Bem vindo de volta ao Giz Asks, uma série em que fazemos perguntas complicadas para especialistas sobre ciência, tecnologia e o futuro da humanidade. Hoje nós fizemos várias perguntas a especialistas sobre cobras de duas cabeças e como elas funcionam.

O reino animal está repleto de todos os tipos de estranhas criaturas, mas poucas são tão curiosamente perturbadoras quanto a cobra de duas cabeças. A internet está cheia de vídeos dessas esquisitices andando por aí, e, quando você vir uma, elas são difíceis de esquecer. Você começa a se perguntar: De onde essas criaturas vêm? Como elas se movimentam? Elas brigam por comida? Ela pode sentir alguma hora que, a certo nível, ela está andando por aí com uma cabeça a mais do que o necessário? A cobra de duas cabeças é uma cobra ou duas?

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Fomos atrás de alguns especialistas no assunto, pessoas que estudaram a biologia das cobras e examinaram esses animais de perto. Ao que parece, o processo biológico que as forma não é tão diferente do que gera gêmeos idênticos. E, como gêmeos idênticos, uma cobra de duas cabeças pode ser bem competitiva, cada cabeça realmente tem uma mente própria.

Kraig Adler

Professor emérito de biologia na Universidade Cornell, especializado na base sensorial da orientação e navegação a longas distâncias, particularmente entre anfíbios e répteis.

A cobra que eu tinha era um animalzinho estranho. Tinha dois pescoços, e eles eram separados, cada um tinha talvez uns seis milímetros e podia se mover independentemente do outro. As cabeças eram completamente formadas, cada uma com seu próprio cérebro, sua própria boca, suas próprias narinas, sua própria língua. Cada cabeça se alimentava de pequenos peixes. Mas logo cedo uma das cabeças desenvolveu dominância sobre a outra e ficou mais agressiva, se alimentava mais rápido do que a outra.

Como duas cabeças movimentam um único corpo?

As cabeças separadas tomavam decisões independentemente e, ao se moverem, elas não estavam coordenadas. Se uma das cabeças decidia se mover para a direita, então o animal meio que ia pra direita, e então a outra cabeça podia tomar a decisão de se movimentar em outra direção. Elas enviam sinais para os músculos fazerem uma coisa ou outra simultaneamente. É por isso que elas geralmente não sobrevivem na natureza, porque elas não são coordenadas, e elas são presas fáceis para predadores como pássaros.

Eu não dissequei o espécime, mas a minha suposição é de que a única parte duplicada do animal eram os primeiros 40 milímetros das cabeças e do corpo. O corpo e a cauda eram só um. E certamente só existia um estômago.

A.P. Jason de Koning

Professor assistente dos departamentos de Bioquímica, Biologia Molecular e Genética Médica na Universidade de Calgary, biólogo computacional e evolucionista e co-autor de diversos estudos caracterizando os genomas das cobras.

De onde elas vêm?

Os humanos são fascinados com animais policefálicos (“de muitas cabeças”) por ao menos milhares de anos, sugerindo que exemplos desses animais podem ter sido conhecidos pela humanidade desde a antiguidade. Animais de duas cabeças são comuns nas mitologias Grega e Romana, onde eles foram tipicamente figurados como assustadores e demoníacos e associados com o mundo inferior. Nos “doze trabalhos” de Hércules, é dito que ele matou a Hidra de Lerna, uma serpente de muitas cabeças, e que ele capturou Cérberus, um cão de várias cabeças que protegia o portão de Hades.

Apesar da representação mitológica de animais policefálicos como assustadores e monstruosos, na verdade eles não são nada disso. Na verdade, eles são exemplos de gêmeos siameses na natureza, o resultado de geminação monozigótica (ou seja, gêmeos nascidos de um único ovo fertilizado). Em animais multicelulares, o desenvolvimento acontece pela contínua divisão de células individuais. Na geminação monozigótica, o zigoto se separa em dois embriões distintos logo no começo, que são clones que se desenvolvem separadamente. Se esse processo de divisão acontece apenas parcialmente, um gêmeo siamês pode nascer.

Isso é muito comum?

Em humanos, gêmeos siameses que sobrevivem após as primeiras 24 horas do nascimento são bem incomuns, ocorrendo por volta de uma vez a cada 1.000.000 de nascimentos. Gêmeos siameses com duas cabeças (dicefálicos parapagos) correspondem a cerca de 10% dos casos de gêmeos siameses ao todo, sendo assim bem mais raros. Em contraste aos humanos, não parece que existe muita informação sobre quão frequentemente animais de duas cabeças aparecem na natureza. Apesar de relatos dizerem que é mais comum em cobras do que qualquer outro grupo taxonômico, parece ser uma observação anedotal que pode ou não ser verdade.

