A irrealidade virtual de Oscar Raby

A história do artista chileno que usa realidade virtual para criar novo gênero que mistura cinema, performance e game

Esta reportagem foi produzida pela equipe do risca faca, novo projeto jornalístico da F451. Para ler as outras matérias já publicadas, clique aqui.

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O pai do artista Oscar Raby tinha 22 anos quando a Caravana da Morte passou por seu regimento, no norte do Chile. Pouco tempo havia passado desde o golpe liderado pelo general Augusto Pinochet, e a Caravana rodava o país executando presos pelo regime. Raby era tenente e presenciou, sem poder fazer nada, uma dessas execuções.

Anos depois, quando era adolescente, Oscar Raby ouviu essa história pela primeira vez. O pai lhe chamou, pediu para que se sentasse e narrou os acontecimentos daquele dia — como havia feito em depoimentos à polícia– para explicar ao filho porque seu nome iria aparecer em livros de história e notícias no jornal. Por mais de 20 anos Oscar carregou consigo essa lembrança sem saber exatamente o que fazer com ela. Até deparar-se com a realidade virtual.

“Percebi que esse meio era ideal para te colocar numa situação em que você tem controle, mas esse mesmo controle te arrasta. Foi por isso que meu pai passou”, diz o artista, que esteve em São Paulo para o evento Mediamorfosis Brasil, que discute o impacto de novas tecnologias na produção de conteúdo.

“Assent”, trabalho que resultou da descoberta dessa tecnologia, utiliza a realidade virtual para colocar o espectador no lugar do pai de Raby, observando de mãos atadas a morte de um grupo de pessoas. Exibido neste ano na mostra New Frontier, voltada para artistas independentes no festival de cinema Sundance, o trabalho borra os limites entre documentário e videogame.

Em “Assent”, Raby não utiliza, por exemplo, fotografias ou imagens realistas para compor o ambiente no qual, usando óculos de realidade virtual, o espectador fica imerso. O cenário lembra um jogo, com imagens estilizadas e atmosfera que lembra a de um sonho ou de uma lembrança já meio apagada. “O processo envolveu muita tinta jogada sobre uma tela. Há um monte de coisa escondida debaixo de camadas de pintura seca”, conta o artista.

Os personagens tampouco são reais: foi o próprio Raby quem serviu de modelo para todo o mundo que aparece em cena. “A questão mais crucial para mim era: com o que se pareceriam as vítimas? E os assassinos? Quem sou eu para contar a história deles?”, diz. “Não senti que seria justo eu tentar representar a vida deles. A única coisa honesta que eu poderia fazer seria mostrar como essa história afetou a vida do meu pai e a minha. Acabei usando a mim mesmo, minha cara e meu corpo, para representar todos. O usuário se torna meu pai, uma testemunha silenciosa da execução.”

É, portanto, uma interpretação dos fatos. “Não sou jornalista, sou artista. Tudo o que faço é uma interpretação”, afirma. “As memórias do meu pai são parte das minhas próprias lembranças, da mesma forma inescapável em que às vezes você se vê agindo ou falando como seus pais. Às vezes é reconfortante, mas na maior parte das vezes isso te lembra do quanto você tem medo de repetir seus defeitos.”

Depois do primeiro lampejo, Raby levou dois anos refletindo sobre como contar a história (colocar o espectador no lugar das vítimas? Dos assassinos, talvez?) e quatro meses tocando o projeto durante a noite, após trabalhar durante o dia na Galeria Nacional da Austrália. Foi uma jornada completamente solitária. “Duas pessoas estiveram no projeto: o Oscar do dia e o Oscar da noite”, brinca.

Ele nunca tinha trabalhado com realidade virtual antes disso. “Sou um artista visual, mas também um designer multimídia. A maior parte do meu trabalho foi criada com ferramentas digitais. Até pinturas, colagens e performances”, diz. “Por causa desse passado eu penso na realidade virtual não como algo que necessariamente siga a escola do cinema, mas como uma mistura de teatro, arquitetura, fotografia, pintura e, claro, videogames.”

A REALIDADE VIRTUAL PUNK

As experiências com a tecnologia e cinema tradicional são bastante diferentes tanto para espectador quanto para realizadores, segundo Raby. Se ao fazer um filme o diretor determina aquilo que as pessoas vão ver numa cena, na realidade virtual o olhar pode ser direcionado a qualquer lugar, a critério do público. “Agora aprendemos a sugerir, a convidar e montar a mesa para uma festa, para que os convidados à nossa experiência escolham aquilo que os estimula.”

Trata-se, para ele, de uma arte totalmente nova, que assimila elementos de mídias anteriores, as mastiga e as transforma numa linguagem única. “Um trabalho de realidade virtual pode não ser um filme, mas uma performance ou uma peça escrita para o usuário, que coloca os óculos e vira um ator nela. Pode ser um um dançarino seguindo um roteiro visual ditado pelos óculos de realidade de virtual”, diz Raby, listando outras formas de incorporar a tecnologia à arte.

Para ele, a tecnologia ainda engatinha e dá margem para muita experimentação. “Já alcançamos o potencial da pintura?”, compara. “Estou esperando a aparição do jazz da realidade virtual, o punk. Espero por todos os gêneros de realidade virtual, que representem todas as vozes.”

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Por ora, o acesso a projetos do gênero não é tão disseminado, já que não é fácil colocar as mãos nos óculos de realidade virtual. O ambiente também pode influenciar na experiência de imersão, diz Raby. “O entorno, o espaço físico, pode fazer tanto para colocar o público no universo minúsculo que você preparou. Pode dar aquela sensação de ritual que reconhecemos quando as luzes do cinema se apagam ou quando o maestro levanta a batuta.”

FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO

Depois de “Assent”, Raby criou um estúdio de realidade virtual em Melbourne, Austrália, chamado VRTOV, com vários projetos em desenvolvimento. Em “Travelling While Black”, o objetivo é mostrar a dificuldade que negros tinham em circular pelos Estados Unidos na década de 1950. “Alguém publicou um guia de viagem para eles, uma espécie de [guia] Lonely Planet mostrando as melhores rotas para se divertir e evitar problemas”, conta. “Vamos criar uma experiência que coloque o espectador na pele de um desses viajantes.”

Ainda no gênero documentário, uma série procurará mostrar como se vivencia a solidão, colocando o público em situações de isolamento, em locais como uma prisão ou Antártida.

Há também um projeto de ficção, baseado no romance publicado na internet “Queerskins”. O personagem principal é uma das primeiras vítimas da Aids nos Estados Unidos, nos anos 1980. “Conhecemos seus pais e vemos como eles lidam com a perda do filho. Você é convidado à cena como o fantasma desse filho morto.”

Na realidade virtual, a poesia importa tanto quanto a tecnologia. A dica de Raby para quem quer começar a trabalhar com realidade virtual é singela: aprender a focar em si e experimentar aqueles momentos que só se tem sozinho. “Para deixar a realidade virtual acontecer graciosamente você precisa praticar ficar consigo. É como nadar. Você deve encontrar um desses momentos e tentar replicá-lo.”

“Deve-se achar aquele gesto que faça sentido para você, que te faça sentir algo. As chances de que pelo menos uma pessoa no mundo também sinta isso são muito grandes. Recrie e mostre isso ao mundo. Você provavelmente vai ver, assim, que a realidade virtual não é um lugar tão solitário.”

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