Ver uma aurora austral em qualquer lugar do nosso continente (com exceção de Ushuaia, na Argentina) provavelmente seria uma das experiências mais incríveis para aficionados em espaço. Agora, imagine se você estivesse na China ou no Japão há milhares de anos e não soubesse a causa dessas luzes. Provavelmente você ficaria meio perturbado com a situação e… escreveria sobre isso.

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Pelo menos é o que uma equipe de cientistas japoneses esperam que tenha acontecido. Eles estão consultando documentos antigos para ver quais tipos de tempestades solares as pessoas que viveram há muitos anos viram e registraram. Eles acham que algumas dessas auroras documentadas podem ser de “grandes tempestades magnéticas” que ocorreram depois de fortes eventos solares. Esses textos poderiam nos ajudar a entender a frequência dessas tempestades, o que seria importante pelo fato delas serem mais prejudiciais hoje, dada a nossa dependência de eletricidade.

As auroras acontecem a partir de explosões de partículas do Sol (especialmente elétrons) que interagem com a atmosfera da Terra e com o campo magnético, excitando o oxigênio e o nitrogênio e fazendo com que eles formem o brilho característico. Certos eventos solares, como as ejeções de massa coronal (EMCs), que são grandes explosões originadas de nós no campo magnético solar, podem causar tempestades solares particularmente prejudiciais, que podem afetar redes elétricas, colocar em risco os astronautas e exibir fortes auroras durante um dia inteiro.

Os pesquisadores encontraram muitos exemplos dessas observações. Como esta de Fujiwara-no-Sadaie (conhecido como Teika), famoso poeta japonês que mencionou tempestades prolongadas em 21 e 23 de fevereiro de 1204, em seu Meigetsuki:

Em 21/02/1204, estava ensolarado. […] Depois do pôr do sol, um vapor vermelho apareceu na direção do norte e nordeste. A parte mais baixa do vapor vermelho tinha um formato de lua crescente e colorida em branco e brilhante. Suas linhas se estendiam para longe e era como fumaça do fogo. Existiam quatro ou cinco partes brancas e três ou quatro vapores vermelhos apareceram. Não é nem nuvem, nem está dentro das nuvens? Sua luz não escureceu e a luz vermelha se misturou na luz branca. Não é nada além de um mistério. Também é algo terrível.

Em 23/02/1204, estava ensolarado e com ventania. […] Na hora de acender a lamparina, o vapor vermelho apareceu no norte e nordeste. Era como se existisse uma montanha distante queimando. Era terrível.

Escritas chinesas também mostram descrições de auroras, numa época ainda mais distante:

Em 14 de fevereiro de 937, de noite, vapores vermelhos e brancos apareceram alternadamente, como uma Como uma floresta de bambu cultivada e explorada, das 23:00 até 3:00, turva do norte ao meio no céu, cintilando de forma instável em torno das 28 mansões lunares e desapareceu no alvorecer.

Os pesquisadores reviraram todos seus exemplos para garantir que conseguiriam encontrar grupos de descrições como essa acontecendo no mesmo período e então compararam seus eventos a mudanças em atividade solar conhecidas, em seu estudo publicado no mês passado no periódico Space Weather. Descobriram que nenhuma dessas descrições ocorreu durante períodos em que já sabiam que a atividade do Sol esteve em um nível mínimo, por exemplo, e maior parte dos eventos aconteceu durante períodos de atividades máximas. Eles concluíram que esses escritos provavelmente eram sobre tempestades solares e que essas tempestades provavelmente foram resultado de múltiplas ejeções de massa coronal em um período curto de tempo.

Essa não é a primeira vez que cientistas observaram textos antigos sobre eventos astronômicos. Alguns investigaram textos egípcios e helênicos sobre eclipses, e os autores do estudo têm procurado por eventos solares nesses documentos chineses e japoneses há algum tempo. Porém, agora eles estão realmente começando a mergulhar nesses escritos e no que seus detalhes nos contam sobre eventos solares, como com que frequência a Terra pode sofrer uma grande tempestade magnética.

E outros cientistas acharam o trabalho bastante interessante. “Acho que é uma pesquisa legal e original”, disse Scott McIntosh, diretor do High Altitude Observatory, no National Center for Atmospheric research (NCAR), ao Gizmodo, por email. “É fantástico que eles estejam tentando jogar luz sobre as idades das trevas ;-).”

É improvável que algum dia vamos descobrir com certeza se esses escritos de fato descrevem tempestades solares ou não. Tudo é muito especulativo, mesmo que essas descrições sejam precisas em relação a como os eventos deveriam parecer. Entretanto, essa pesquisa oferece, sim, mais observações dos eventos que não acontecem muito frequentemente. A última grande tempestade solar, por exemplo, foi provavelmente aquela que aconteceu quase 15 anos atrás e causou quedas de energia, além do reencaminhamento de aeronaves, de acordo com a NASA (outra tempestade menos poderosa aconteceu em 2006).

Tudo isso significa dizer que entender essas tempestades pode nos ajudar a entender seus impactos e a prever quando a próxima grande tempestade pode nos atingir.

[Space Weather]

Imagem do topo: Christie Ponder