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Apenas uma pergunta, Google: por quê?

A web acordou em luto com a notícia, divulgada ontem à noite, do fim do Google Reader. A partir de 1º de julho, daqui a menos de quatro meses, o agregador de feeds do Google será desativado. Por quê? Tanta gente usa, por que mesmo assim o Google fará isso? É difícil responder, mas temos […]

O fim está próximo para o Google Reader.

A web acordou em luto com a notícia, divulgada ontem à noite, do fim do Google Reader. A partir de 1º de julho, daqui a menos de quatro meses, o agregador de feeds do Google será desativado. Por quê? Tanta gente usa, por que mesmo assim o Google fará isso? É difícil responder, mas temos algumas hipóteses.

Google Reader, o eterno marginal

O Reader surgiu numa época onde o Google raramente errava e estava engajado em uma corrida desenfreada para ocupar todos os espaços possíveis na web. Mat Honan traçou o histórico do serviço que, como ele aponta, começou como um projeto paralelo no Blogger, transformou-se em projeto experimental sob as asas do (finado) Labs e, em 2007, dois anos depois de aparecer para o mundo, ganhou o status de produto finalizado.

Isso talvez o surpreenda, mas ele era bem ruim no começo, usando uma metáfora esquisita e pouco prática de “rolo” na lista de feeds muito antes dela se firmar (e melhorar) nas interfaces sensíveis a toques. Levou um tempo até o Bloglines ser ultrapassado, mas quando isso aconteceu, foi de uma maneira agressiva, irreversível. O Google Reader tornou-se sinônimo de feeds.

É só mais um… ou não

Na época em que o Google Reader surgiu, outras soluções similares já existiam. Do já citado Bloglines a outros menos conhecidos, como Rojo e NewsGator, não é como se os usuários estivessem presos ao produto do Google. Pelo menos não naquela época.

Constatar e reconhecer isso mostra que o sucesso do Reader não foi por acaso. Com o passar do tempo ele se transformou algo bom. Muito bom. Talvez bom até demais. O Google, que sempre lutou para emplacar redes e elementos sociais em seus produtos, talvez tenha tido no Reader a sua melhor rede social. O sistema de compartilhamento, existente até o último redesign, era divertido, funcional. Amado pelos usuários. (Lembra do Occupy Google Reader?) Aliado a um layout leve, fácil de assimilar e à estrutura super robusta do Google, tínhamos um serviço que, se não perfeito, não deixava nada a desejar.

Mas não é só enquanto produto que o Reader ganhou espaço. Em um universo que oferece um número até bom de produtos parecidos, os que se destacam, especialmente os apps móveis que lidam com informação extraída de sites, dependem do Reader como back-end para fazer esse meio de campo. Feedly, Reeder, Flipboard, todos esses e muitos outros usam (por enquanto) o Reader para sincronizar as suas assinaturas e status de leitura. Morre o Reader produto, morre o Reader “engenhoca dos bastidores que faz outros apps funcionar”.

Por quê?

Talvez Larry Page saiba, mas a nós é difícil apontar com certeza a motivação que levou o Google a acabar com o Reader. Uma coisa é certa: não foi um movimento inesperado.

O Google Reader sempre foi um produto marginal, usado por gente com alguma experiência em web, mas sem muito destaque na mídia mainstream. Você imagina, talvez até presencie seus pais ou avós usando o Gmail, Facebook ou Skype, mas o Reader já exige um pouco de abstração, um quase devaneio. Hoje, em 2013, ainda tem muita gente que não sabe o que é feed ou RSS. Culpa delas? Acho que não. A boa tecnologia não é complicada, não se explica, ela se apresenta funcional ou, aos olhos do leigo, “mágica”. No mínimo atraente. Nunca foi o caso do RSS e, não me entenda mal, isso não afeta a qualidade ou utilidade da ferramenta. Não sei qual é a barreira, mas alguma existe para explicar o confinamento do RSS no grupo dos produtos de nicho.

No Quora, Brian Shih, ex-gerente de produtos do Google Reader, comentou o fim do serviço. Segundo ele o problema não foi dinheiro — o objetivo do serviço nunca foi gerar faturamento diretamente. Ele diz, ainda, que desde a sua concepção o Reader luta para sobreviver e que, antes do fim, em outras três oportunidades ele quase bateu as botas: em 2008, 2009 e 2010. O objetivo era levar o time responsável para outros produtos: OpenSocial, Buzz e Google+, respectivamente. Notou o padrão? Todos esses foram esforços sociais do Google.

Isso dá uma boa pista acerca da falta de interesse da empresa. Deve ser meio frustrante tentar emplacar uma rede social enquanto um produto interno, menor, sem o orçamento ou a atenção que o novo tem, se excede nessa função. Tal relação indigesta ocorria entre Reader e Google+. O desastroso redesign de 2011 foi uma tentativa bastante infeliz de canalizar a força social do Reader para o então novo Google+. Como diz Shih, as ferramentas sociais do Reader eram desenvolvidas organicamente, em resposta aos usuários, bem diferente da imposição “de cima pra baixo” que é o Google+ e que, como nos mostra a realidade, dificilmente funciona.

