Em 1990, em um artigo excelente na The New Yorker, o autor Ian Frazier conta a –como podemos dizer?– pouco conhecida história das infinitas batalhas de Wile E. Coyote contra a Acme Company. Agora, a saga das tribulações jurídicas do Coyote, processando a Acme por graves danos pessoais e mal funcionamento catastrófico de produtos, foram desenhadas e republicadas por Michael Bierut do Pentagram, incluindo os diagramas originais, feitos por Daniel Weil.

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A premissa de Frazier é que o Coyote finalmente se fartou de danos, traumas e humilhações causados a ele pelos produtos da Acme — produtos que nunca parecem funcionar como pretendido e que sempre, no final, se voltam contra a pessoa (ou, no caso dele, o animal) que está utilizando. Então, ele contratou um advogado e levou o caso para o tribunal.

“Meu cliente”, diz a primeira página da alegação legal fictícia, “Sr. Wile E. Coyote, um residente do Arizona e dos estados vizinhos, vem por meio desta mover uma ação contra a Acme Company, fabricante e distribuidora de vários produtos, estabelecida em Delaware e atuante em todos os estados, distritos e territórios. O Sr. Coyote busca compensação por danos pessoais, materiais e mentais, causados como resultado direto de ações e/ou negligência grosseira da empresa supracitada, sob o Título 15 do Código dos Estados Unidos, Capítulo 47, seção 2.072, subseção (a), que reza sobre a confiabilidade de produtos.”

O juridiquês seco do texto de Frazier dá o tom perfeito para isto — e ele se mantém de maneira consistente, passando por “rotulagem de advertência imprópria”, por exemplo, e por um caso de “mal funcionamento extremo e repentino”, que ocorreu com os patins turbinados do Coyote.

Entretanto, se você não curte muito disputas legais imaginárias, os prestativos diagramas de Weil sobre os produtos agressores adicionam um novo e incrível nível investigativo à publicação.

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Por fim, o Coyote pede US$ 17 milhões em danos punitivos pelos ferimentos infringidos a ele pelos produtos da Acme.

Nós ainda não sabemos a sentença do processo.

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O folheto é bem curto, mas vale a pena ver. Mais imagens estão disponíveis no site da Pentagram.

Entretanto, ele me lembrou de ao menos duas coisas que eu acho que merecem uma breve menção.

Uma delas é um tópico hilário do Metafilter, criado em 2009 e que falava sobre todos os “crimes cometidos por Ferris Bueller em Curtindo a Vida Adoidado“, numa abordagem legalista a uma ficção popular muito parecida com a do Coyote. O primeiro exemplo? “Bom, vamos deixar o baile rolar”, escreve um comentarista, “No restaurante, ao telefone com o maître, ele diz, ‘Aqui é o Sargento Peterson, da Polícia de Chicago.’ Violação do Estatuto Compilado de Illinois 720 5/32-5.1: Falsa Personificação de um Agente de Paz. Uma pessoa que intencionalmente e falsamente se apresenta como um agente de paz comete um crime de classe 4.”

Este é apenas um exemplo da, como você pode imaginar, extraordinária quantidade de crimes e danos cometidos por Bueller e seus cúmplices ao longo do filme — incluindo, claro, a penúltima cena, em que vemos uma inesquecível tentativa de “fraude de hodômetro”.

Esta abordagem, de fato –tanto em Coyote contra Acme quanto na lista de crimes de Ferris Bueller– parece oferecer uma maneira altamente instrutiva, apesar de incomum, para estudantes de direito analisarem ficções. Dá para imaginar uma matéria completamente dedicada a assistir filmes famosos ou ler clássicos da literatura e anotar todo possível crime cometido. De certa maneira, isto também inclui a premissa de que todos nós cometemos ao menos três infrações por dia –seja sabendo o que estamos fazendo ou não– só que aplicada a personagens fictícios.

Quais seriam os crimes despercebidos, processos em potencial, produtos defeituosos e recalls possíveis escondidos nos filmes e ficções que vemos e lemos todos os dias?

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De qualquer maneira, a segunda coisa que eu achei que valia a pena ser mencionada aqui é meio off-topic, e eu nem lembro em que livro eu vi, mas há uma grande descrição feita pelo filósofo político esloveno Slavoj Zizek de como seria constituído um filme “pós-moderno” do James Bond — isto é, um filme do James Bond que se livra da ideia de um enredo destacado da vida cotidiana e, ao invés disso, foca na trivialidade da vida pessoal do 007.

Neste filme, escreve Zizek, se minha memória não falha, James Bond não vai para nenhuma missão. Ele está em sua casa no campo e última Bond girl foi para lá com ele. Eles tomam café da manhã, talvez; eles visitam amigos para tomar uns drinks, trocam de roupa para ir a festas; talvez ele vá a um supermercado; eles até mesmo saem para pegar um cineminha. Mas ele está entediado; a Bond girl começa a incomodá-lo. Ela quer mais, ela diz; ele não pode dar mais, ele responde. Ele faz um martini numa noite em que ela saiu e assiste Top Gear. “Eu sou o James F***king Bond”, ele pensa, não um maridão, e ele está com muita raiva; ele não é um cara comum para ficar preso em casa, cozinhando verduras. Por que esta mulher não percebe isso? Por que ninguém percebe isso? Bond –James Bond– sai para dar uma volta e passar o tempo comprando alguma coisa, alguma compra impulsiva. Talvez uma nova gravata, mas ele nunca usa gravatas. Ele recarrega seu cartão do metrô e puxa papo com um turista americano. Londres está ficando mais fria nesta época do ano e o vento está aumentando. Este Bond pós-modernos, que cozinha e lava a roupa, espera por uma missão futura, qualquer missão, uma nova tarefa de qualquer tipo. Eventualmente, ele e a Bond girl terminam, e o filme –a sequência mais improvável da franquia– chega a um encerramento confuso e assombroso.

Como neste caso, o processo do Coyote contra a Acme pode acabar numa mudança igualmente surreal e inesperada nos eventos do Papa-Léguas, um filme saído do nada documentando uma história como a de Erin Brockovich, de um animal ferido e uma empresa que ele está tentando acionar juridicamente. Uma busca triunfante pelo direito do consumidor. Mas ninguém vai ver isso. As pessoas não entendem o que é, ou qual a relação com o desenho que isso pode ter. “É uma paródia?”, perguntam. O filme é detonado pelos blogs de cinema e pelos programas de TV, e as crianças –as poucas que assistem– saem chorando. Ralph Nader (o Celso Russomanno dos EUA), entretanto, vira fã do filme e escreve vários elogios.

Mas, depois de vinte e cinco anos, este olhar inexplicável sobre os crimes e delitos sofridos pelo Coyote se torna um clássico cult, uma obra de arte que todo mundo, de alguma maneira, perdeu na primeira vez que foi exibido — até que um relançamento no tempo certo traz o lado mundano de um popular personagem fictício de volta aos olhos do grande público. [Pentagram]