Em 18 de outubro de 1963, o Centre national d’études, na França, se preparou para mandar um pequeno gato chamado Félix para o espaço. Depois de ficar para trás dos competidores soviéticos e americanos, o país estava ansioso em alcançar seu lugar na corrida espacial, com gatos por algum motivo. Mas, na hora do almoço, o bichano safado desapareceu, e uma heroína acidental apareceu para tomar seu lugar. Seu nome era Félicette.

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Das ruas de Paris, essa gatinha de smoking apelidada de “Atrocat” alcançaria alturas jamais galgadas pela espécie felina. Em 24 de outubro de 1963, Félicette subiu 210 quilômetros acima da Terra no foguete francês Véronique AG1, voando alto no deserto do saara argelino. Ela voltou quinze minutos depois, já condecorada como heroína de sua nação.

Após seu pouso, cientistas franceses do Centro Educacional para Aviação e Pesquisa Médica (CERMA) estudaram as ondas cerebrais de Félicette para ver se elas tinham sido alteradas na sua viagem. Embora não se saiba muito sobre suas descobertas, ou sobre o destino final de Félicette, o CERMA disse que ela fez uma “contribuição valiosa para a pesquisa”.

Infelizmente, a história de Félicette se perdeu nas areias do tempo; uma vítima da nossa sociedade cãotriarcal que favorece as conquistas dos cachorros acima das outras. Mas o lugar da França na corrida espacial, ou a falta dele, pode explicar esse esquecimento.

“Eu acho que faz parte de como a história se desenrolou”, o historiador espacial e editor do site sobre história espacial collectSPACE, Robert Pearlman, disse ao Gizmodo. “O esforço que levou a lançar humanos no espaço, e por fim à lua, foi a corrida espacial entre os Estados Unidos e os russos.”

Os esforços pioneiros de corajosos cães, macacos e outros animais pavimentou o caminho para os humanos na corrida espacial entre EUA e União Soviética para a lua. Cientistas usaram animais como cobaias para ver como a falta de gravidade iria impactá-los, e por conseguinte os humanos. Se animais podiam sobreviver às duras condições espaciais, então nós também poderíamos. Pelo menos era essa a ideia.

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Imagem: “Gato Espacial Volta Vivo.” The Sydney Morning Herald, 20 de outubro de 1963 via Félicette

Laika, a cadela soviética, levou diretamente a Yuri Gagarin virar o primeiro humano no espaço, o que levou a Alexey Leonov ser o primeiro humano a andar fora da nave”, Pearlman disse. “Os macacos Able e Miss Baker levaram aos primeiros vôos americanos que lançaram heróis como John Glenn e Alan Shepard no espaço”.

Por mais que a França tivesse seu próprio e formidável programa espacial, Pearlman disse que os franceses por fim não buscaram mandar humanos no espaço nos foguetes de sua nação. Isso pode explicar o relativo mistério em volta de Félicette.

“Eu acho que faz parte de como a história se desenrolou. O esforço que levou a lançar humanos no espaço, e por fim à lua, foi a corrida espacial entre os Estados Unidos e os russos.”

“[A França] é um parceiro por meio da Agência Espacial Européia e é diretamente conectada à NASA e à ISS, mas astronautas franceses tipicamente são lançados em foguetes russos ou americanos”, ele disse. “Então Félicette não é um caminho para uma história maior, [diferente dos animais americanos ou soviéticos]”.

Apesar de alguns animais, como ratos, ainda serem lançados ao espaço, a sociedade se afastou de testar os efeitos do vôo espacial em animais domesticados. A próxima vez que nós veremos gatos nas alturas vai ser provavelmente quando humanos morarem no espaço.

“Eu não sei se veremos gatos ou cachorros voarem de novo, ao menos a curto prazo”, Pearlman contou. “Nós nos afastamos dos testes com animais para aprender como o corpo humano reagiria no espaço, nós mandamos humanos para o espaço, e eles já ficaram por lá por mais do que um ano. Seu papel nesse sentido acabou”.

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Imagem: Wikimedia commons

“Só quando famílias forem ao espaço para turismo ou transporte, eu acho que veremos como levar nossos animais de estimação”, Pearlman disse.

Apesar de Pearlman não ter gatos ou cachorros, embora tenha admitido que é “mais uma pessoa de gatos”, disse que Félicette “tem um lugar especial no seu livro de história”.

Ao manter sua história viva, nós prestamos homenagem à corajosa gata de rua que chegou a alturas que a maioria de nós jamais alcançará. Além do mais, nós queremos estar em bons termos com os gatos quando eles finalmente dominarem a colônia marciana de Elon Musk.

“Um gato marciano”, Pearlman considerou. “Isso seria interessante”.

Imagem do topo: Felicette, Jim Cooke