Os últimos anos produziram algumas descobertas de dinossauros verdadeiramente bizarras. De animais parecidos com rinocerontes com cabeças enormes e espinhas atarracadas a mixórdias bicudas de cada dinossauro já registrado, houve uma série de adições incríveis. Mas talvez nenhuma dessas se compare com a estranheza implacável de uma espécie recém-descoberta de dinossauro que viveu na Mongólia durante o período Cretáceo há cerca de 75 milhões de anos.

Reconstrução do Halszkaraptor escuilliei. (Crédito: Lukas Panzarin e Andrea Cau)

Contemplem o Halszkaraptor escuilliei, que parecia um pato, andava como um pato, mas era membro da infame família predatória e mortal de ágeis aves de rapina. Equipado com adaptações claras para uma vida passada em sua metade na água, o Halszkaraptor representa o primeiro e único dinossauro terópode não-aviano conhecido (um grupo de predadores bípedes que inclui o T. rex e exclui pássaros [avianos]) a se sentir tão em casa na água.

Embora os pássaros tenham curtido uma presença sólida entre terra, ar e oceano ao longo de sua evolução, dinossauros não-avianos, em geral, são criaturas terrestres. Quanto mais fósseis e informações surgem, nosso entendimento sobre sua ecologia diversa abriu espaço para algumas ressalvas. Mas, por exemplo, dinossauros avianos completamente aquáticos não existem. Também é discutível que algum dinossauro não-aviano algum dia tenham voado alto — embora o Microraptor, de quatro asas, possa ser um competidor. É por isso que o Halszkaraptor e seu aparente conjunto de adaptações especificamente para nadar e remar entrelaçadas com um plano de corpo que se origina de uma linhagem conhecida exatamente por não fazer isso é uma descoberta revolucionária.

O excepcionalmente completo fóssil de Halszkaraptor — descrito em um artigo publicado nesta quarta-feira (6) na Nature — é originalmente de Ukhaa Tolgod, na Mongólia, mas a equipe de cientistas responsável por sua descrição na publicação científica não o descobriu lá. O fóssil foi, em algum momento, ilegalmente tomado de seu sítio paleontológico produtivo, e flutuou entre coleções particulares fora do país por anos antes de ser comprado e entregue a paleontólogos em 2015 para estudo e depois para ser levado de volta à Mongólia.

Pelo fato de o fóssil ser frágil, profundamente embutido em uma placa de rocha e único, a equipe internacional de pesquisadores usou um método avançado de visualização e reconstrução do esqueleto do Halszkaraptor em três dimensões. No European Synchotron Radiation Facility, na França, eles usaram um tipo de escaneamento de raio-X de alta energia e altamente sensível — Microtomografia de raios-X de múltiplas resoluções de síncrotron — para ver e articular todos os detalhes internos do espécime na rocha sem sequer tocá-lo. Isso permitiu que os pesquisadores confirmassem que o fóssil incomum não era uma amalgamação enganadora de várias espécies de dinossauros, compreendendo a anatomia do animal em suas menores escalas.

Imagem do fóssil do Halszkaraptor escuilliei. Crédito: ESRF/P. Jayet

O que eles encontraram foi um dromeossaurídeo — um “lagarto corredor” na mesma família que o velociraptor e o utahraptor —, mas ele era diferente de qualquer outro raptor. O Halszkaraptor era diferente o bastante de seus primos rasgadores de carne para que os pesquisadores dessem a eles sua própria espécie, gênero e uma nova subfamília (Halszkaraptorinae). O pequeno dinossauro — aproximadamente do tamanho de um pato-real — tem muitas das características encontradas em seus colegas aves de rapina: garras de foice nos pés, uma cauda longa e resistente e uma estrutura leve e atlética. Mas o Halszkaraptor tem uma bateria de características mais parecidas com aves aquáticas modernas e outros animais aquáticos do que com dinossauros terópodes.

Características em seu crânio sugerem que ele passou um tempo na água, perseguindo e comendo peixes. O Halszkaraptor tinha um longo e fino focinho cheio de dentes curtos e espinhosos perfeitamente adequados para capturar peixes em movimento. Como os crocodilos, o fóssil do Halszkarapator trazia provas de uma mistura altamente desenvolvida de órgãos sensores nos ossos do focinho, sugerindo que ele ia atrás de presas aquáticas. A cabeça era empoleirada em um pescoço incomumente longo e flexível, como o de um cisne, que tinha características nas vértebras antes vistas apenas em aves aquáticas e algumas espécies de tartarugas aquáticas de pescoço longo. É possível que o Halszkaraptor caçasse peixes como o cormorão e a garça, com ataques rápidos, de emboscada, usando sua cabeça e seu pescoço de grande mobilidade.

O corpo feito para nadar do Halszkaraptor teria facilitado muito a caça desses animais. Seus membros frontais eram impressionantemente parecidos com nadadeiras, e análises de suas proporções e da região do peito mostraram maiores similaridades entre ele e pássaros como pinguins do que com outros dinossauros terópodes, sugerindo que o dinossauro “voava” através da água usando seus braços. O quadril e as pernas do Halszkaraptor também eram mais inclinados frontalmente, alterando o centro da gravidade para frente e lhe dando uma postura de ave aquática independentemente evoluída: ereta e propensa a bambolear. Essa configuração pode tê-lo ajudado na extensão do quadril enquanto andava.

Em vida, o Halszkaraptor se pareceria com uma fusão absurda de um velociraptor e um ganso, o que, dada a reputação dos gansos, provavelmente só tornaria os velociraptors duplamente aterrorizantes. A curiosidade infantil teria parecido muito diferente de qualquer raptor típico, um animal que pode ser resumido como um nó de penas e arame farpado mal-humorado.

Halszkaraptor é o único dinossauro não-aviano a ter modos locomotores duplos, em que um jeito de se movimentar é remando com os braços. Foi revelado recentemente que o enorme espinossauro provavelmente seja semiaquático, com seus ossos densos e suas capacidades de natação como as de uma enguia, embora mesmo ele não tivesse apêndices usados como remos. O Halszkaraptor nos mostra que ainda temos muito a aprender sobre como os dinossauros exploravam seus ambientes, sobre a diversidade de suas especializações e os papeis que eles desempenharam na ecologia loca. Antes da descoberta do Halszkaraptor, toda a ideia de terópodes pequenos, parecidos com aves aquáticas, caçando peixes era uma mistura de ficção especulativa e inconcebível.

Mas o Halszkaraptor é muito real, traz muitas informações e também é estranho pra caramba. E embora seria muito divertido ver um exército de cisnes perigosos perseguindo Chris Pratt no próximo Jurassic World, esses patos esquisitos provavelmente não conseguiriam preencher os requisitos.