Humanos não sabem muito sobre o universo, mas sabemos que a maioria da gravidade que o sustenta, cerca de 85% dela, vem de algo que não conseguimos ver ou tocar, chamado matéria escura. E outra força que não conseguimos ver ou tocar, chamada energia escura, ao mesmo tempo está fazendo o universo expandir, em um ritmo cada vez maior. Mas as medidas que fazemos para tentar entender precisamente os efeitos da energia escura não estão fazendo sentido.

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Um time de cientistas da NASA e da Agência Espacial Européia (ESA) lançaram diversas novas medições da constante de Hubble, o número que se aproxima à taxa de expansão do universo. Essas novas medições correspondem com outras recentes feitas com outros instrumentos mas não com outras medições mais antigas de distâncias observáveis. A história toda pinta uma figura frustrante sobre a forma como os cientistas precisam estabelecer fatos sobre o nosso universo.

Há tempos os cientistas tentam medir a constante Hubble e a expansão do universo. Observações iniciadas nos anos 1950 deram valores de 50 a 100 quilômetros por segundo por megaparsec de espaço, o que quer dizer que galáxias a 3,3 milhões de anos luz de distância de nós se movem algo entre 50 a 100 quilômetros por segundo.

Ano passado o satélite Planck da ESA mediu um valor de expansão por volta de 68 km/s/Mpc ao observar o fundo cósmico de microondas, luz invisível encontrada em qualquer lugar do espaço, originada algumas centenas de milhares de anos após o Big Bang. Mas como o Gizmodo contou antes, o Telescópio Espacial Hubble também tentou medir a constante de Hubble no anos passados, ao observar estrelas e supernovas bem mais próximas. Chegando ao valor de cerca de 73 km/s/Mpc, sugerindo que o nosso universo está se movendo cerca de 5% a 9% mais rápido do que pensávamos. Foi uma revelação muito louca para os físicos que descobriram, e sugere que ainda mais pesquisas seriam necessárias para reconciliar as medições diferentes.

Agora, outro conjunto de medições tiradas de um experimento completamente diferente parece confirmar as surpeendentes medições do telescópio Hubble. Pesquisadores da colaboração H0LiCOW (abreviação de H0 Lenses em COSMOGRAIL Wellspring) mediu a constante de Hubble ao observar como a gravidade faz a luz de galáxias distantes se curvar perto de quasares, objetos de energia super brilhante que pensamos que pode estar no centro das galáxias. Conforme os quasares cintilam, também piscam as imagens das galáxias por trás deles, o que ajuda os cientistas a determinarem a distância que a luz teve que percorrer. Os pesquisadores publicaram seus resultados em dois artigos no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Mesmo com os dados do H0LiCOW na equação agora, a nova medição da constante de Hubble e a que foi determinada pelos microondas de fundo cósmico não são estatisticamente separáveis ao alto grau de significância que os astrofísicos necessitam, explicou ao Gizmodo Anže Slosar, lider de grupo do Cosmology and Astrophysics Group at the Brookhaven National Laboratory in New York, que não estava envolvido no estudo. Físicos precisam de provas esmagadoras que algo no universo não aconteceu por acaso, bem mais do que, por exemplo, um médico que está testando se um remédio cura uma doença.

Que fique claro que os dados do HoLiCOW são muito bons. “Você precisa louvar o fato deles fazerem a análise cega, esse lindo método onde você não olha para a resposta, mas eles fazem a análise e não veem o número final até terem feito tudo da melhor maneira possível”, diz Slosar. “Isso acrescenta confiança às suas medidas”.

Então se tecnicamente nada está estatisticamente diferente entre as novas medidas HoLiCOW e as medidas anteriores da expansão do nosso universo, por que isso é novidade? Bem, um novo experimento confirmou um experimento completamente diferente. Na ciência, isso é uma das coisas mais importantes que podem acontecer, dois experimentos verificando os mesmos resultados de formas completamente diferentes.

Infelizmente, a nova prova nesse caso não levou a uma nova descoberta física. Em vez disso, nós temos mais provas para mostrar que nós podemos ter dois valores diferentes para a expansão do universo, e ainda não temos certeza o porquê disso.

É assim que a ciência funciona, e se quisermos continuar aprendendo novas coisas sobre como o universo, ou até nós mesmos, às vezes leva um bom tempo, custa muito dinheiro e envolve muitos resultados crescentes e inconclusivos no caminho.

[NASA]

Imagem: NASA, ESA, Suyu (Max Planck Institute for Astrophysics), Auger (University of Cambridge)