Elas lutam entre si por comida?

Para uma pequena minoria de animais policefálicos que sobrevivem o bastante para serem observados por humanos, eles tipicamente têm dois cérebros funcionais que são capazes de controlar o mesmo corpo. Para um animal com duas mentes controlando o mesmo corpo, comer e reproduzir são dois desafios óbvios que trazem dificuldades significativas. De fato, cobras de duas cabeças em cativeiro foram observadas competindo pela mesma comida (apesar de ter um sistema digestório compartilhado) e já foram vistas tentando comer umas às outras. Nada bom.

Nós podemos “fazer” uma cobra de duas cabeças de propósito?

Você pode imaginar se seria possível criar mais cobras de duas cabeças. Geralmente, a resposta seria “não”, porque essas anomalias em desenvolvimento provavelmente não têm uma base genética. No entanto pode ser que existam alterações genéticas que possam aumentar as chances de gêmeos siameses. Por exemplo, em humanos, as diferentes populações parecem ter diferentes frequências de gêmeos siameses, e parece razoável presumir que essa variação tem base genética. Algumas famílias com taxas maiores de geminação monozigótica também são conhecidas pela medicina, sugerindo que os traços genéticos têm alguma influência. No entanto, a aparição de cobras de duas cabeças parece ser um acidente de desenvolvimento. Portanto, para a hipotética cria de uma cobra de duas cabeças também ter duas cabeças, o mesmo acidente precisa acontecer duas vezes. Já que esses acidentes parecem ser aleatórios, as chances de criar uma super-raça de cobras de duas cabeças são bem pequenas.

Gordon M. Burghardt

Professor de Psicologia e Ecologia e Biologia Evolucionária na Universidade do Tennessee, ex-diretor do Journal of Comparative Psychology

Cobras de duas cabeças parecem ser produtos de um acidente no começo do desenvolvimento embrionário. A descrição clássica delas é de um livro de Cunningham de 1937, que documenta as várias formas como a síndrome de duas cabeças se manifesta.

As cobras unidas têm diferentes personalidades?

Eu já tive diversas cobras de duas cabeças durante a minha carreira; a que mais viveu e que mais foi estudada foi a IM, uma Cobra Preta que viveu quase 20 anos. As duas cabeças estavam no mesmo corpo, mas pareciam ter personalidades ligeiramente diferentes e costumavam competir por comida e sobre como evitar obstáculos, apesar de a comida estar sempre indo para o mesmo estômago e corpo. Estudos experimentais de fome e saciedade, de 1993, levaram à impressionante descoberta de que, por mais que cada cabeça comesse prontamente, elas tinham preferências de tamanho de presa diferentes e pareciam chegar à saciedade independentemente. Essa descoberta intrigante foi resolvida quando descobrimos através de vídeos de raio-x de IM engolindo ratos que elas tinham estômagos separados! Esse parece ser o primeiro caso relatado e, de novo, mostra que animais de duas cabeças podem ser diversos, já que costumávamos presumir que somente a cabeça é duplicada, o que não é verdade.

Paul Andreadis

Herpetólogo da Universidade Andreadis

Pode só uma “cabeça” ficar com fome?

No casos das cobras de duas cabeças que costumam ser vistas nas mídias populares, geralmente são duas cabeças que se unem próximo ao pescoço, então há um corpo único depois da junção. Não se sabe quanta anatomia é compartilhada. Em outras palavras, as duas cabeças recebem informações sensoriais de todas as partes do corpo compartilhado? Na maioria dos casos, nós simplesmente não sabemos. Eventualmente, descobrimos através de raios-x que a cascavel tinha dois tratos digestivos dentro de um só corpo. Então talvez não seja surpresa que quando uma cabeça tinha se saciado, a outra geralmente ainda estava com fome.

Uma cobra de duas cabeças é na verdade duas cobras individuais?

Mas uma cobra de duas cabeças é um indivíduo ou dois? Já que as nossas emoções e personalidades únicas, e os nossos pensamentos de função cognitiva mais alta, são todos atributos de nossos cérebros, e já que as cobras de duas cabeças têm dois cérebros (embora geneticamente idênticos), na verdade são dois indivíduos. Considere a diferença de apetite entre as duas cabeças. A cabeça esquerda era uma comedora mais voraz, a cabeça direita era mais comedida. No entanto, elas eram gêmeas idênticas. Nós não temos um termo bom para um indivíduo, ou par de indivíduos desses, então no nosso trabalho original sobre o assunto, nos referimos à cobra como um único indivíduo. Mas dois cérebros, com dois níveis de apetite diferentes, juntos em um corpo? É um desafio e tanto definir o que é um indivíduo!