Quando se observa uma obra de arte numa exposição, quantas perguntas passam pela sua cabeça? De qual movimento artístico ela pertence, em que contexto ela se insere? Na exposição “A Voz da Arte” na Pinacoteca de São Paulo será possível conversar com pinturas e esculturas. Ou melhor, conversar com a inteligência artificial Watson, da IBM, treinada para falar com os visitantes sobre sete peças.

• Estes pôsteres parecidos com selos são obras de arte com referências incríveis
• Pinturas revelam sinais de Alzheimer e Parkinson em artistas famosos

A interação acontece por meio de um kit com celular e fones de ouvido entregues no início da exposição, bem similar com os acessórios tradicionais de visita guiada por áudio. A diferença é que, em vez de um guia contínuo, você interage no momento que preferir e com qualquer pergunta. Ao entrar numa sala com uma das obras disponíveis, a voz feminina do Watson comenta brevemente sobre o trabalho e instiga o visitante a querer saber mais – foram instalados pequenos beacons que identifica a presença do visitante com o celular. No espaço da obra “Ventania” de Antônio Parreiras, por exemplo, ela comenta sobre a sensação de frio que a personagem da pintura poderia estar sentindo.

Chegando mais perto da obra, é possível fazer mais perguntas – das mais simples, como uma breve biografia do autor, até as mais complexas, sobre elementos do cenário, contexto nacional da época ou estilo do artista. O Watson explica o significado de elementos e coloca, inclusive, curiosidades sobre o cotidiano na conversa. De acordo com Fabrício Barth, líder técnico do grupo Watson do IBM, são 50 intenções com respostas e 12 mil maneiras de se perguntar. Quando perguntei sobre a presença dos números na obra “São Paulo” de Tarsila do Amaral, o Watson explicou que não há um consenso sobre o significado do elemento, mas que provavelmente representa um outdoor que indica a urbanização e avanço econômico da cidade, levando em consideração os outros objetos representados pela artista.

P_20170404_202946

Para treinar a máquina, a IBM iniciou um teste na comunidade interna e foi alimentando a inteligência com dados de especialistas durante seis meses. Depois, eles passaram a realizar experiências na própria Pinacoteca. O processo garantiu que o Watson respondesse até interações inusitadas: na obra “O Porco” de Nelson Lerner uma das perguntas mais comuns é “Esse porco é palmeirense” – e a resposta é direta “A obra não tem relação com nenhum time de futebol, porém o artista é corinthiano”. Mas o Watson não sabe de tudo, e nesses casos ouvimos a frase: “desculpe, mas isto eu não sei responder”. Às vezes, ele sabe, mas é preciso repetir a pergunta de uma outra forma. Novas perguntas são catalogadas e enviadas para um especialista em arte, ampliando as possibilidades de diálogo com o tempo.

A mostra “A Voz da Arte” está aberta ao público a partir desta quarta-feira, 5 de abril, e ficará disponível por dois meses (até 5 de junho). É possível visitá-la de quarta a segunda, das 10h às 17h, na Praça da Luz. Os ingressos custam R$ 6, e são gratuitos aos sábados. São 25 dispositivos, que ficam disponíveis por ordem de chegada. Segundo a Pinacoteca, a intenção é aumentar o número para 45 celulares.