“Eu não consigo ver nada”. “Calma, ajusta o visor para cá… Não, não fecha o outro olho!”. “Foi. Agora foi”.

Dois minutos após ajustar de um lado para o outro a pequena tela, hora de se acostumar a olhar para o canto. Hora de jogar os olhos para um lado e colocar as mãos no Google Glass, um pedaço do futuro imaginado pelo Google, agora materializado em um aparelho palpável, real.

A melhor forma de contar como é a experiência de usar o Google Glass é passar por todas as fases do processo, e todos os sentimentos que ela suscita – desde o momento que o aparelho saiu de sua caixa.

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Quando o Google Glass entrou na redação da F451, nas mãos de Breno Masi, da OnOffRe, e foi colocado em cima da mesa, algo ficou claro: o Google anda mais preocupado do que nunca com design. Seja de seus apps, seja de seus sites, seja de seu par de óculos. O Glass, mesmo sendo um aparelho completamente voltado para desenvolvedores por enquanto, tem bom acabamento e construção. Há uma ótima escolha de linhas curvas e um formato claramente inspirado em Star Trek. Tudo isso à distância.

Inicialmente, o Google proibia que donos do Glass o emprestassem para outra pessoa. Felizmente, os termos de serviço não possuem mais essa restrição: só é proibido revender, alugar ou dar permanentemente o aparelho para outra pessoa – deixar amigos experimentá-lo não é problema. Mesmo assim, o Glass não gosta de muitas pessoas o usando. Depois de um round completo de “nossa, deixa eu ver isso”, ao voltar para o rosto do Breno, uma mensagem do Google indicava que “cinco pessoas não identificadas” usaram o aparelho, e que para isso era preciso usar o Guest Mode. Nele, não é possível usar nenhum app e o uso é extremamente limitado — só pode ser usado, inclusive, dez vezes em um dia. Decidimos usá-lo sem o Guest Mode, mesmo com a reclamação.

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Há algo de estranho ao segurar o Glass. Ele parece ser feito de materiais pesados, mas é mais leve do que eu esperava. Como era de se esperar, ele é mais pesado de um lado: um deles, o esquerdo, é apenas uma haste fina e arredondada, com a única função de equilíbrio no rosto. Já o lado direito é onde tudo se concentra: uma longa listra de plástico esconde todos os circuitos do Glass. Na frente, a câmera é o último marco antes do prisma, o projetor que faz com que seus olhos rolem para cima como nunca.

Após uma rápida demonstração do Breno sobre como ele vem usando o aparelho — ele está com o Glass faz uma semana –, coloco o aparelho na cara pela primeira vez. Não vejo nada no canto. Fecho o olho esquerdo para ver se estou com algum problema, mas não há nada. É neste momento em que a conversa inicial deste post acontece — e não se esqueça: fechar um olho para ver o Glass é pedir para uma vista cansada instantaneamente. Depois de alguns pequenos ajustes, ela está lá, no canto dos meus olhos. A tela.

A nova tela

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O projetor do Glass consegue criar imagens de cerca de 640×360 pixels (o Google não confirma o número). Isso significa que ela tem resolução suficiente para você ler boa parte do conteúdo que aparece na tela, na distância mínima que o Glass propõe. Ligar o aparelho pode ser feito com um toque na sua lateral sensível — mais sobre ela em breve — ou movendo a cabeça de cima para baixo em 30 graus (o número de graus pode ser regulado).

E, depois do passeio pelo hardware, chego ao local onde todo os planos do Google se concentram. O Glass liga exibindo o horário em uma tela escura. A fonte é bonita. É o novo Google, presente também no ótimo redesign do Android e dos apps para iOS. A escolha por telas escuras nas primeiras interações faz todo o sentido: os primeiros momentos com o Glass são aflitivos. Você não sabe ao certo para onde olhar, quais movimentos fazer ou o que falar. É algo completamente novo, absurdamente diferente de usar um app revolucionário ou um notebook híbrido. É a primeira vez que meus olhos se esforçam assim por um gadget.

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Mas a curva de aprendizado com o Glass é simples e sem muitos mistérios. Isso acontece graças a uma mistura muito bem feita de design dentro da tela e dos gestos utilizados na lateral do aparelho. Eu demorei um pouco para me acostumar com os movimentos — desliguei o aparelho incontáveis vezes sem necessidade — mas como as opções são poucas, você rapidamente se acostuma: um gesto de cima para baixo fecha os aplicativos; um toque exibe as opções do app ou seleciona um item; e um movimento de deslize por todo o corpo lateral navega pelos menus.

