Desde que o Google se transformou numa nova empresa chamada Alphabet no ano passado, aparentemente tem acontecido um banho de sangue entre os chamados projetos moonshot – ideias super audaciosas que podem ser consideradas frutos da ficção científica. Essas iniciativas de longo prazo e alto riso começaram a passar por uma análise, que conferiu quanto dinheiro está sendo gasto. E o resultado não foi muito bom. Desde então, a Alphabet tem cancelado sistematicamente muitos desses projetos.

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A última vítima

O Project Titan, programa de drones que o Google pensou que seria capaz de oferecer internet em diversas regiões utilizando aeronaves movidas à energia solar, está sendo oficialmente cancelado. Como foi noticiado pelo 9to5 Google e depois confirmado pelo Gizmodo, o time do Titan foi desativado, e mais de 50 engenheiros demitidos. A companhia anunciou a novidade em um comunicado.

O time do Titan foi trazido para o X (Google X Lab é o setor de inovações da empresa) no final de 2015. Nós encerramos nossa exploração de VANTs em altitudes elevadas para oferecer acesso à internet pouco depois. Para efeitos de comparação, o estágio econômico e técnico de viabilidade do Project Loon apresenta um caminho muito mais promissor de conectar regiões remotas e rurais do mundo. Muitas pessoas da equipe do Titan agora estão usando sua experiência em outros projetos no X, incluindo o Loon e Project Wing.

A notícia não deve surpreender ninguém que tem acompanhado a reestruturação da Alphabet. De acordo com os últimos relatórios de receitas, as “outras apostas” da companhia, que incluem todos os projetos moonshot, tiveram um prejuízo operacional de US$ 865 milhões no terceiro trimestre. A empresa não separa os custos operacionais de cada projeto, mas dá para afirmar com segurança que a pesquisa e desenvolvimento de um drone que oferece internet pelo céus não são baratos.

O programa de drone de internet da Alphabet tem enfrentado escrutínio desde abril de 2014, quando o Google adquiriu a startup Titan Aerospace por um valor não revelado. Em maio de 2015, durante um dos seus primeiros testes de voo, um protótipo do drone movido por energia solar quebrou no local de testes no Novo México.

Um relatório da National Transportation Safety Board (NTSB) publicado um ano depois declarou que “a aeronave começou um percurso do voo incontrolável e irregular seguido de um rápido declínio” por causa de uma falha na asa. O drone supostamente tinha uma asa de 49 metros, quase o mesmo tamanho da asa de um Boeing 747 que possui 59 metros. Levando isso em consideração, você consegue imaginar como foi a cena do acidente.

titan-aerospcaceTitan Aerospace, startup de drones, comprada pelo Google em 2014. (Imagem: Titan Aerospace).

Enquanto a ideia de drones entregadores-de-internet seja animadora para qualquer um que ama ciência e tecnologia, a realidade econômica desse sonho é difícil de ser ignorada. O recuo do Google pode ter um grande impacto em outras grandes empresas que investiram nessa corrida espacial da conexão com a internet – o Facebook, no caso, que construiu seu próprio drone capaz de fornecer conexão.

O Aquila do Facebook, que também seria capaz de enviar internet do céu, se acidentou em junho de 2016 durante o seu primeiro teste de voo. De acordo com o relatório da National Transportation Safety Board, o drone sofreu uma “falha estrutural” enquanto se preparava para pousar. O incidente foi classificado como um “acidente” pela NTSB que resultou em um dano “substancial” para a aeronave. Acontece que construir conceitos que vieram direto de livros de ficção científica é bem difícil.

O fracasso do Project Titan da Alphabet é apenas o último lembrete de que os projetos moonshot são difíceis de serem realizados, mesmo com os melhores engenheiros do mundo. Os investidores da empresa certamente perceberam isso, e é o motivo pelo qual alguns dos moonshot estão sendo eliminados.

Outros moonshot eliminados

Em dezembro de 2016, o site The Information noticiou que a Alphabet estava “reduzindo” o projeto do seu carro autônomo – outro moonshot amplamente divulgado e e sobre o qual entusiastas tinham grandes esperanças. De acordo com a reportagem, a Alphabet “estabeleceu uma iniciativa mais prática de fechar parcerias com montadoras”. A empresa lançou o Waymo em dezembro do ano passado, com o objetivo de competir de forma mais agressiva com os fortes concorrentes como o Uber, que já possuem frotas de carros que se dirigem sozinhos nas ruas.

waymoImagem: AP.

Outro moonshot eliminado pela Alphabet foi o Project Ara, o celular modular, em setembro do ano passado. O Project Ara é um dos principais programas do venerado grupo Advanced Technology and Projects (ATAP), que o Google herdou da Motorola. O objetivo do projeto era construir um celular com partes intercambiáveis para reduzir o lixo eletrônico e prolongar a vida útil de smartphones. A companhia chegou a promover um cronograma para o início das vendas para o público em 2017 durante a Google I/O, sua conferência para desenvolvedores, meses antes de acabar impiedosamente com o projeto

“É decepcionante para as equipes que trabalharam tão duro para tornar o projeto realidade, desencorajador para os desenvolvedores que esperavam trazer inovações e frustrante para os fãs do mundo todo que estavam ansiosos para ter o Ara em suas mãos”, disse o criador do Ara, Dan Makoski, numa reportagem do 9to5Google logo depois do anúncio. A citação indica o quão marginalizados ficam os engenheiros durante esse tipo de decisão.

A Alphabet supostamente teria decidido colocar a Boston Dynamics – companhia que desenvolve aqueles robôs assustadores como o BigDog e Atlas – à venda. Eles compraram a empresa em 2013. De acordo com a reportagem da Bloomberg de março de 2016, executivos focados em assegurar que todas as empresas do portfólio sejam capazes de gerar receita “concluíram que a Boston Dynamics não deve produzir um produto comercializável dentro dos próximos anos”. Em junho de 2016, o Nikkei Asian Review noticiou que a Toyota estava “acertando detalhes” para adquirir a divisão robótica da Alphabet.

E também tem o Google Fiber, um produto que supostamente vende algo que todo mundo quer – internet super rápida. Em outubro, a Alphabet anunciou que eles iriam “pausar” as operações do Fiber em dez cidades. O anúncio usou uma linguagem similar aos comunicados sobre a descontinuação do Project Ara e outros projetos moonshot. Nesse caso, os engenheiros pelo menos receberam um aviso, quando o CEO Larry Page enviou recomendações ao líder do Google Fiber, Craig Barrat, pedindo para cortar o número de funcionários pela metade.

Fim da linha?

Não são muitos os moonshot que sobraram. Ainda existem projetos ambiciosos como as lentes de contato inteligentes (que está sendo desenvolvida por uma companhia chamada Verily), ou o projeto de extensão da vida (da companhia chamada Calico). Ainda assim, Google Fiber, Project Ara, Project Titan e os carros autônomos da companhia são projetos audaciosos que representavam o espírito empreendedor que a companhia adotou por muito tempo – e que os fãs de tecnologia amavam.

Pode ser apenas parte do amadurecimento do Google – er, Alphabet – não apostar em ideias moonshot publicamente daqui em diante. Teremos que esperar para ver. É muito cedo para declarar que os moonshot estão mortos por completo. Afinal, a companhia continua gastando bilhões de dólares em projetos que não geram nenhuma grana.

Esperamos que a empresa continue sonhando alto.

Imagem do topo: AP.