Edney Souza era um programador bem-sucedido em 2005. Com 15 anos de carreira, coordenava projetos em uma empresa importante do setor. Mas naquele ano o seu empregador disse que ele tinha de se decidir: Edney poderia continuar em seu trabalho, virando executivo, ou gastar mais tempo atualizando seu blog, inicialmente uma brincadeira no Geocities em 1997 que consumia cada vez mais seu tempo – e começava a dar algum dinheiro. Edney ficou com o Interney, e virou um dos primeiros – se não o primeiro – a ganhar dinheiro com blogs no Brasil. Figura bastante importante da Internet brasileira e professor de Marketing em Redes Sociais, ele foi o convidado do nosso Giz Reunions para contar um pouco de sua história e o futuro dos blogs. 

Edney se formou em Processamento de Dados no Mackenzie, em 1997. Nessa época criou um site pessoal, o Interney’s Homepage, no Geocities, para dar dicas de Internet a alguns colegas. Paralelamente trabalhou, de 2000 a 2003 na Microsiga, e continuou com seu hobby. Em 2001, transformou o site em blog, com o mesmo foco de dicas de tecnologia e vida digital. "Naquela época já tinha 500 mil page views por mês. Comecei a ganhar algum dinheiro com o site em 2002 e 2003. No fim do ano, com programas de afiliados de lojas de varejo online, passei a fazer R$ 2.000 por mês. Em 2005, com uma ferramenta de contextualização, passei a ganhar o dobro do meu salário como gerente de projetos no blog."

Desde o final de 2005, a sua receita com os blogs foi complementada com outros empreendimentos. Em 2006 Edney criou o Interney Blogs, uma rede de blogs que ele via potencial, dentro de um microportal. Em 2007 o Interney foi parar no IG, e hoje conta com 1,8 milhões de visitantes únicos por mês e 25 blogs ativos. Quando o mercado de blogs no Brasil começou a ficar sério, e as empresas começavam a dar os primeiros passos nas tais redes sociais, fundou com Gustavo Jreige, Alexandre Inagaki e Ian Black lançaram na Campus Party a Blog Content, consultoria em blogosfera e redes sociais para agências.

O negócio cresceu tão rápido que a Blog Content se juntou com uma assessoria de imprensa, a RMA, e se transformou na Pólvora! poucos meses depois. "A Pólvora é uma empresa de Relações Públicas 2.0. É um mistura de assessoria de imprensa com publicidade digital", explica."Quero que o mercado cresça, que as marcas usem mais as redes sociais, mas somos focados em resultados e não em buzz. A transição entre o passado e o futuro não será suave. Haverá um gap de faturamento aí. Será preciso perder um pouco do hoje para recuperar e aumentar o ganho amanhã."

Como seria o seu verbete na enciclopédia da internet brasileira?
Eu sou um exemplo de quem tem algo interesante a dizer tem espaço na internet. Eu era só um programador, sem contatos, que dava dicas de tecnologia para as pessoas. Foi uma jornada de autoconhecimento, de entender o que as redes tinham feito comigo. Sou fascinado pelo que eu faço hoje. E meu approach é empírico e não teórico – não faria uma pós graduação, debaixo regras de ABNT.

Não há conflito de interesse em ser veículo e agência ao mesmo tempo?
Raras vezes fazemos projetos com nossos próprios blogs. E nossos blogueiros podem receber artigos patrocinados de outras agências.

Qual o pior momento dessa trajetória?
A demissão porque eu ficava atualizando meu blog. O que foi o empurrão inicial. Foi tomar a decisão entre ser executivo ou ser empreendedor. Eu nunca tinha pensado nisso.

Qual é a sua visão de futuro para o mercado digital?
Ferramentas digitais sendo utlizadas para dar retorno financeiro aos anunciantes. Parar com o marketing de interrupção e investir no marketing de relacionamento.

Onde é a sua visão para você mesmo daqui a 10 anos?
Aos 40, quero fazer um sabático. Estou com 34. Quero chacoalhar a cabeça, conhecer lugares, coisas e pessoas novas. O que eu não quero daqui a 10 anos é deixar de enxergar o novo, a inovação. Só saí do Brasil uma vez.

O Brasil está em vias de criar blogs que são veículos de comunicação?
Por isso estou criando essa nova rede de blogs. A maioria dos blogs é amador. Quem faz bom conteúdo não sabe comercializar, quem sabe vender não tem a menor ideia do que é conteúdo. Não vejo isso acontecendo, precisamos de mais pessoas investindo.

Falta jornalismo nos blogs?
O jornalismo está migrando para os blogs. Os blogueiros de raiz vão ficar para trás na hora que os jornalistas chegarem – e eles já estão chegando: Juca Kfouri, Ricardo Noblat… O blog é o futuro da comunicação por escrito. Na última Campus Party, tivemos uma oficina de apuração para blogueiros, ensinando técnicas de jornalismo. Só apareceram estudantes de jornalismo. Não há muito estímulo para os blogueiros tradicionais abraçarem a técnica jornalística, e há grande estímulo para os jornalistas migrarem para os blogs.