Com o novo app da Wired, Conde Nast construiu, sem a menor dúvida, a melhor revista para o iPad. Ainda assim, eu fico me perguntando: é só isso? E custa tudo isso?

Eu amo a Wired. Eu amo revistas. Mas com o lançamento do app da revista, o esperadíssimo, profundamente alardeado e inesperadamente controverso "futuro de si mesma", o desconforto e a desilusão que eu senti durante a primeira leva de revistas para o iPad — dominada pela ambiciosa reimaginação da PopSci, mas composta basicamente de coisas mal-feitas e meia-bocas — só aumentou.

Consideremos os fatos:

O app da Wired custa U$5. A assinatura da revista, por um ano, custa pouco mais do que US$ 10 nos EUA. Um ano de Wired comprada pela App Store custaria US$ 60. (Para os brasileiros ainda é um bom negócio, jjá que cada número aqui custa R$ 28) Conde Nast aparentemente está trabalhando em um esquema de preços unificado para as versões impressa e digital da New Yorker, então talvez isso seja usado também na Wired? Quem sabe. Eu sei que deve custar um bocado de dinheiro produzir esse troço, mas os leitores não se importam com isso. Eles se importam com as palavras, e as palavras estão custando muito caro. (Além do mais, não é nem o caso de uma revista sem anúncios. Pelo contrário, ela tem um monte deles.)

Pesa mais de 500MB. Não me entenda mal: a diagramação e as ilustrações são ótimas, e os vídeos funcionam muito bem e também são bonitos. Mas no tempo que demorou para baixar e instalar este app no meu iPad, eu fui até a padaria, tirei dinheiro de um caixa eletrônico, tomei um café, voltei para casa e mandei alguns emails. Eu podia ter até passado na banca e comprado uma Wired!

Ainda é obviamente uma revista. Pode parecer uma definição bem tênue, mas com o seu app, a Wired não reinventou as revistas, ela apenas reinventou a Wired. O design gráfico dela é lendário, e eu odiaria vê-lo sendo prejudicado pelo app de iPad. Mas algumas destas convenções de revistas não funcionam em um meio digital — neste app, por exemplo, eu nunca sinto que consegui marcar uma página como faço na edição impressa, ou mesmo com um bookmark no Instapaper. A PopSci teve este problema também, e é preocupante que nenhum dos dois vanguardistas desta área saiba o que fazer a respeito. (Interessante que a melhor implementação de textos longos no iPad veio da Vanity Fair, que é da mesma empresa da Wired.)

As pequenas coisas! Por exemplo, não dá pra copiar e colar, ou compartilhar um artigo. (Algumas dessas coisas virão em atualizações futuras, aparentemente)

E aí, bem, tem a experiência. O visual, a sensação — o app em si. Nós vimos as demonstrações antes do lançamento, no Wired Reader, e babamos. É de babar mesmo! Mesmo assistindo à prévia agora de novo, eu me impressiono. Mas nas minhas mãos é… emocionalmente decepcionante? Visualmente decepcionante? Não sei. Só sei que não faz click — o layout e o design são impecáveis aos meus olhos, e os infográficos interativos são mesmo impressionantes, mas eu me pego desejando uma página de internet ou um pouco de texto puro e simples.

Mas, cara, e aqueles demos iniciais? As revistas seriam interativas, cara! Rolava um papo de futuro, de revolução. E depois do falatório, veio a execução. Este é aquele app, menos cerca de, sei lá, uns 15% de experimentação?

O vídeo, os diagramas, a interatividade — está tudo aqui, mas nas minhas mãos nada captura a mágica que tinha antes, naquele vídeo, e, mais importante, nas nossas imaginações. A Wired não quebrou a sua promessa, nós é que entendemos errado e esperamos demais.

O app da Wired é um grande passo na direção de um app de revista interativo. Sim, é um saco folhear por todos aqueles anúncios — eu não sei por que revistas digitais acham que precisam aderir às mesmas convenções de publicidade que as impressas — e ainda há uma porção de ajustes que precisam ser feitos, mas eu acho que percebo onde eles querem chegar, vagamente. É atraente e chamativo, impressionante, mas caro. É inspirador.

A alternativa ideal para revistas digitais, do ponto de vista comercial, é uma abordagem mais básica — PDFs escaneados, ou scans OCR das edições em banca, mais ou menos como conteúdo web. Estas custam muito pouco para serem produzidas — e por isso eu digo que são a alternativa ideal — e as editoras podem dar aos leitores seus arquivos completos, na ponta dos dedos, por quase nada. Mas isso só é atraente para uma certa categoria de leitores, para revistas com muito texto, e, mesmo assim, não fica claro como isso deva ser vendido: seria um bônus da revista impressa? Uma assinatura separada?

Estas não são perguntas novas. São as mesmas que os observadores mais cínicos vêm fazendo desde a primeira empolgação com o iPad e a imprensa. Só que com a Wired, o supra-sumo em termos de revista em forma de app, elas ainda não foram respondidas. [Wired]