RSS parece uma grande ideia: através de um código, você consegue acompanhar as notícias de uma determinada publicação (uma seção de um site ou um blog) sem ter que visitar a fonte, sem sujar as mãos, provavelmente em um lugar mais ajeitadinho, como o Google Reader ou um app agregador de feeds. Através do RSS, os artigos que você quer ler chegam de maneira formatadinha, sem aquela publicidade para encher o saco, e você ainda pode marcar o que já foi lido, escolher favoritos, encaminhar para outros o que parece interessante. É uma maneira rápida, prática e elegante de consumir informação. E basicamente terrível. Se você me perguntar qual foi o maior ganho que tive ao mudar de posto aqui no Giz, te direi rapidamente: o estado do meu leitor de RSS. Eu fico feliz com ele hoje e o odiava 5 dias atrás. O que mudou?

Como editor do Gizmodo, eu precisava saber tudo que os outros sites estavam noticiando, o tempo todo. Cinco blogs de Android, dois da Apple, todos os grandes veículos nacionais, The Verge, Engadget, TechCrunch, etc etc etc. Se eu passasse um dia sem ler, tinha um número enorme na caixinha, algo como 638 (foi a última vez que aconteceu). Este número era amedrontador, e para evitar que ele crescesse e virasse um monstro, muitas vezes antes de levantar da cama eu pegava o Reeder no iPad ou o iPhone e lia normalmente só a manchete e colocava a estrelinha quando a coisa era minimamente interessante. Depois de passar os olhos em um monte de coisa (90% de alguma forma repetida) eu fazia a segunda triagem dos itens estrelados e distribuia as pautas, ou marcava para ler depois. Parecia necessário. Não podia deixar passar qualquer notícia relevante.

Reeder ícone RSSMas será mesmo? No meu feed, havia um blog de Android em que 90% das notícias era sobre o update de firmware ou um novo aparelho com 0,2 MHz a mais que o anterior, enquanto metade das notícias do blog da Apple era sobre inaugurações de Apple Stores pelo mundo ou rumores do iPróximo. Blogs brasileiros de tecnologia em sua grande parte republicam o que rola lá fora, então na teoria seria possível diminuir um bocado o número de feeds e me manter igualmente informado. Mas e o medo de perder alguma história incrível de uma fonte improvável? E se o blogqualquercoisa do Brasil der outro furo igual aquele de 6 meses atrás e eu não for um dos primeiros a saber?

Era a situação que vivia a colega Jacqui Cheng, do Ars Technica, que diminuiu o seu feed de RSS de maneira radical. Em um post intitulado Por que se manter em dia com o RSS é venenoso para sua produtividade e sanidade, Jacqui conta:

A primeira vez que fiquei sem acessar o RSS completamente, em agosto, eu simplesmente diminuí para três ou algo assim o que eu considerava como os melhores sites para ter as notícias. Eu combinei isso com as minhas conversas normais por email (dicas dos leitores, conversa com assessores de imprensa de empresas diferentes, entrevistas em andamento, etc) e minhas olhadelas regulares no Twitter para saber o que estava rolando durante o dia. Era uma forma não-estressante, e eu nunca senti que eu estava perdendo algo — eu sabia que se algo realmente importante ou controverso estourasse, eu saberia instantaneamente pelo Twitter ou através dos nossos leitores leais.

Então, mesmo que você seja um blogueiro profissional, jornalista que aparentemente tenha alguma necessidade de se manter atualizado pelo RSS, saiba que há alternativas. Como Jacqui Cheng notou, hoje há uma enorme redundância de informação. Se você segue o Gizmodo Brasil no Twitter e o atualiza com frequência, por exemplo, não há muito motivo de assinar o nosso feed. E se você segue amigos que têm razoavelmente os mesmos interesses que você nas redes sociais, saberá logo quando alguma notícia importante rolar no minuto que ela cair na rede, seja a contratação de um jogador de futebol ou a duração da bateria do próximo iPad. A campanha começou: troque assinaturas de feeds por amigos mais interessantes.

