Era uma vez um mundo distante, onde apenas geeks patológicos e fissurados em audio visual se preocupavam com codecs e formatos de vídeos, além dos fãs de animês e a galera que download videos de forma não tão legal. Hoje em dia, mesmo os nerd de meio-período têm que lidar com eles, seja para mandar vídeos via wi-fi pela casa para seu AppleTV, seja para transferir para seu super celular modernoso, ou então tentando baixar o último episódio de Heroes que passou na TV americana ontem à noite (e ele só vai passar aqui daqui um ano…). É complicado e chato, mas estamos aqui para clarear as coisas. Vamos, lá. Respire fundo.

Você pode se lembrar da nossa discussão anterior sobre bitrates de vídeo, ou então quanta informação é armazenada dentro de um arquivo. Como uma regra geral, quanto mais bits por segundo, melhor qualidade de áudio e vídeo. A variável nisso é que – a outra parte da equação – como o conteúdo é comprimido e expandido. As melhores técnicas de compressão – a arte zen de saber qual dado a ser tirado para fazer um pedaço de informação ficar menor – faz com que a qualidade de vídeo fique melhor enquanto ocupa menos espaço no disco rígido. Basicamente, a parte que você precisa entender é que os codecs são os programas que fazem toda essa mágica acontecer.

Padrões de padrões

  • H.261 não é um termo que você deve se preocupar, mas é a tecnologia que foi a origem da maioria dos vídeos e codecs padrões. Originalmente criado em 1990, é o primeiro grande padrão de compressão de vídeo digital, e como os outros padrões "H", foi desenvolvido pela União Internacional de Telecomunicação. Este foi inicialmente criado para teleconferência via linhas ISDN, e como tal, a qualidade é uma porcaria.
     
  • MPEG-1 Part 2 é outro das antigas, desenvolvido pela Movie Picture Experts Group e aprovado em 1991. (Aproveitando, o lance de "Parte" é porque video é apenas uma "parte" de cada padrão MPEG.) Baseado no H.261, MPEG-1 foi planejado para pegar a qualidade de vídeo VHS e comprimir a um bit rate de aproximadamente 1.5Mbps, optimizado para transferir vídeos para CD. Sem surpresa, é O padrão usado para todos os VCDs (que pode ser tocado em quase todos os DVD players), mas não é um padrão que você verá com freqüência por aí hoje em dia.
     
  • Com o MPEG-2 Part 2, aprovado em 1994, nós finalmente estamos falando de uma qualidade de vídeo decente. Também conhecido como H.262, desde que foi desenvolvido conjuntamente pela ITU-T e ISO, MPEG-2 é uma extensão do MPEG-1, que oferece melhor resolução de vídeo e bit rates mais altos (3-15Mbps para definição padrão e  15-30Mbps para HD, apesar da especificação permitir até 100Mbps). É o codec de vídeo usado pelos DVDs e pela TV digital, apesar de estar sendo lentamente substituído pelo mais eficiente MPEG-4, exceto em DVDs, onde vai continuar sendo o padrão enquanto esses discos existirem.
     
  • H.263 é projetado para enviar vídeos por conexões porcarias. Por isso, é usado para codificar a maioria dos vídeos Flash e enviá-los por redes de celulares.
     
  • MPEG-4 é onde estamos agora. Tem um escopo muito maior que as versões anteriores do padrão MPEG, mirando desde os vídeos de menor qualidade (as redes porcarias de celulares ou redes lentas) e de alta qualidade (Blu-ray). Ainda está em desenvolvimento, é aí que a porca torce o rabo. Têm duas partes relevantes do padrão MPEG-4, no vídeo: Há a Parte 2. E há a Parte 10 – que também é conhecido como H.264 ou Advanced Video Coding (AVC, ou traduzindo livremente, codificação avançada de vídeo). Para ser bem claro, mesmo que ambos sejam partes do padrão MPEG-4, são formatos totalmente diferentes. Mesmo assim, ambos são mais eficientes em termos de compressão que as versões anteriores de codecs MPEG, oferecendo melhor qualidade de imagem usando menos espaço em disco.
     
