Encerrando as comemorações de 5 anos do Gizmodo Brasil, convidamos André Conti, editor da Companhia das Letras, para escrever como a tecnologia mudou nos últimos anos. Uma análise importante sobre como imaginávamos que a internet do futuro seria, e como ela é hoje – e o que temos que fazer para que ela não se transforme mais em problema do que solução. Com vocês, “velocidade de escape”:

Bem ali no início da popularização da internet no Brasil, lembro de dois livros que mexeram muito com minha cabeça. Eu vinha das BBSs de Mac, com incursões na Mandic e na STI, e estava há uns dois anos gastando todos os pulsos telefônicos do mundo para escavar meus primeiros fóruns, serviços de busca e comunidades online (alô, Geocities). Alguém me deu de presente o espantoso Escape velocity: cyberculture at the end of the century, em que um pesquisador chamado Mark Dery falava de subculturas digitais que vinham brotando há anos na internet. Em meio à cornucópia de cyberartistas, cyberativistas e cyber tarados, Dery tentava não só dar sentido ao momento, mas também apontar possíveis rumos para a cultura digital, a rede e o futuro.

Salvo engano, Dery errou em tudo. A radicalização que ele previu ocorreu, mas pelo caminho inverso. Cyberpunks, transhumanos e arte digital existem, todavia não têm a força em 2013 que ele via para o futuro de 1996. Se a internet de fato chegou às pessoas, como ele e qualquer futurólogo que se prezasse diziam, ela parece uma versão domesticada do que Dery enxergava para o futuro quando fez o livro. Ora, ela parece domesticada em relação à própria internet de 1996. Não vou pregar aqui uma volta nostálgica aos tempos de Altavista e web 1.0. As coisas são o que são. E, em termos gerais, a internet é mais divertida hoje do que era em 1996: mais rápida, variada, vasta, abrangente, carregada de informações. Mas o futuro traçado por Dery tinha nexo dentro de um espírito que lá parecia inexorável, e que se transformou de forma extrema nos últimos quinze anos, com o sentido de comunidade sendo paulatinamente substituído pelo social.

O outro livro, que também é de 1996, se chama Takedown, e foi escrito (em parceria com um jornalista do New York Times) pelo técnico de segurança responsável pela perseguição ao lendário hacker Kevin Mitnick, na época procurado pelo FBI por dezenas de crimes digitais. Tsutomo Shimomura tem seu computador invadido por Mitnick — por mera provocação, diga-se – e jura vingança. Ele se junta à polícia e passa meses interceptando os sinais do hacker e perseguindo as trilhas tênues que ele deixava para trás. O livro tem um falso clima cinematográfico e é, hoje sabemos, bastante injusto com Mitnick, que terminou preso e proibido de se aproximar de computadores (atualmente ele presta consultoria de segurança). Para quem estava a milhares de quilômetros de distância, numa conexão à lenha, recebendo aquele impacto real da internet a conta gotas, o livro falava de outra cultura que parecia inexorável, e que também se foi. Não estou tentando empregar um senso de heroísmo a Mitnick – ele roubava números de cartão de crédito como os milhares de hackers anônimos e em grupo seguem fazendo. Onde há dinheiro, há crime, mas ele parecia parte integral daquilo, não um mero sintoma da vida conectada. E as medidas tomadas eram contra Mitnick e outros hackers, e não contra a rede. O mesmo espírito que fez surgir a cultura hacker parecia preservado.

Claro que as possibilidades aumentaram. Não sou o ermitão do ICQ, agarrado a um Op de 1998 no canal #illuminati da Brasnet. Até paguei por um serviço de Usenet um tempo atrás, mas logo vi que não tenho mais saco nem pra procurar arquivos lá. Aderi ao Facebook, Twitter e mantenho com orgulho minha página no Orkut. Fiz tantos amigos na internet quanto fora, e não vejo muita distinção (toda vez que alguém diz que “falta o olho no olho” pela rede, nasce, sofre e morre um cão prematuro). A realidade social da internet é tão inexorável hoje como foi o sentido comunitário nos anos 90. E, para falar a verdade, se você procurar um pouco, há enormes bolsões onde essa cultura inicial está intacta. A cada anúncio dirigido especificamente a mim no Gmail, há gente procurando caminhos, saídas e soluções para a tomada corporativa que a internet sofreu nos últimos cinco anos. Esqueça os bolsões: inúmero códigos sociais da rede, dialetos, condutas e modas são herança direta desse ethos micreiro, que por sua vez remonta às BBSs, grupos de discussão, redes universitárias e outras pedras fundamentais da cultura digital.

Ainda assim, basta uma hora dando uma sapeada pelas suas redes para perceber que a internet ficou com a cara e, pior, o espírito de um disco da Dave Matthew’s Band. Há algo de apaziguado mesmo nos mais estridentes gritos de protesto, geralmente feitos em serviços de empresas multi milionárias que coletam dados para fins publicitários. Esses dias, um amigo dos tempos de BBS saiu do Facebook porque teve uma foto marcada pelo próprio sistema na conta de uma amiga. Ele havia tomado cuidado para não permitir marcações de nenhum tipo, mas foi reconhecido por um algoritmo. Achei o argumento para a saída bom: é preciso manter um pouco da dignidade. Num texto recente, desses depoimentos pessoais pungentes e igualmente apaziguados que recebemos todos os dias, alguém explicava por que tinha tirado todas as fotos dos filhos pequenos da rede. Achei o argumento igualmente bom: elas têm tanto direito de mediar a vida digital (e, no limite, a vida) quanto eu e você; é só imaginar um mundo onde seus pais detivessem até hoje o controle das suas fotos que entram no mural.

A própria busca por informação mudou. Há algo de normalizador nas infinitas listas do Buzzfeed sobre Coisas Que Você Achava Que Só Aconteciam Com Você, como se essa coletivização da experiência individual acarretasse em prejuízo à própria experiência individual. Acho o Gizmodo sintomático disso: uma lista culturalmente relevante de novidades digitais, organizada, importante e centralizadora. Não há nada de errado com Buzzfeed ou Gizmodo, e passo pelos dois todos os dias. Mas me parece que o efeito causado pela amplificação nas redes sociais é de criação de consenso – não estou dizendo que as pessoas concordam na internet, por deus –, de uma narrativa que dê sentido linear, horizontal, a produtos, acontecimentos e novidades díspares e verticais.

Em retrospecto (de cinco, dez, vinte anos), pode dar a impressão de batalha perdida. A conjunção de grandes corporações, invasão de privacidade, histeria coletiva e sistemas de controle digital de fato ameaça o espírito livre e anárquico da rede, sem risco de parecer o ancião gritando contra as nuvens. A manutenção disso está na ordem do dia. Mas não há volta possível, como nunca houve. O possível é tentar enxergar um futuro para a rede que esteja além do momento em que ela pareça fixada.