Quando se menciona o Renascimento Italiano, os nomes que vêm a cabeça de qualquer um são Médici, Da Vinci e Galileu. São poucos que conhecem o nome Bartolomeo Cristofori, um artesão talentoso que viveu e trabalhou nesse período. Você pode nunca ter ouvido o nome dele, mas certamente conhece sua maior invenção: o “harpsicórdio com alto e baixo”, mais conhecido atualmente como o piano.

Pouco se sabe da família ou da infância de Cristofori, além de que ele nasceu em 1655 e cresceu na cidade de Pádua, na época localizada na República de Veneza. Quando adulto, além de trabalhar com uma variedade de instrumentos, ele foi um notável fabricante de harpsicórdios.  Com essa linha de trabalho, aos 33 anos, ele atraiu a atenção de Ferdinando de Médici, o filho e herdeiro de Cosimo de Médici, o Grão Duque da Toscana. Médici contratou Cristofori para ajudá-lo a manter os instrumentos de sua vasta coleção, além de tentar inventar alguns novos.

No entanto, de início Cristofori não estava interessado na oferta. Em um dos poucos registros do homem que temos, ele nota que “foi dito ao príncipe que eu não desejava ir; ele respondeu que me faria querer…”  E, de fato, Cristofori começou com um salário mais alto que o de seu predecessor (que havia acabado de morrer), recebendo 12 escudos por mês além de uma casa totalmente mobiliada e que incluía as ferramentas que ele precisaria para fabricar e fazer a manutenção de instrumentos. Eventualmente também foi dada a ele sua própria oficina e dois assistentes para que ele não precisasse compartilhar o espaço com os outros artesãos que trabalhavam para Médici.

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Antes de Cristofori inventar o piano, faltava um instrumento de cordas com teclado que oferecesse uma gama de expressão musical e ainda fosse adequado para performances públicas. As opções principais eram o harpsicórdio (mais conhecido como cravo) e o clavicórdio. Ambos os instrumentos funcionam por pressão nas teclas de um teclado que resulta na vibração de uma corda correspondente. O principal problema com eles é que o volume do cravo não podia ser aumentado ou diminuído enquanto ele era tocado, e o som do clavicórdio era simplesmente baixo demais para ser utilizado em performances. Assim, era tipicamente usado pelos músicos para composição e treinos. O design do piano superou esses dois problemas.

Um inventário dos instrumentos musicais dos Médici em 1700 revela que o primeiro piano foi criado por Cristofori mais ou menos nessa data, embora fosse originalmente chamado de “arpicembalo”:

Um grande “Arpicembalo” feito por Bartolomeo Cristofori, uma nova invenção que produz sons altos e baixos, com dois conjuntos de cordas de altura uníssona, com caixa Sonora de cipreste sem rosa…

“Arpicembalo,” era um instrumento que se parecia com o cravo. A data de sua invenção é considerada como algo entre 1698 e 1699, mas Cristofori poderia estar trabalhando no instrumento desde 1694. Contudo, ele só foi apresentado ao público muito mais tarde, em 1709.

A invenção se tornou conhecida como pianoforte, união dos termos italianos para “suave” e “forte” (piano-forte).  Era descrito dessa forma no inventário citado (che fa’ il piano, e il forte), e em 1711 um jornalista chamou publicamente o instrumento de um “cravo com altos e baixos”, “gravicembalo col piano e forte” (gravicembalo sendo uma corruptela do nome italiano do cravo, — clavicembalo). Como a habilidade de emitir notas mais baixas ou mais altas enquanto era tocado era uma das características marcantes do instrumento, o nome pegou. Mais tarde, é claro, foi abreviado para simplesmente “piano.”

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Desenhos e descrições do design original do piano foram publicadas em 1711 e fabricantes de instrumento por toda a Europa começaram a tentar recriar o instrumento inovador de Cristofori, especialmente Gottfried Silbermann, da Alemanha. Silbermann era tão conhecido por seu trabalho com o piano que ele é muitas vezes chamado incorretamente de seu inventor. Na verdade, apesar de Silbermann ter um papel fundamental na história do piano (e ter inventado o precursor do pedal de sustentação), ele dependia dos desenhos de Cristofori para criar sua própria versão do instrumento, aparentemente feita um ano após a morte de Cristofori.

Entretanto, de acordo com Johan Friedrich Agricola, um músico do século XVIII, os primeiros trabalhos de Silbermann com o piano não foram muito bons.  Após ter completado sua primeira versão, Silbermann fez com que Johann Sebastian Bach o testasse e os resultados não foram exatamente brilhantes. As críticas de Bach ao instrumento levaram Silbermann a desenvolver um piano melhor, dessa vez tentando copiar os desenhos posteriores de Cristofori, dos anos 1720, que já continham muitas das ferramentas presentes nos pianos modernos. Depois de copiar essa versão e dá-la pra Bach testar, o compositor mudou de tom sobre a construção de Silbermann. Existem algumas outras evidências que talvez deem crédito a história de Agricola, ao menos a parte sobre Bach ter gostado das versões finais do instrumento feitas por Silbermann, existe um recibo de 8 de maio de 1749 que mostra que Bach ajudou Silbermann a vender um de seus pianos.

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De qualquer forma, após ter inventado o piano, é provável que Cristofori tenha continuado a trabalhar para a família Médici, mesmo depois da morte de seu bem-feitor imediato, Ferdinando de Medici, em 1713. O próprio Cristofori morreu em 1731, com 76 anos de idade, tendo passado a última parde da sua vida tentando desenvolver melhorias para o piano.

Três de seus pianos sobrevivem até hoje. O mais antigo, de 1720, está no Metropolitan Museum of Art em Nova York. Os outros dois, também de 1720, reside no  Museo Strumenti Musicali em Roma e no Musikinstrumenten-Museum na universidade de Leipzig.

Fatos:
•    O piano de Cristofori que está no Metropolitan tem apenas cinquenta e quatro teclas, enquanto o piano moderno normalmente tem oitenta e oito teclas..
•    Embora historicamente as mulheres não tocassem piano em performances públicas com frequência, era esperado que elas soubessem tocar e ensinassem o instrumento a seus filhos como parte de uma educação adequada. Dessa forma, muitas mulheres começaram a ganhar dinheiro oferecendo serviços como professoras de piano.

[Imagem de destaque via kkmarais]