A apresentação do Galaxy S III mostrou uma Samsung diferente. Nenhuma especificação foi apresentada prometendo “X vezes mais velocidade” do que seu antecessor. Na hora da câmera, comentários sobre a velocidade e as mudanças de software — nada de megapixels. Todo o foco em software da Samsung é um ótimo sinal para os usuários. Para o Android, no entanto, a consolidação do TouchWiz é algo grande o suficiente para pensarmos sobre.

A ideia de “mais prático” e de “integração natural” foram os focos de toda a apresentação da Samsung. Arrisco dizer que nunca vimos uma apresentação de um smartphone com Android com tão poucas informações sobre especificações e hardware. O processador de quatro núcleos foi citado rapidamente em um vídeo, as mágicas da câmera foram vendidas por software, e não por megapixels, a tela foi apresentada por causa de sua beleza para ver vídeos e fotos, e não por causa de sua resolução de 720p. O novo slogan do aparelho é “designed for humans”.

[youtube iB3xvh0Rh8E 640 380]

Isso também ficou claro nas novidades, como o S Beam, o AllShare e o S Voice. A Samsung quer muito mais praticidade para o usuário. Foco em praticidade e no TouchWiz. Transformar um smartphone em algo que “qualquer um pode usar” não é um ponto negativo — esse é o caminho para os smartphones. Um milhão de possibilidades e customizações não são o que as pessoas comuns querem e, ei, o mundo é composto por essas pessoas. A praticidade deveria sempre ter sido o foco, e não especificações e corridas por números. Felizmente, isso parece estar mudando até mesmo no Android, onde o lançamento furioso de dezenas de celulares por ano ajuda a aumentar a discussão pelos números: uma das principais razões para nossa empolgação com o HTC One X é por causa do novo passo do Sense. As pessoas, em geral, não se importam com as customizações, desde que elas tragam melhorias para os aparelhos.

Já faz um bom tempo que a Samsung vem trabalhando com o TouchWiz não só como um redesenho para o Android, mas sim como uma plataforma maior, que engloba não só celulares. Na CES deste ano, vimos TVs da empresa com o mesmo padrão de smartphones. À época, o Pedro resumiu bem o que isso significava:

Agora, preste atenção, com calma, no vídeo. O mecanismo de buscas era o Bing. E esta TV da Samsung, a mais inteligente do show, não tem Google TV. Nenhum robô verde foi mencionado em toda a coletiva, nem na hora de falar dos tablets que estão chegando aos EUA: a maior parceira do sucesso do Android hoje está fazendo seu ambiente proprietário crescer, não apenas na TV. Mas a dominação deve começar a partir das telonas: a Samsung disse que já há 25 mil desenvolvedores trabalhando para disponibilizar os programinhas que criam novas funcionalidades às suas TVs, mantendo o mesmo padrão visual do TouchWiz, que aparece não só no Android, mas no Bada (lembra?). Os coreanos estão dispostos a aumentar esse ambiente, com incentivos: durante a coletiva eles deram 100 mil dólares para os desenvolvedores de um app meio bobo, mais para mostrar que estão querendo fomentar a criação de coisas específicas para seu ambiente. Agora eles farão um novo concurso com apps compráveis pela loja própria de apps do TouchWiz que conversam com a TV. Não é muito “aberto” e “livre”, mas para quem tem coisas da mesma empresa, sem dúvida é mais prático.

E isso voltou a acontecer hoje: o AllShare Play, por exemplo, terá sua API e um SDK liberado para que desenvolvedores trabalhem em aplicativos específicos para a plataforma da Samsung. A proposta de criar um ecossistema próprio, que funcione sem fricção com diversos aparelhos dentro de casa (smartphone, TV, players de mídia e Home Theater) foi o caminho escolhido pela Samsung. Mais prático.

Mas por que o Android como um todo deve ficar ressabiado em relação ao lançamento da Samsung?

Não há problemas em o Android ser citado uma ou duas vezes no evento — isso pode ser encarado como um processo natural. O problema maior é que tanto em smartphones quanto em tablets, as empresas que realmente dominam o mercado estão transformando o Android, criando seus próprios sistemas baseado no SDK do Google.

No primeiro trimestre de 2012, apenas três empresas dividiram os lucros com vendas de smartphones no mundo: 73% ficou com a Apple, 26% com a Samsung e 1% com a HTC. Fora as três, todas as fabricantes perderam dinheiro no início do ano.

E a única empresa que lucra algo com mais de dois dígitos e usa Android entendeu que vale a pena redesenhar todo o sistema para colocá-lo dentro de um ecossistema menor, mas completo.

Paralelamente, nos EUA, o Kindle Fire já representa mais de 50% dos tablets com Android vendidos, segundo ComScore. 54% de mercado, contra 15% de toda a família Galaxy junta. E, como já falamos por aqui, o Kindle Fire não é um tablet com Android, ele é um tablet com Amazon, dado o tamanho das modificações que a empresa fez no sistema operacional do Google.

O preço para criar um ambiente prático, intuitivo e coeso, em que o usuário realmente se sinta à vontade e tenha facilidade em fazer aparelhos e softwares interagirem é barato: basta focar em seus próprios produtos. Se a Samsung esperar o surgimento de um ecossistema completo assim partindo do Google, ela sangrará dinheiro, como as outras empresas.

O sucesso do Galaxy S III deve depender disso. Ele pode até não ser o melhor Android do mercado — ainda precisamos mexer no brinquedo, mas o HTC One X ainda aquece nossos corações. Mas caso ele seja o Android mais completo, englobando toda sua vida digital sem dificuldades, ele não deve encontrar muitos concorrentes internos.