Imagine que toda vez que você precisasse de um remédio com receita, você fosse até a farmácia e o farmacêutico imprimisse seu medicamento na hora. A micromanufatura sob demanda permitiria aos farmacêuticos customizar a dosagem para a sua biologia própria ou até mesmo combinar várias pílulas em uma dose. Essa é uma visão futurista dos produtos farmacêuticos que um número crescente de cientistas espera ser capaz de tornar os remédios mais baratos, personalizados e acessíveis para lugares mais distantes.

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Agora, um novo método de “impressão” de remédios poderia aproximar esse sonho da realidade. Pesquisadores da Universidade de Michigan inventaram uma técnica que, dizem eles, pode imprimir doses precisas de várias drogas em uma variedade de superfícies. Um dia, a técnica poderia levar à impressão instantânea de medicamentos customizados em farmácias, hospitais e outros locais, como eles relatam em estudo publicado na Nature Communications.

“Conseguimos imprimir remédios diretamente sobre qualquer coisa que você queira, basicamente”, disse Max Shtein, autor principal do estudo, em entrevista ao Gizmodo. “Fizemos isso até em uma caixinha de listerine.”

O grupo de Shtein não é o primeiro a sonhar em imprimir remédios. Na Universidade de Glasgow, na Escócia, o químico Lee Cronin demonstrou os estágios iniciais do que ele espera que um dia possa permitir aos médicos fazer impressão 3D de remédios com facilidade, usando uma impressora para iniciar reações químicas que criam medicamentos.

No MIT, Jose Gomez-Marquez está trabalhando em uma abordagem diferente para a mesma ideia, buscando criar algo como um Keurig para drogas farmacêuticas, o que permitiria aos farmacêuticos, ou num futuro mais distante até mesmo os próprios consumidores, criar drogas a partir de componentes básicos previamente empacotados. E no Instituto Wyss, de Harvard, o bioquímico Peter Nguyen está desenvolvendo um sistema para que agentes médicos de campo possam criar remédios para salvar vidas em um formato que ele compara a um pote de Cup Noodles.

A lista de incentivos para tais abordagens é longa. Primeiro, isso poderia facilitar o transporte de remédios para locais mais difíceis, como zonas de guerra ou áreas rurais, onde alguns medicamentos são difíceis de se obter por ser difícil mantê-los estáveis durante o transporte. Alguns esperam que essa abordagem possa levar a menores custos. E a tão esperada era da medicina personalizada vai exigir que exista um jeito simples, de baixo custo e local de fabricar pequenas quantidades de substâncias feitas sob medida para indivíduos.

O avanço que Shtein e seus colegas parecem ter alcançado está em sua metodologia. O conhecimento de Shtein em semicondutores e engenharia química lhe permitiu buscar aplicar técnicas de manufatura de eletrônicos nos produtos farmacêuticos. O sistema consiste em vaporizar e depois esguichar as moléculas que compõem os ingredientes ativos de um remédio.

“Você começa com um material puro, frequentemente um pó, e o aquece até que ele comece a evaporar. Então, você pega aquele vapor com uma corrente de gás de nitrogênio e envia essa mistura de gás pelo tubo em alta velocidade até a superfície”, explicou. “O vapor condensa no material, assim como a condensação em um espelho de banheiro, mas de forma muito controlada. Esse revestimento é basicamente o nosso remédio.”

Os pesquisadores testaram remédios para câncer, especificamente, assim como outras drogas, mas disseram que a técnica deve funcionar para produzir qualquer número de compostos, incluindo aqueles que não são solúveis o bastante para funcionar com métodos de produção de medicamentos atuais. Em outras palavras, isso poderia um dia levar a novos remédios.

Uma grande vantagem, ele disse, será a capacidade de controlar a dosagem.

“Um médico prescreve uma certa quantidade de um remédio não porque é a quantidade certa a se tomar, mas, sim, porque esse é o número de miligramas em que ele vem”, afirmou. “Isso permite a capacidade máxima de ajuste.”

Gomez-Marquez, do MIT, disse que o trabalho era um importante avanço.

“Isso é um trabalho *bom*”, contou ao Gizmodo, por email. “A equipe em Michigan é conservadora em suas alegações. Acho que a noção de deposição de vapor é uma evolução empolgante.”

Ainda vai levar vários anos para que as farmácias coloquem em seu estoque uma coisa como uma impressora de vapor, e ainda mais anos até que seja seguro que você faça seus próprios medicamentos em casa. Mas tal futuro parece mais imaginável a cada dia.

“Se você olhar para o seu smartphone, você tem o mesmo smartphone que outras dez milhões de pessoas, mas ele é único por causa dos aplicativos que você tem nele”, Shtein disse ao Gizmodo. “Estamos nos aproximando desse paradigma com a medicina. Essa tecnologia abre essas possibilidades.”

Imagem do topo: University of Michigan