Estimular o cérebro com pequenas rajadas de eletricidade na esperança de melhorar a memória não é um conceito novo. Entretanto, um novo estudo mostra que essa terapia experimental poderia ser mais eficaz do que os estudos indicavam anteriormente. Uma equipe de neurocientistas da Universidade da Pensilvânia é a primeira a demonstrar com sucesso que a estimulação elétrica cerebral pode ter efeitos restaurativos.

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O estudo, publicado na Current Biology, representa um dos projetos mais exaustivos sobre como esse tipo de estimulação cerebral profunda pode potencialmente reduzir sinais de demência e ajudar a combater a perda de memória resultante de lesões na cabeça e de outras lesões cerebrais traumáticas comuns em soldados que retornam de conflitos no Afeganistão e no Iraque.

A pesquisa foi conduzida como parte de um projeto de quatro anos de duração financiado pelo Departamento de Defesa, chamado “Restaurando Memória Ativa” (em tradução livre), cujo objetivo é o desenvolvimento de um dispositivo completamente implantável que vai restaurar função de memória perdida. O estudo foi conduzido em um grupo de testes de indivíduos com epilepsia, já que a condição pode afetar a memória, e envolveu uma série de testes de memória em que os participantes recebiam estimulação em áreas do cérebro identificadas como relacionadas à codificação da memória. Os pesquisadores estimularam cérebros em estados de funcionamento tanto alto e baixo, descobrindo que, enquanto a memória tenha melhorado quando o estímulo aconteceu no estado de baixo funcionamento, os participantes marcaram menos pontos do que o normal quando o estímulo ocorreu em um estado de funcionamento já alto.

Como noticia o New York Times, estudos anteriores sobre estimulação cerebral profunda tiveram resultados misturados. Alguns especialistas acreditam que a estimulação elétrica do cérebro afiou a memória, mas outros acharam que ela apenas danificou o cérebro. Essa nova pesquisa oferece uma compreensão maior sobre esses sucessos e fracassos passados, demonstrando que é o timing da estimulação que é o essencial.

Embora uma pesquisa mais aprofundada seja necessária, os pesquisadores acreditam que essas descobertas podem reforçar a defesa de algo chamado de “tratamento em circuito fechado” (“closed-loop treatment”, em inglês), que envolve o uso de implantes cerebrais para enviar pulsos elétricos apenas quando o dispositivo detectar que eles seriam úteis. “Os dados sugerem aplicações de tratamento em circuito fechado para disfunção de memória”, disseram os pesquisadores em um comunicado incluído na pesquisa. A esperança entre vários neurocientistas é de que tais aplicações possam ajudar a tratar sintomas de Alzheimer, demência ou outras lesões cerebrais.

A maior lição tirada desse estudo é de que os pulsos elétricos direcionados podem potencialmente ajudar a melhorar o desempenho da memória se forem enviados no momento correto. Cientistas, é claro, continuarão testando essa teoria enquanto também desenvolvem novas maneiras de entregar esses tipos de estimulações cerebrais profundas. Por enquanto, ainda não temos uma cura para lesões cerebrais traumáticas — mas esse estudo certamente renova a nossa esperança.

Imagem do topo: Univeristy of Pennsylvania