Ela foi encontrada recentemente em um arquivo, meio esquecida. Projetada no final dos anos 1970 e batizada de Haas Unica, esta fonte foi morta pouco tempo depois por aquilo podemos chamar de azar — ou era digital.

A pessoa que a encontrou foi Dan Rhatigan, diretor de tipografia na fundição Monotype. Ele estava, na verdade, à procura de materiais antigos para incluir em uma exposição sobre a transição de fontes tradicionais para digitais. Mas, no processo, ele acidentalmente descobriu um tipo perdido que sintetiza perfeitamente essa história.

A Monotype liberou a Unica como uma fonte web depois de ela ficar quase quatro décadas praticamente esquecida — e ela poderia rivalizar com gigantes como a Helvetica e Univers, que era o intuito original do projeto.

A antiga história

Então, o que aconteceu de fato com a Unica? Por que ela não é famosa como a Helvetica ou a Univers são hoje? “O século 20 está cheio de fontes perdidas”, Rhatigan me disse hoje. “No caso da Unica, o que aconteceu foi um timing infeliz.”

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Uma máquina de fotocomposição (imagem por Derivat graph)

Tudo começou na década de 1970, quando uma técnica chamada fotocomposição ultrapassou o metal tradicional no modo como a maioria das fundições faziam suas fontes. Funcionava mais ou menos como revelar uma foto em uma câmara escura: as letras no filme poderiam ser ampliadas até o tamanho perfeito, e aí a luz clareava o espaço ao redor para criar uma marca. A fotocomposição foi a tecnologia de ponte entre a tipografia tradicional de metal e da era digital, em que o tipo é composto por pixels. E, infelizmente, não durou muito tempo.

E foi durante esses poucos anos em que a fotocomposição reinou que uma fundição chamada Haas Tipo começou a projetar uma alternativa às gigantes Helvetica e Univers. As duas fontes tinham sido um enorme sucesso por décadas, mas a Haas teve a ideia de criar uma terceira opção com design superior baseado nas duas. A fundição reuniu um trio de designers conhecidos como Team ’77 para criar uma bela alternativa para duas das mais populares (e alguns diriam até usadas em excesso) fontes do século 20.

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O resultado foi um híbrido chamado Haas Unica. Ele não era tão rebuscado como a Helvetica — tem menos detalhes que alguns consideram “educados”, coisas que tornam a Helvetica tão instantaneamente reconhecível. Mas também tem um pouco mais de personalidade do que a pacata e calma Univers, vista à direita na imagem acima.

Mesmo o seu nome foi uma combinação das duas antecessoras. A Unica chegou a fazer certo sucesso entre os designers da época. “Os detalhes eram belíssimos”, diz Rhatigan. Foi “a Univers com um coração, a Helvetica com uma alma”, como disseram os designers Beatriz Cifuentes e Yoshiki Waterhouse em um comunicado à imprensa.

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Infelizmente, a Unica também estava destinada a morrer de maneira precoce.

A era do computador

A invenção do computador não apenas levou certos tipos de letra a níveis ridículos de popularidade (olá, Wingdings!), como também relegou outros ao que seriam os papiros e pergaminhos da antiguidade da tipografia. Foi o caso da Unica.

“Ela passou por uma cadeia de empresas que fazem parte da história sombria das fundições tipográficas do século 20”, diz Rhatigan. Fundições menores saíram do ramo, seus portfólios foram absorvidos por empresas maiores, e as decisões foram tomadas tendo como base o que poderia ser digitalizado e o que poderia ser deixado na era pré-computacional. Algumas fontes –especialmente as novas e ainda incertas, como a Unica– não sobreviveram.

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Depois de uma longa e complicada série de acontecimentos, a Unica acabou sob propriedade da Monotype. Ela simplesmente tinha sobrado graças à turbulência tecnológica e industrial da época. Nos anos que se seguiram, ela nunca desapareceu completamente. “A maioria dos designers de tipos a conhece”, diz Rhatigan, e talvez sua inacessibilidade até tenha aumentado o mistério em torno dela.

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Depois de Rhatigan tirar o filme original dos arquivos, ele o entregou para um designer chamado Toshi Omagari, que passou os últimos anos desenvolvendo e reconstruindo o tipo segundo a “intenção” original de seus designers dos anos 1970. Hoje, a empresa está a vendendo uma versão web da fonte — Neue Haas Unica— num formato que poderia facilmente ter feito com que ela alcançasse a popularidade global que Helvetica e Univers têm desde os anos 1980.

“A Monotype está em uma posição única, pois é muito grande, e incorporou o acervo de muitas outras fundições que existiram ao longo dos anos”, acrescenta Rhatigan. Que outras lendas meio esquecidas poderão estar enfiadas em armários e em arquivos no porão? Só o tempo dirá.