Existem diversas explicações possíveis para assombrações, até porque somos criaturas muito sugestivas, especialmente quando queremos acreditar em algo. Porém, ver um ‘fantasma’ pode ser na verdade um resultado de sons – ondas sonoras que vibram um pouco abaixo da nossa capacidade auditiva, e que são apelidadas de “frequência do medo”.

O som é basicamente energia mecânica em forma de uma onda, com cristas e vales: vibrações criam um distúrbio no ar ao redor e ondulam de dentro para fora, igual quando jogamos uma pedrinha no lago.

A frequência mede quantos picos (ou cristas) acontecem numa onda em um segundo. A unidade de medida é chamada de Hertz (Hz), e 1 Hz é equivalente a 1 vibração por segundo. A corda de um violão, quando tocada, pode vibrar 500 vezes por segundo, fazendo com que as partículas de ar vibrem na mesma frequência. Neste caso, a frequência da onda seria de 500 Hertz.

A frequência do medo

Os humanos conseguem ouvir entre 20 Hz a 20.000 Hz (20 kHz), mas isso pode variar de pessoa pra pessoa e diminui conforme envelhecemos. Sob condições ideais num laboratório, algumas pessoas podem perceber sons a frequências baixíssimas, como 12 Hz – que já está no espectro do “infrassom”, ondas sonoras extremamente graves.

Quando conseguimos ouvir conscientemente sons como esse, é possível que ele nos cause uma sensação de ansiedade, especialmente se estiver em intensidades maiores. Isso levou algumas pessoas a apelidar a frequência 18,9 Hz – que está apenas um pouquinho abaixo do nosso limite – como a “frequência do medo”.

Podemos agradecer a um engenheiro britânico chamado Vic Tandy por associar a chamada frequência do medo aos fantasmas. Ele se tornou um caçador de fantasmas, graças a própria experiência que teve enquanto trabalhava tarde da noite no (supostamente assombrado) Warwick Laboratory. Inexplicavelmente, ele sentiu os pelos do seu pescoço se arrepiarem, como se estivesse com medo, e percebeu um vulto acinzentado em formato de gota no canto do seu olho. A figura sumiu quando ele virou a cabeça para vê-la diretamente.

Ele buscou uma explicação lógica para o acontecimento e a encontrou no fenômeno da frequência ressonante. Todo objeto material tem uma frequência ressonante natural. Se há outro objeto por perto que é sensível a essa mesma frequência, ela irá absorver as vibrações (ondas de som) emitidas pelo outro objeto e irá responder com uma vibração. O efeito é conhecido como “ressonância simpática”. É o motivo pelo qual passar o dedo na boca de uma taça de cristal produz som, e a uma nota feita num piano pode ecoar no piano da sala ao lado.

No dia seguinte, enquanto Tandy trabalhava numa esgrima, ele percebeu que a lâmina começava a vibrar mesmo que nada estivesse a tocando. Acontece que o ventilador do laboratório estava emitindo uma frequência ressonante perto dos 18,98 Hz, a mesma frequência ressonante do olho humano.

Ele concluiu que o vulto cinza que tinha visto era, na verdade, uma ilusão de ótica, resultado da frequência ressonante dos seus olhos. O sentimento que ele tinha de ansiedade e medo passou quando ele desligou o ventilador. “Quando eu finalmente o desliguei, foi como se um grande peso saísse de mim”, contou ao Guardian em 2000.

Experimentos

Tandy faleceu em 2005, mas outras pessoas continuaram o seu trabalho. O psicólogo Richard Wiseman e alguns colegas britânicos conduziram um experimento maior com o infrassom em maio de 2003, numa apresentação pública chamada “Infrasonic”. 700 pessoas assistiram a duas performances, onde foram tocadas duas músicas que continham tons críticos de 17 Hz num volume bem no limite da audição humana. (Outras sons comuns serviram como controle, já que a audiência não sabia que as músicas com tons quase infrassônicos estavam tocando.)

O resultado: não foi um banho de evidências concretas – há muitos elementos subjetivos no assunto e os cientistas ainda não têm certeza do porquê o infrassom afetar apenas algumas pessoas – porém 22% da audiência relatou sentimentos de ansiedade, desconfortos, medo, pressão no peito e calafrios. Wiseman disse ao British Association for the Advancement of Science que “os resultados sugerem que sons em baixa frequência podem fazer com que pessoas tenham experiências incomuns, mesmo que elas não consigam perceber conscientemente o infrassom.”

Um experimento em 2008, liderado pelo psicólogo britânico Christopher French, foi ainda mais intrigante. Junto a colegas da University College London, ele construiu uma sala “assombrada” com vários geradores infrassônicos (e fontes de pulsos eletromagnéticos). 79 cidadãos londrinos se voluntariaram para passar algum tempo lá dentro.

“A maior parte das pessoas relatou uma sensação diferente, como uma presença ou tonturas; algumas relataram medo, o que a gente não esperava,” contou Frech à revista Scientific American em 2008. Mas ele não foi muito assertivo nas afirmações de que o infrassom e os campos eletromagnéticos de baixa frequência foram a causa direta desses sentimentos; a sugestionabilidade – disposição de ser influenciado por uma ideia – também parece exercer um papel.

A propósito, o infrassom também está associado com a “brown note”: frequências de som que vão de 5 a 9 Hz e que supostamente fazem as pessoas perder o controle de seus intestinos. Esses rumores surgiram no início do programa espacial americano, quando astronautas relataram efeitos adversos nos testes de vibrações. Estudos seguintes, no entanto, incluindo uma investigação do programa de TV Os Caçadores de Mitos em 2005, não revelaram nenhum desses efeitos.

Foto por cuneogc/Flickr