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Como foi – e o que significa – a vitória do computador da IBM sobre os humanos em Jeopardy!

O mais tradicional programa americano de perguntas e respostas, Jeopardy!, no ar desde 1964, está atualmente em uma edição muito especial. Durante três dias dessa semana – 14, 15 e 16 de fevereiro de 2011 – um computador competiu contra o cérebro humano em uma disputa de conhecimentos gerais, usando linguagem humana. Os adversários não eram […]

O mais tradicional programa americano de perguntas e respostas, Jeopardy!, no ar desde 1964, está atualmente em uma edição muito especial. Durante três dias dessa semana – 14, 15 e 16 de fevereiro de 2011 – um computador competiu contra o cérebro humano em uma disputa de conhecimentos gerais, usando linguagem humana. Os adversários não eram duas pessoas quaisquer: Ken Jennings e Brad Rutter são os dois campeões de maior sucesso da história do programa. Mas o computador também não é qualquer um: trata-se de um monstro composto por 100 servidores IBM Power 750 e equipado com 15 terabytes de RAM. O nome dele é Watson. E ganhou de lavada. Como ele fez não é tão elementar.

Para quem não conhece, o Jeopardy é um jogo de perguntas e respostas com um twist: os participantes recebem dicas em forma de respostas e precisam responder na forma de perguntas (por isso a maioria das respostas começa com “what is…“). Os participantes escolhem uma das categorias no painel e podem selecionar as de valor e dificuldade mais elevados se estiverem perdendo ou quando estão bem confiantes. As categorias, algumas bem específicas e outras perigosamente genéricas, são reveladas apenas no início da partida.

Ocupando a bancada do meio, entre os seus dois adversários humanos, Watson era apenas uma tela com um ícone animado. Um avatar. O verdadeiro Watson é um supercomputador que ficou acondicionado em uma sala climatizada ao lado do estúdio, dentro de dez racks de servidores. Mais precisamente 100 servidores IBM Power 750 e 15 terabytes de RAM a serviço de uma simples tarefa: encontrar as respostas mais rápido do que os cérebros de Ken e Brad.

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Como o Watson funciona

Cada dica dada pelo apresentador é enviada em formato de texto para o Watson exatamente ao mesmo tempo em que é dita em voz alta para os participantes. Usando algoritmos de análise avançados desenvolvidos pela IBM, Watson lê o texto da dica, identifica as palavras-chave que considerar mais importantes, correlaciona-as para tentar identificar os seus significados, então usa esses dados para buscar a resposta em seu massivo banco de dados offline – já que uma conexão com internet seria obviamente contra as regras. Detalhe: tudo isso a tempo de apertar o botão de resposta antes que os adversários humanos.

As respostas encontradas são ordenadas por uma porcentagem de “confiança” que o computador demonstra em cada uma, e se a confiança na melhor resposta encontrada for suficientemente grande, Watson “aperta o botão” e tenta responder. O que significa que Watson é capaz de encontrar uma resposta mas escolher não apertar o botão, por não ter confiança suficiente nela. Watson sabe muita coisa, inclusive quando não sabe algo.

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Apesar do seu conhecimento enciclopédico e da sua velocidade quase sempre superior, Watson não se saiu bem o tempo todo. Em um determinado momento do primeiro dia, o computador errou três respostas em sequência, inclusive repetindo uma resposta errada do adversário, algo que um humano jamais faria. O que a IBM teve a dizer sobre isso?

Um dos erros do Watson mostrou o quão difícil pode ser, para uma máquina, jogar Jeopardy. A categoria era “Bizarrices Olímpicas”, e a resposta era um ginasta com um característica corporal estranha. Ken Jennings disse “braço” e errou. Watson disse “perna”, e o apresentador Alex Trebek julgou a resposta incorreta porque Watson não especificou que o ginasta não tinha uma das pernas. Watson disse apenas “perna”. Durante uma exibição da gravação do programa hoje mais cedo, David Ferrucci, o gerente da IBM que chefia o projeto Watson, explicou que o Jeopardy encompassa um espectro enorme de conhecimento, e algumas das classificações são bastante vagas. Neste caso, o computador muito provavelmente não entendeu o conceito de “estranheza” da categoria da pergunta. “O computador não teria como saber que um ginasta com uma perna faltando é algo mais estranho do que o normal”, disse Ferrucci. Mesmo assim, com o passar do tempo, ao ler mais materiais e jogar mais partidas, o Watson poderia entender isso. (Me pergunto se ele conseguiria entender o quão estranho ele mesmo é.)