Combalido, sem funcionar para o que a sua dona queria (leia-se: levar conteúdo e tráfego ao Google+) e sendo muito usado como back-end para aplicações de terceiros, não havia muito apelo para o Google manter o Reader que não o bem estar dos usuários. Seria o suficiente se aquele papo de “Don’t be evil” fosse mais que um slogan positivo para conquistar a simpatia dos usuários. O Google não precisa mais disso, ele já é grande. Fechar as portas do Reader foi apenas mais uma decisão de negócios.

Qual a saída?

Ontem, no calor do anúncio, testemunhei várias pessoas indignadas não só com o Google, mas com os usuários “dependentes”. Dave Winer foi enfático: “Da próxima vez, por favor pague um preço justo pelo serviço do qual você depende. Esses têm mais chance de sobreviver a bolhas”. O ponto é: nunca nos deram a chance de pagar pelo Reader, e não é do feitio do Google cobrar pelos seus serviços.

Esse ponto, aliás, me parece vencido. Pagamos o Google (e, para não ficar em um exemplo, o Facebook) com atenção e dados pessoais. É ruim? Em certos aspectos, sim. O receio a respeito da privacidade é válido, mas o serviço é tão bom que, vá lá, a gente aceita. Se cobrassem pelo Reader em dinheiro, eu e muitos outros pagaríamos. Mas, novamente, talvez sequer seja do interesse do Google receber moedas dos usuários. A empresa tem a fama de não cobrar diretamente e funciona muito bem assim; qualquer coisa fora disso é rara e, quando acontece, é para liberar recursos extras (mais espaço no Drive, por exemplo), não o acesso à base dos seus serviços.

O fim do Reader não é imediato: ele fica no ar até 1º de julho. Ontem mesmo, instantes depois do anúncio, apps e sites que dependem dele correram para anunciar que o futuro estava garantido. Feedly e Reeder disseram que os usuários não perderão nada com a mudança. O NewsBlur, open source, com modelo de assinatura e apps móveis, ganhou bastante destaque e uma sobrecarga em seus servidores. Outros apps e sites que têm essa dependência provavelmente encontrarão saídas. Marco Arment, o primeiro funcionário do Tumblr e criador do Instapaper e The Magazine, acredita que o fim do Google Reader é uma boa notícia, do tipo que fomentará um segmento que há muito estagnou por falta de concorrência e inovação. Ele também alerta que o período de transição, até que as novas soluções fiquem maduras, será doloroso, mas que no fim o saldo será positivo.

De fato existirá um período de transição complicado. Embora sites e apps tenham se apressado para dizer o contrário, nenhum deles pode, no momento, oferecer a onipresença e a compatibilidade extrema que o Google oferece. Pegue o meu workflow, por exemplo: acesso o Google Reader web no computador; no smartphone, leio feeds usando o Press; no iPad, a minha escolha é o Mr. Reader. Três apps distintos, de gente que não se conhece, mas que tinham um ponto comum que me permitia transitar entre eles sem problemas. Quando teremos algo assim? Difícil estimar.

Há esperança. De tudo que apareceu ontem, isto aqui é bastante promissor. O Reader enquanto produto não é tão importante — existe um punhado de alterantivas sólidas a ele e, sejamos sinceros, boa parte do seu valor se perdeu quando o Google removeu o sistema de compartilhamento, sem falar no novo layout horrendo. A ausência a ser sentida será a do Reader back-end. Problema? Criar um padrão. Só de projetos iniciados no Github apareceram uns cinco links na minha timeline do Twitter ontem. Unir esforços, abdicar do ego, trabalhar em conjunto é, às vezes, um obstáculo grande. Eventualmente tudo se ajeita, mas o período de transição, como alertou Arment, será conturbado.

Muita gente pulou para outras formas de consumir informação na web, o que indiretamente também afetou o Google Reader. Pessoas mais novas já nasceram nesse novo mundo onde Twitter e Facebook fazem as vezes de “agregadores”. Velhos hábitos são difíceis de matar e por mais que você se adapte bem às listas do Twitter para acompanhar atualizações de sites, não é a mesma coisa. A choradeira de ontem mostra que há, sim, espaço para agregadores de feeds. Ontem o Google abdicou de uma posição privilegiada. Tudo bem, eles querem focar em menos produtos (e isso é ótimo) e, nessa conjuntura, sob essa ótica, o Reader não era tão vital a ponto de se justificar. Perde-se aqui, abre-se uma grande oportunidade à nossa frente. Quem a aproveitará? Não sei, mas confio que ela não será perdida.

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