudo está na parte do “sair conforme o plano”.

Até agora, qualquer tentativa de estudar cometas envolvia tanto voar próximo a eles tentando igualar a sua velocidade, ou literalmente bater neles e então de alguma forma torcer para que o material quebrado mostre alguma informação relevante. Esta nova espaçonave, no entanto, é uma criatura bem mais sutil; ela passou os últimos dez anos perseguindo meticulosamente o cometa.

rosetta

A nave espacial, chamada Rosetta, foi lançada em 2004 e entrou em hibernação em 2011 para economizar energia enquanto espera a passagem do cometa Churyumov-Gerasimenko. Na manhã do dia 20 de janeiro de 2014, Rosetta vai acordar da sua soneca e se preparará para pegar o cometa quando ele se dirigir para ela.

Assim que acordar, Rosetta vai imediatamente começar a observar a navegação do cometa, dando aos cientistas a informação necessária para eles perceberem qualquer mudança no caminho do cometa e corrigir o trajeto final caso necessário. Então, em agosto, a nave espacial enfim viajará em direção ao Churyumov Gerasimenko, e em certo ponto vai circundar o cometa e criar um mapa baseado na superfície dele. Em novembro, o mapa já estará feito, o rumo traçado, e o pequeno módulo Philae da Rosetta será enviado para o cometa.

Circular o cometa não é nada simples, no entanto. O Churyumov Gerasimenko quase não tem gravidade, então a Rosetta precisará usar jatos para manter alguma espécie de órbita ao seu redor. Além disso, o Raw Story destaca que conforme Rosetta se aproximar do Sol, as “nuvens de vapor e gás escorrendo a superfície do cometa vão chegar aos painéis solares de 14 metros de comprimento da sonda como ventos movendo uma vela”. Então manter um círculo constante vai ser uma tarefa bem complicada.

Nada parecido com isso foi tentado exceto pelos filmes Impacto Profundo e Armageddon, ambos de 1998, e são muitos os potenciais problemas que acompanham a tentativa de chegar a um ambiente desconhecido como esse. Para começar, os cientistas envolvidos na missão não fazem ideia de como é a superfície do Churyumov Gerasimenko, e disseram ao The Telegraph que pode tanto ser algo concreto como um algodão doce. E há uma grande diferença entre os dois. Também há um pequeno problema com o fato do cometa não ter gravidade. Então para se segurar, a sonda vai ter que atirar uma lança na superfície do planeta enquanto estiver em alta velocidade para literalmente pegar uma carona.

E se isso não é o bastante, a Rosetta está totalmente incomunicável com a Terra nesses 957 dias de cochilo. Então, naturalmente, os cientistas estão um pouco nervosos com a futura reunião. Como o Dr. Chriss Carr, principal investigador da equipe, explicou ao The Telegraph:

Já é bem incomum colocar algo em hibernação sendo que nunca foi usado antes. E fazer isso com algo que você gastou algumas centenas de milhões de euros, desligar o aparelho e deixá-lo flutuando no espaço por dois anos sem nenhum contato, é algo sem precedentes.

Falando ao Raw Story, Mark McCoughream, conselheiro científico sênior da agência, elaborou mais a questão da tensão da equipe:

Se o alarme falhar e a Rosetta não acordar, teremos problemas. No dia, vamos esperar na sala de controle, ansiosos para ouvir algum sinal da nave. No entanto, pode demorar longas horas até ela completar os procedimentos para acordar e enviar uma mensagem para a Terra para nos avisar que está viva. Será um dia tenso.

Considerando quão arriscado essa hibernação é, a conservação de energia parece uma prioridade estranha. Mas não foi uma escolha. Rosetta é um monstro movido a energia solar, e estar quatro vezes mais distante do Sol do que a Terra significa que quase nenhum raio solar vai chegar a ela para fornecer mais energia. Então vamos apenas torcer para que ela não tenha problemas para acordar.

Claro, tamanho risco acompanha uma recompensa imensa. Conforme o cometa se aproxima do Sol, ele vai se esquentando e se torna o que cientistas chamam de “ativo”, um estado onde o seu gelo começa a derreter e lançar gás. E como o cometa se manteve virtualmente não afetado desde a criação do sistema solar bilhões de anos atrás, a equipe espera que, ao estudar a forma como ele muda conforme se aproxima do Sol, ela seja capaz de entender de maneira mais profunda como a Terra se formou.

Mas, novamente, isso tudo depende de tudo sair de acordo com o planejamento. Em outras palavras, vamos manter os dedos cruzados. [APESAThe TelegraphRaw Story]