O que o Watson faz bem

Memória: O Watson não precisa se preocupar em esquecer nada. Tudo que jamais foi carregado em seu sistema está disponível de maneira igual e uniforme (a vantagem de se falar em zeros e uns).

Tempo de reação: Sendo uma máquina sem emoções, Watson se sai muito bem na tarefa de reagir ao sinal que diz aos participantes quando é hora de apertar o botão para responder. A máquina se destaca quando as dicas são diretas e com palavras que indiquem claramente que tipo de resposta está sendo pedida (quem, quando, o que, onde etc). Nós humanos não conseguimos competir com isso.

Apostas: Em alguns momentos do Jeopardy, os participantes têm a oportunidade de apostar o dinheiro já acumulado em uma resposta específica, para ter a chance de ganhar (mas também o risco de perder) muito mais. Quando Watson se vê num desses momentos, ele é capaz de analisar a sua confiança na categoria em jogo (ou similares), além da sua probabilidade de vencer, então ele usa estes dois fatores para calcular a melhor quantidade possível de dólares a apostar. Por conseguir computar os números com uma velocidade e precisão que os humanos não conseguem, ele aposta quantidades quebradas e estranhas de dólares.

O que o Watson não faz bem

Sintaxe complexa: Quando as frases se tornam complexas, ou as questões pedem que os participantes relacionem duas ideias ou fatores indiretamente interligados, Watson se confunde. A sua confiança desaba, assim como o tempo de reação.

Arte: Por alguma razão, Watson não sabe patavinas sobre arte. Ele se atrapalhou com praticamente todas as questões sobre arte no segundo dia, errando uma, não reagindo a tempo para responder outra e nem sequer apitando em outra. A única que ele acertou, tinha apenas 32% de confiança.

Identificar e eliminar respostas erradas dos adversários: O programadores da IBM acharam que o Watson não teria problema em eliminar uma resposta errada já apresentada por um adversário, mas ele fez isso duas vezes no primeiro dia.

A vitória – e  o que ela significa

Sem rodeios: Watson dominou os três rounds. Raras foram as suas respostas erradas, e mais raras ainda foram as vezes em que ele “quis” responder e não conseguiu apitar antes que os humanos. O primeiro dia terminou com Watson em primeiro lugar, com US$ 5.000 (as perguntas valem dinheiro, em vez de pontos). Empatado com ele estava Brad Rutter, e Ken Jennings ficou para trás, com US$ 2.000. No segundo dia, uma performance muito melhor do computador faz com que o placar terminasse US$ 36.681 para Watson, US$ 5.400 para Brad e US$ 2.400 para Ken. Uma vantagem dificílima de ser alcançada, e que de fato não foi: a máquina de jogar Jeopardy venceu o round final com US$ 77.147, enquanto Ken chegou em segundo com US$ 24.000 , e Brad na lanterna com US$ 21.600.

Mesmo que Watson não tivesse vencido, os avanços em computação analítica que foram desenvolvidos para que Watson pudesse ao menos competir de igual para igual com dois cérebros humanos são uma grande vitória por si mesmos. Não só para a IBM, mas para a computação em geral. Imaginem onde esta tecnologia pode ser aplicada para melhorar a vida no nosso planeta.

A vitória de Watson foi um momento bem significativo para as máquinas. Mas não saia correndo para as colinas ainda, amigo. Afinal, a coisa é inteligente, mas por preferir lugares com ar-condicionado muito forte, ela não tem como correr atrás de você.

Mesmo assim, o Watson é prova “viva” de que estamos muito perto de computadores capazes de interação com humanos tão suave e intuitiva quanto a que estamos acostumados a ter entre nós. As suas capacidades de reconhecimento de voz ainda não estão maduras, e o computador em si ainda é bem grande, mas não devemos ficar desencorajados. Pense nos computadores que tínhamos há 60 anos, ou mesmo 30. Eles ocupavam salas enormes, e pense no que eram capazes de fazer. Agora, a maioria dos smartphones têm um poder comparável ou maior do que o daqueles computadores.

Muitos de nós viverão para ver o dia em que teremos máquinas mais poderosas que o Watson, e que caberão em nossas mãos, estarão integradas às nossas casas, carros, hospitais etc. Nós falamos. Elas ouvem e respondem. Elas podem até ser mais inteligentes que nós, como sugere a IBM.

Isso, povo da Terra, é uma possibilidade emocionante.

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Os vídeos acima mostram o primeiro dia/round do programa na íntegra e trazem mais alguns trechos falando especificamente sobre o computador sabe-tudo Watson. Os vídeos do segundo e terceiro rounds completos você encontra neste canal do YouTube. [Gizmodo US]

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