  • Okay, se você alguma vez baixou torrents, você já deve ter assistido a uma pá de vídeos que usam o formato MPEG-4 Part 2, mesmo que o site não faça propaganda clara disso. MPEG-4 Parte 2 na verdade tem "perfis" diferentes – os dois que importam são o Perfil Simples, para bitrate baixo, para as paradas de baixa qualidade, e o Perfil Avançado Simples. Esse último perfil é o que está sendo usado para filmes que você baixa nos formatos DivX ou XviD ou 3ivx – sendo que todos os codecs praticamente só diferem na forma que implementam o padrão do MPEG-4 Parte 2.
     
  • MPEG-4 Part 10, a outra parte, era na verdade co-desenvolvida pela MPEG e a ITU-T, por isso também é conhecida como – de fato, mais conhecida – H.264. É mais eficiente que o MPEG-2 e o MPEG-4 Part 2, oferecendo a mesma qualidade de vídeo em um pouco menos que a metade do espaço em disco, fazendo a alegria tanto para a baixa quanto alta qualidade. Por causa disso, está virando o padrão dos padrões. É parte das especificações do Blu-ray e do (finado) HD DVD, substituindo MPEG-2 na TV digital americana (como nos serviços via satélite e na IPTV) e adotada pela grande maioria de vídeo players portáteis no planeta, do iPod ao PSP. A Apple tem um FAQ decente (com alguns fru-frus) sobre o H.264.
     
  • VC-1 é essencialmente a versão desenvolvida pela Microsoft para servir de alternativa ao H.264, lançada como um padrão pela Society of Motion Pictures and Television Engineers, mesmo que seja descendente da família do H.26X/MPEG. (Ele começou a vida essencialmente como o WMV9, mas então a Microsoft vendeu o peixe para a SMPTE como uma possibilidade de padrão da indústria e voilá, assim ficou.) Ele também é parte obrigatória das especificações do Blu-ray e HD DVD e é o codec oficial do Xbox 360. Seu apelo é o mesmo do H.264 – tentar oferecer a melhor qualidade ocupando menos espaço, por exemplo, em vídeos de alta definição em 6-8Mbps.

Codecs livres

Tudo bem, então tudo isso aí são os padrões amplos da indústria em termos de codecs. Além de tudo isso, várias entidades que adoram colocar o seu dedo nesses padrões. Como falamos acima, DivX (proprietário) e XviD (open source), por exemplo, usam compressão MPEG-4 Parte 2 (mais especificamente, MPEG-4 ASP), querendo dizer que nativamente qualquer coisa que tocar MPEG-4 ASP também será capaz de reproduzir XviD. Como no Xbox 360, por exemplo. Tem uma pá de codecs baseados em MPEG-4 ASP, como o FFmpeg, 3ivx e outros mas o DivX e XviD são os mais comuns. A mesma coisa com o H.264: Alguns codecs conhecidos que o usam são o Quicktime H.264 da Apple, x264 e Nero Digital. Você também encontra os codecs do Windows Media Video, que são as versões tunadas nos padrões da indústria.

Contaiers – vulgo Wrappers

Você provavelmente já está se questionando porque nenhum dos seus arquivos de vídeos tem extensão .h264 ou vc1 ou qualquer outra das que falamos acima. Isso porque os vídeos são empacotados em containers ou wrappers (traduzindo livremente como recipientes ou embalagens), que juntam coisas como áudio, informação de navegação e etc com o vídeo, em apenas um arquivo. Naturalmente, existem muitos wrappers por aí, assim como existem muitos codecs. Para ser mais claro, você poderia pegar um vídeo codificado em, vamos dizer, H.264 e embalá-lo como um arquivo mp4 ou avi.

Os maiores são:

Bem, para tocar um arquivo de vídeo, você precisa configurar sua máquina/software para que seja capaz de lidar com o formato não só do vídeo em si mas com o do container. É por isso que você pode tentar tocar um AVI e o Media Player engasgar, mesmo que você acabou de tocar outro AVI um minuto antes e não deu problema – o container não gera stress, mas o codec é diferente. Por outro lado, o iPod pode tocar um vídeo codificado em H.264, mas se este estiver "embalado" em um arquivo MKV, babáus, não vai funcionar.

Essa sopa de letrinhas pode ser meio confusa, mas pelo menos agora você já tem uma idéia de como funcionam essas codificações de vídeos desse mundo louco. Se quiserem saber mais detalhes de cada padrão, é só visitar a Wikipedia (lá tem coisa suficiente sobre isso pra deixar qualquer geek patológico feliz) ou então ir ao site Doom9, que é uma ótima fonte de informações para vídeos digitais.