Se a redundância e a ansiedade causada pelo número de “coisas não-lidas” não são motivos o suficiente para você abandonar o RSS, considere uma questão econômica importante: se todas as pessoas lerem o Gizmodo apenas pelo RSS, este blog querido deixa de existir. O que mantém o site é a publicidade, e se o pessoal ler o conteúdo sem entrar no site em si, perdemos nossas visualizações de página e a fonte de renda. Eu faço a concessão para os apps de smartphone que lêem feed — afinal, muitas páginas são pesadas demais e consomem muito dos nossos já lerdos planos dados, e são uma maneira mais econômica de ler os sites favoritos.

Eu acredito que abrir o site tem várias vantagens: a organização de vários deles ou o número de leituras/comentários já diz o que é mais importante. Você não precisa ler tudo, nem passar por todas as manchetes. E uma foto boa pode te chamar a atenção para um negócio que você nem daria muita trela na listagem do seu Google Reader, além dos comentários, que podem te dar um estímulo a voltar no site várias vezes. Fora que sites que são atualizados muitas vezes por dia, como o Giz, aumentam demais o número do mal de coisas não lidas. Unread, palavra do capeta.

De sexta-feira pra cá meu feed mudou drasticamente. Troquei a aba “tech” pelas visitas ao Giz e outros dois sites de tecnologia, com pegada diferente e menos notícias quentes (Ars Technica e Daring Fireball), coloquei o Best New Albums do Pitchfork, os quadrinhos do XKCD, um negócio de jogos de tabuleiro para iCoisas e as bizarrices do Geekologie. Enfim, troquei irritações redundantes por coisas divertidas e bem escritas e mais pessoas interessantes seguidas no Twitter. Visitas esporádicas a um ou outro site de notícias genéricas é suficiente para me manter informado, e os blogs da casa já me saciam. No assunto tecnologia, se quiser alguma opinião diferente da que o Giz coloca, tenho meia dúzia de favoritos para ir atrás.

Resumindo: eu pisei no freio. E me sinto bem mais saudável agora. Porque para mim, o RSS mal gerenciado é um exemplo incrível de como estamos com uma péssima dieta de informação, e como ela é tão danosa para a saúde quanto uma alimentação ruim em termos de desperdício do nosso tempo e piora na saúde (a não ser que você seja uma das 4 pessoas que lê o Google Reader correndo, o excesso de informação do RSS aumenta o sedentarismo). Foi o que notou Clay A. Johnson no bom livro Information Diet:

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Movidas pelo desejo de lucro maior e público mais abrangente, as empresas de mídia procuram produzir notícias da maneira mais barata possível. Como resultado, elas promovem a reafirmação [do que já acreditamos] e sensacionalismo sobre informação balanceada. E em retorno, nós precisamos formular uma dieta da informação — o que consumir e o que evitar — neste novo mundo de abundância de informação.

O primeiro passo é perceber que há escolha envolvida. Por mais que nossas televisões, rádios e salas de cinema queiram que nós acreditemos no contrário, o consumo de informação é uma experiência ativa tanto quanto comer, e para termos vidas saudáveis, nós temos que mover os nossos hábitos de consumo de informação da forma passiva semelhante ao zapear pelos canais para a linha de frente de escolhas conscientes.

Pra mim, zerar o número de leituras no RSS é muito parecido com ir do canal 0 ao 99 na TV, e você não vai ter de volta na sua vida aquele segundo e meio que você gastou vendo um pedaço de corrida de cavalos enquanto buscava a décima quinta reprise do seriado que você parou de assistir. Ou, se a analogia for com a comida, escolher melhor os ingredientes do seu Google Reader melhorarão sua saúde. É bom tirar o sangue, o sensacionalismo, o excesso de açúcar (e talvez de maçãs) e as coisas amargas — e óbvias — demais. É uma mudança dieta simples, que certamente vai melhorar sua vida.