O Windows 8 é uma ameaça aos jogos de computador. É uma “catástrofe”, se você der ouvidos a Gabe Newell, da Valve, ou a várias outras grandes empresas de jogos. Mas o ponto é, mesmo com todo mundo dos video games reclamando do Windows 8, eles não estão falando realmente sobre… bem, sobre jogos.

Sendo assim, o que realmente está acontecendo?

Reclamações sobre o Metro

Comecemos com Gabe Newell, o cofundador e chefão da Valve, dona da super popular plataforma de distribuição de jogos Steam. Algumas semanas atrás, ele desencadeou uma polêmica acerca do Windows 8. Ele o chamou de uma “catástrofe para todos da área de PC.” Blizzard (Warcraft, Starcraft, Diablo) e Notch da Mojang (Minecraft) concordaram.

Isso deu voz a várias preocupações em pessoas que ainda não tiveram a chance de usar o Windows 8. Mas isso não era realmente sobre o ato de jogar. A reclamação, no geral, recai no Metro. Newell, sobre a provável reação dos usuários à nova interface: “Eu acho que eles vão basicamente dar um ‘rage quit’ dos computadores depois de usá-la. Coisas que costumavam ser incrivelmente simples agora são mais complicadas e difíceis.” O que, claro, não é totalmente verdade.

O Metro é, no geral, opcional; você pode voltar à familiar área de trabalho a qualquer momento. Seus apps do Steam funcionam exatamente da mesma forma que sempre funcionaram. Você realmente entrava no menu Iniciar e naquele monte de pastas e ícones para escolher seus jogos do Steam? Ou clicava em atalhos, ou apenas os abria de dentro do próprio Steam? Porque isso você ainda pode fazer. O Windows 8 não muda nesse ponto. Ou você pode apertar a WinKey e digitar as primeiras letras do nome do jogo, exatamente como no velho menu Iniciar. E então, apertar Enter. Nada mudou drasticamente.

Eles colocaram o meu jogo em Acessórios, mas eu o queria no Arquivos de Programas e não consigo acreditar que cortaram meu sanduíche em quadrados quando eu disse claramente que queria em triângulos. E por aí vai.

Na hora do vamos ver nos jogos? Digo, podemos falar sobre isso? Tudo flui melhor no Windows 8. Ele é mais fácil e mais amigo do hardware do que o Windows 7. Abrir apps basicamente não mudou e de algumas formas ficou mais fácil. A tela inicial pede um tempo para se acostumar, mas de forma alguma afeta os jogadores enquanto eles estão jogando. Parece besteira deixar de ir a um restaurante que faz todos seus pratos favoritos só porque eles contrataram um novo chef que ainda não sabe todos os cacoetes da cozinha.

Certificado e a Windows Store

A reclamação mais válida é que as políticas e taxas da Microsoft para jogos certificados têm sido proibitivamente caras. Além disso, pessoas como Notch se preocupam; a chegada de uma loja no Windows significará diretrizes mais rígidas que afetarão negativamente desenvolvedores independentes.

Mas como? Sandboxing, uma das partes mais controversas da abordagem “jardim cercado” que Apple e Microsoft parecem estar tomando com apps para desktop, não afeta os jogos da mesma forma com que faz com apps convencionais, já que jogos não pedem permissões mais profundas como apps mais… utilitários.

O ponto-chave para apps Metro e jogos: eles são muito mais simples para você, o usuário.

Isso importa. Isso importa muito. O mundo ideal da Microsoft não é só uma experiência de interface unificada, mas uma loja fácil de usar e suave, em um sentido mais filosófico, para a plataforma inteira. Você sabe como a Apple faz bilhões e bilhões de dólares pela facilidade de uso da sua lojinha? E como os seus desenvolvedores ganham muito, muito mais grana do que em outras plataformas? Pois é.

E esqueça certificação e outras coisas de bastidores e outros detalhes nos quais emperramos frequentemente. Claro, isso tem um efeito real e tangível na qualidade dos jogos, mas vamos, por um minuto, assumir que uma indústria multibilionária não começará a se borrar de medo total e esquecerá como criar bom conteúdo graças a um processo de certificação.