A combinação de olhos na pequena imagem e gestos na lateral funciona bem, mas o terceiro elemento de uso do Glass o deixa mais prático — e um pouco mais assustador: a voz. Desde a primeira tela, o Glass já exibe um “ok, glass” entre aspas, sugerindo que você use o comando. Daí para frente, há uma série de opções pré-programadas pelo Google: pesquisar na web, tirar uma foto, fazer um vídeo, ver direções no mapa, enviar uma mensagem ou começar um hangout. (Este GIF do Verge resume bem como é esta tela.)

“Ok Glass, take a picture”. A câmera é muito rápida. De repente, um thumb aparece nos seus olhos. A qualidade da imagem de 5MP, na telinha do Glass, já mostra sinais de ser melhor do que eu esperava (como você pode conferir abaixo). E assim, poucos minutos depois de começar a usar o Glass, já surge o primeiro questionamento envolvendo privacidade. O Glass emite um pequeno som toda a vez que tira uma foto, e você não pode removê-lo. É a forma que o Google encontrou, por enquanto, para diminuir o abuso da câmera veloz e simples. Me parece pouco. O som é alto para quem está com o Glass, mas num ônibus ou metrô barulhento, ninguém ouvirá o rápido efeito sonoro. Para completar, há um botão no topo que funciona como disparador. Tirar fotos ou fazer vídeos no modo gaiato será mais fácil do que nunca.

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Digo, se o Google Glass realmente pegar. Porque por enquanto estamos falando de um aparelho com pouco menos de 2 mil unidades distribuídas para desenvolvedores — e creio que menos de uma dúzia deles estão no Brasil. Isso significa que por um bom tempo, usar o Glass por aí será sinônimo de “ser o estranho”. A facilidade em passar desapercebido só acontecerá se esse formato se popularizar, e se designs industriais menos chamativos forem criados.

Entenda desde já: é muito difícil não parecer um alienígena, ou até mesmo um nerd estranho com o Google Glass na cara. Colocamos o aparelho em diversos rostos e não há como não chamar atenção com ele. E o Breno só confirmou o que eu imaginava: hoje, usar o Glass é pior para quem o usa quando o assunto é privacidade. Ninguém irá parar de olhar para você. Por fim, além de parecer um robô, você provavelmente andará como um robô nos primeiros dias em que usar o Glass: quando o Daniel Junqueira, nosso repórter, colocou o aparelho no rosto, ele estufou o peito e deixou os ombros arqueados. “Você está andando como um robô”, eu disse, para depois constatar que eu estava fazendo o mesmo: talvez por saber que você precisa olhar de forma diferente e posicionar seu rosto de forma diferente, todo o corpo se modifica e faz com que você parece o menos terráqueo possível.

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Voltando às opções: devido ao horário, e como o Glass estava configurado na conta do Breno, não pude usar muito o sistema de direções, nem enviar uma mensagem, nem fazer um hangout. Segundo Breno, as direções são um pouco complicadas porque o Glass só entende inglês, e é preciso falar o nome das ruas com sotaque americano. Fizemos alguns vídeos rápidos, com resolução de 720p, e o resultado é assim:

[youtube NytrnNU68Kc 640 360]

Saindo do mundo Google, os apps do Glass ainda são extremamente simples. O Twitter permite que você leia a timeline, passando o dedo pelo Glass para percorrer a timeline. É possível responder, favoritar e retuitar. E responder tuítes. Está faltando algo, certo? É, não dá para criar um tuíte do nada. Você pode até compartilhar uma foto, mas não há a opção de compor tuíte por voz, por exemplo. Bizarro. O Facebook consegue ser ainda mais minimalista: ele é apenas uma ferramenta de compartilhamento de fotos. Você escolhe o grau de privacidade — público, para amigos, para uma lista específica — e fim.

Por fim, testei o app da CNN. O app com mais texto na tela, o app com vídeos. E dá para entender o motivo do minimalismo das redes sociais: é muito difícil lidar com um apanhado um pouco maior de informações no Glass. Quatro linhas de texto se transformam em algo sofrível para ler, mesmo com a boa fonte escolhida. Com um toque para o lado você chega ao vídeo da matéria (caso ela tenha) e aí a coisa fica maluca de vez: viver o mundo ao redor e assistir um vídeo minúsculo nos olhos é algo bem, bem surreal. Enquanto eu editava as fotos para esse post (tiradas pelo sempre exímio Pedro Hassan), reparei que em uma delas, a última da série, eu estou com um olhar perdido:

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Eu não costumo ter essa cara perdida. Acho até que estou meio vesgo. Eis o que acontecia naquele momento: eu estou tentando conversar com uma pessoa que estava na minha frente e ao mesmo tempo uma notícia da CNN estava aberta. Isso é surreal. Porque é difícil decidir para onde olhar. É difícil saber o que fazer. É difícil, por fim, escolher o que absorver e o que deixar passar no Glass. E esse é, hoje, seu principal defeito.

