Quando eu fui para a prisão, em 1987, a Motorola fabricava o celular cinza enorme que eu usava. As pessoas chamavam ele de “tijolo”. Ele tinha capacidade para enviar e receber ligações, mas não tinha como enviar mensagens de texto.

Eu também tinha um pager, mas só podia transmitir dígitos  até onde eu lembro. Eu tinha um computador fabricado pela IBM com DOS, que eu não entendia, e 40 megabytes de memória. Falaram para mim que era um bom negócio ter um. Eu liguei o computador a uma impressora matricial da Epson, e lembro que colocava papel perfurado num sistema de leitura que descarrilava facilmente. Era uma tristeza.

A tecnologia mudou consideravelmente durante os 25 anos que estive preso. Eu li muito durante este período, mas ler sobre tecnologia é como ler sobre datilografia. Não importava quanto eu lia, eu não compreendia o poder da tecnologia até começar a usá-la. Esqueça o poder, eu nem ao menos entendia a linguagem da tecnologia. Por exemplo, eu nunca entendi o que as pessoas queriam dizer quando falavam em “navegador”. Na verdade, eu pedi para minha mulher definir o que era um navegador e, quando ela 0 descreveu como um programa que permite acessar a Internet, eu fiquei sem reação.

“Mas eu pensava que o navegador era a caixinha de texto na parte de cima da tela, onde eu digito o que eu quero encontrar no Google.”

“Não, querido”, ela disse, “esta é a barra de URL.”

Eu fiquei mais de 25 anos preso, e não faz nem cinco meses que estou livre, então talvez os outros possam entender minha ignorância quando o assunto é tecnologia. Eu consigo aceitar que volumes de informação básica estão além da minha capacidade de compreensão por enquanto, mas com tudo que eu tenho para aprender, não sei se eu vou compreender tudo que eu preciso. Eu não tenho ideia do que é um “servidor”, e não sei direito como deixar meu conteúdo disponível para as pessoas que precisam dele. Na verdade, a tecnologia não é a única área que me faz sentir como se eu estivesse vivendo num túnel do tempo, mas eu postarei uma resposta diferente para as outras áreas da minha ignorância.

Com relação à tecnologia, eu sinto uma desvantagem real porque eu penso nela com um componente central do negócio que eu quero estabelecer. Eu me considero com a responsabilidade ou o dever de ajudar outras pessoas a entender o que são as prisões, as pessoas que estão lá e estratégias para crescer no confinamento de maneira que isso possa ajudar as pessoas a receberem valores, habilidades e fontes que podem ser traduzidas em sucesso. A tecnologia pode me ajudar muito a conseguir isso, mas como eu não entendo como usá-la efetivamente, estou como num mundo perdido.

Desde que saí da prisão, eu dei uma atenção considerável a uma estratégia de tecnologia. Minha esposa estava acostumada a usar produtos Microsoft, mas tudo que eu li indicava que os produtos da Apple ofereciam uma curva de aprendizado muito mais rápida. No dia que ela me pegou, me deu um iPhone 4S. Durante minha primeira semana de liberdade, comprei um MacBook Pro e um iMac. Eu esperava que eles funcionassem em conjunto. Mas, como minha esposa não estava familiarizada com produtos Apple, ela insistiu que eu os enchesse de produtos Microsoft para ela poder me ajudar quando eu tivesse problemas. Eu tive muita dificuldade em tarefas simples como email ou sincronizar os computadores. Eu também tive problemas para lembrar todas as senhas que ela me passou. Eu digo a ela que nós deveríamos usar apenas uma senha, mas ela responde falando dos perigos de roubo de identidade. Como eu conheci muita gente na prisão que foi para lá por roubo de identidade, eu acho que minha mulher está certa.

Eu gosto da plataforma Quora porque é bem simples. As pessoas me perguntam coisas e eu respondo. Mas eu não sei o que todas as características e funções significam. Eu não sei nada sobre usar créditos para promover meu trabalho, ou como usar a plataforma de uma maneira que ajude a fortalecer minha marca pessoal ou trazer mais conhecimento à área que eu domino. Algumas pessoas que trabalham no Quora me ofereceram ajuda em como usar a plataforma, então eu poderei ter o privilégio dessa orientação. Por enquanto, tudo que eu sei é que respondendo as perguntas das pessoas, eu estou dando algum conhecimento sobre o mundo obscuro das prisões.

Além do Quora, eu uso outras formas de mídia social para aumentar meu alcance, e contratei um desenvolvedor para fazer um site que eu esperava que traria mais atenção ao meu trabalho. Com tão pouco conhecimento de tecnologia, no entanto, eu não me sinto chegando na quantidade de pessoas que eu poderia atingir, possivelmente. Por isso, não consigo gerar o movimento que preciso. Estou tentando resolver estes problemas rapidamente, mas minhas limitações em usar o poder da tecnologia me fazem agir com muito cuidado.

Eu pretendo aprender mais sobre tecnologia e mídias sociais, mas com tudo além disso que eu tenho que qprender, eu não sei que nível de progresso esperar.

Imagem: Cosma/Shutterstock e andersphoto/Shutterstock


Este artigo foi republicado do Quora com gentil permissão de Michael Santos. Você pode ler sobre a jornada de 25 anos dele na prisão, desde a detenção em 11 de agosto de 1987 à soltura em 13 de agosto de 2012 em seu novo livro, Earning Freedom. Você também pode seguí-lo no Twitter aqui.