Do que estamos falando

Sendo assim, qual o ponto de toda essa discussão? Distribuição. Ao criar uma Windows Store que permite a você comprar e armazenar todo o seu software em um único local, a Microsoft entra com tudo no território da Valve. E todos ao redor parecem estar preocupados de que isso também possa significar que a Microsoft possa forçá-los a viver no mesmo território.

Não se engane: Valve e Blizzard e o restante das empresas de jogos de repente insatisfeitas não dão a mínima para o Metro ou como ele afeta o seu dia a dia. Elas sabem que você não vai a lugar nenhum. Você não foi quando o Vista detonou seus computadores e não irá quando o Metro reorganizar a sua mobília.

A Valve está ainda mais interessada do que você imagina; no começo do mês, ela sinalizou a intenção de começar a vender apps que não são games no Steam. O que é ótimo, exceto que a Windows Store está indo nessa direção — e na dos games também. A desaprovação da Blizzard foi um pouco mais contida tendo se manifestado por um tweet de Rob Pardo, VP executivo de Game Design, concordando com Newell, mas a Blizzard tem um interesse profundo em distribuição também, deixando seus jogos de fora de serviços como Steam, Origin e a Mac App Store.

Não estamos falando de pessoas ou empresas idiotas. Valve e Blizzard são um monte de coisas, mas elas não são idiotas, ou descuidadas, na maior parte do tempo. Não se tratam de ataques impensados, às cegas. É algo mais.

É medo.

Veja bem, é da Microsoft de quem estamos falando. A indústria dos jogos foi capaz de praticamente ignorar a Mac App Store — com a sua sandboxing e mordida de 30% nos lucros — ganhando tração com títulos “novos” como Call of Duty 4 e RAGE, porque jogos são uma piada no Mac. Doom 3 não chegou lá mês passado ou coisa assim? Então. Mas jogos no Windows? Opa. Isso se parece muito mais com a Microsoft que tem (no geral) deixado Sony e Nintendo para trás durante boa parte da última década. A Microsoft conhece jogos e todo mundo sabe disso. Toda essa reclamação sobre o Metro antes que o público geral sequer tenha botado suas mãos no Windows 8? Bombardeio preventivo.

A lista de quem não está reclamando da catástrofe do Windows 8 diz algo: Razer, NVIDIA, AMD e praticamente todos que não investiram muito em distribuição. Parece que essas empresas teriam tanto a perder quando qualquer outra se elas realmente achassem que o Windows 8 danificará profundamente a jogatina no PC. Ainda assim, nada.

Por que nos importamos?

Uma semana atrás, Jay Caspian Kang, do Grantland, escreveu um texto esperto sobre a personificação ilógica dos fãs de esportes das contas bancárias dos donos dos times como se fossem suas. Que, nessa loucura de acompanhar cada minuto dos esportes, 24h por dia, passamos a internalizar a situação financeira dos nossos times em vez de dizer só “Me dê o melhor time possível; eu não me importo com as suas despesas.”

Essa mentalidade claramente não se limita aos esportes.

Faz muito sentido que empresas temam uma plataforma Windows que também seja uma loja. Você não compra só jogos para Xbox, você pode comprar jogos do Xbox. E isso é ótimo. Aplique o mesmo método para o PC, e todos que têm trabalhado como intermediário, ou metodicamente os evitando, devem estar bem nervosos.

Mas isso não afeta você. Não afetará as coisas que você compra, apenas os lucros das empresas que fazem isso. E, claro, jogos AAA dependem de orçamentos, mas as empresas já pagam ao Steam pela distribuição. Essa briga toda é sobre quem fica com a gorjeta.

Os jogos verdadeiramente grandes sempre foram sobre grandes ideias. E o modelo da Apple já provou que desenvolvedores independentes podem se dar bem em um ambiente de distribuição fechado, curado e da própria criadora do sistema. A Microsoft só precisa aparar algumas arestas para repetir esse sucesso. E de qualquer forma, não há indício de que a Microsoft tenha alguma intenção de acabar com as suas concorrentes. O papo complica um pouco com plataformas abertas, mas assumir cegamente que algo do tipo vá acontecer é errado.

Então não, o Windows 8 não é ruim para os jogos. A menos que você esteja tentando distribuir jogos.

* Nem vem. A interface se chama Metro até que a Microsoft se decida.