Esqueça a privacidade. O problema é a ansiedade

Como falei logo acima, o Glass ainda não é um problema de privacidade. Ele tem altíssimo potencial para tal, mas falemos do que ele é hoje para qualquer pessoa que o use: uma nova tela. Mais uma tela. E essa tela, em essência, está ali no canto do seu olho aumentando ainda mais nossa ansiedade tecnológica.

Vivemos os primeiros anos da discussão sobre os efeitos que o excesso de tecnologia causarão em nós. É cedo para cravar o que acontecerá com as próximas gerações, mas há mais e mais documentos, estudos e livros discutindo o quão ansiosa e frenética nossa geração é. Há muita informação. Há muitos meios de obtê-las. Há muitas telas. Há muitas notificações.

Eu odeio notificações. Elas destroem qualquer noção de foco e de manutenção de pensamento contínuo, e eu faço questão de desabilitá-las em todos os meus aparelhos — apenas mensagens e ligações encontram espaço na minha tela de bloqueio. Pelo tempo em que usei smartphones com notificações ligadas por todos os lados, eu fui uma pessoa mais agitada, impaciente, com a síndrome de ligar a tela do celular a todo instante. E eu acho que ninguém gosta de ser assim.

E o Glass adora notificações. Breno me conta que elas não o incomodam tanto, mas podemos dizer que ele usou um cheat: não configurou nenhum dos seus emails principais no Glass, criando uma conta específica para ele. Essa talvez seja a única forma de não ser devorado pelo aparelho. Eu recebo mais de cem emails por dia. E o Glass não permite que você desligue as notificações. Twitter, Gmail, notícias da CNN: todo tipo de notificação disputa espaço na sua cara.

Sim, o Google recomenda aos desenvolvedores que “não atrapalhem o usuário”: uma das diretrizes para os apps é não emitir notificações em excesso, e nem chamativas demais. No entanto, mais apps virão, e mais apps buscarão espaço – e mais da sua atenção. Apps focados na compra por impulso — imagine um app da Amazon que reconhece uma roupa e já lhe oferece a opção de compra? Parece extremamente futurista, claro, mas extremamente perigoso também. Eu não acho que precisamos disso.

Mas o que fazer com o Glass?

Ok, você aceita sacrificar parte da sua sanidade com mais uma penca de notificações. Sem problemas, mas o que você receberá em troca? Essa é hoje a principal questão em torno do Glass: em sua versão Explorer Edition, para desenvolvedores, ele não oferece nada que você não possa fazer com outros aparelhos, e de forma menos complexa. Não há motivos para responder um tuíte pelo Glass — a resposta é feita por voz, e ele não corrige erros. Não há motivos para ler notícias nele — você está cercado de telas durante todo o dia, com resoluções melhores e maior facilidade de leitura. Hoje, o Glass é um aparelho de compartilhamento de fotos e vídeos tiradas por ele mesmo.

Claro, “isso é só o começo”. Ouviremos isso muito sobre o Glass, e faz sentido se pensarmos que os 2 mil aparelhos distribuídos (junto com um developer kit) foram criados exatamente para que desenvolvedores explorem seu potencial.

Mas qual é o potencial do Glass? Eu consigo vê-lo sendo extremamente apelativo para os empolgados do Vale do Silício, para fanáticos por tecnologia e para desenvolvedores. Mas não consigo vislumbrá-lo sendo usado por muitas pessoas comuns em situações cotidianas. Pense em quantos lugares o Glass provavelmente não poderá entrar — escolas (colar?), cinemas (gravar?), cafés (fotografar?). Seu uso no mundo real, e não no utópico e divertido mundo da alta tecnologia, será complexo e precisará de discussões que envolvem moral, filosofia e outros conceitos que costumamos deixar de lado quando discutimos gadgets. Hoje, o Glass é uma ferramenta interessante para entender o que o Google entende como futuro. Resta agora discutirmos se esse é realmente o futuro que queremos.

Grande agradecimento a Breno Masi, da OnOffRe, pelo empréstimo do Glass; valeu Breno! Todas as fotos por Pedro Hassan, o popular “Peruka”.