Ao que parece, finalmente teremos um tablet mais vendido que o iPad nos EUA, ao menos por este fim de semana. O TouchPad da HP, abandonado pela empresa, está sendo vendido (e criando filas em lojas, segundo algumas reportagens) a US$ 99. Por menos de R$ 200, menos que qualquer tablet xing-ling, é óbvio que vale à pena. A lição que a HP e os concorrentes do iPad têm a aprender com esta história maluca dos últimos dias é clara, e tem que ser levada em consideração se alguém planeja encostar no tablet da Apple nos próximos 2 anos.

Preço. Hoje, usando informações do próprio Google para fazer a conta, para cada tablet com Honeycomb vendido para os consumidores, há 20 iPads saindo das Apple Stores. O que não surpreende qualquer um que tenha usado longamente os produtos concorrentes e acompanha o mercado. Como lembramos lá no início do ano, a única hipótese de alguém tirar mercado do iPad seria vender algo significativamente melhor em termos de hardware e software ou radicalmente mais barato. Ninguém chegou remotamente próximo do primeiro quesito (o iPad ainda é o melhor hardware e tem, com seus 110.000 apps, o maior número de utilidades possíveis para um tablet, por não tentar imitar um netbook). Neste fim de semana, em queimas de estoque malucas, o Touchpad alcançou o segundo quesito, e vai conquistar uma breve e melancólica liderança. Auto-referência é chata, mas o que eu dizia em fevereiro – sob acusação de “análise ridícula e precipitada de fanboy”:

Chame-me de covarde (conservador seria melhor), mas se eu fosse chefe de divisão de qualquer uma dessas empresas, eu não lançaria qualquer tablet em 2011 que custasse o mesmo preço ou mais que o iPad 2, como todos estão fazendo, somente por lançar. Parece suicídio comercial – o iPad virou sinônimo de tablet e, a não ser que você jogue agressivo no preço, não terá a atenção do consumidor: a única chance de algum concorrente fazer sucesso no mercado de tablets hoje é ser significativamente mais barato. Isso não aconteceu, e pelos contratos e volume de fabricação da Apple, dificilmente acontecerá este ano. Então, eu sugiro a todo mundo que humildemente volte à fase de projetos e voltem aqui com algo tão bom ou melhor, a um preço competitivo. Na verdade, se você se lembra bem, em 2010 aconteceu este recuo. Na CES, em janeiro, havia um monte de protótipos. Lembra do Steve Ballmer empunhando o Slate, uma bizarra tábua com Windows? Ele e tantos outros não viraram realidade: quando viram o iPad – e especialmente seu preço -, poucos dias da feira acabar as fabricantes viram que não teriam chance. Acertaram.

A HP, obviamente errou com sua estratégia de tablets. Em diversos níveis – do projeto à estratégia de descontos rápida. Todos os que analisaram o Touchpad – incluindo nossos amigos do Giz americano – disseram que excluindo o hardware equivocado, o WebOS era uma experiência melhor que o Honeycomb. Se amadurecesse um pouco mais, poderia fazer frente ao iPad (custando mais barato, é claro). Se a HP investisse mais na ideia. Ele ficou tempo o suficiente na prancheta, poderia ter ficado mais. Ou ser lançado com outra etiqueta. Joshua Topolsky disse sugeriu que a US$ US$ 200 ou US$ 300, ele venderia como água. A US$ 100, como agora, ele será um sucesso, mesmo que seja para ler coisas no Kindle ou ver filmes no avião. A US$ 200, a HP certamente perderia dinheiro. Mas se ela levasse a sério a estratégia, ela deveria considerar a alternativa.

Veja o exemplo da Microsoft. Em 1999, na fase de pré-projeto do primeiro Xbox, Rick Thompson disse a Bill Gates que eles deveriam entrar no mercado de videogames. Ele disse que para isso eles iriam perder uma geração inteira e algo entre US$ 3 e US$ 6 bilhões, só começando a ter lucro em no mínimo 5 anos. Bill Gates, gênio que é, pediu para Thompson continuasse com o projeto. O resto, como o lucro recorde da unidade de entretenimento da Microsoft este ano, é história.

Já que era a única, além da Apple, que controlava hardware e software (vamos considerar que o PlayBook da RIM já morreu, para fins de praticidade) no campo dos tablets, a HP teria estofo financeiro o suficiente para aguentar um pouco de prejuízo, e tentar ganhar dinheiro de outras maneiras. De acessórios a pacotes de programas ou upgrades, aos 30% básicos em cada app vendido, haveria um caminho lucrativo no médio prazo, mas que envolvia riscos. Quando um CEO que tem um certo nojinho de hardware assume, tudo isso fica mais difícil. O que mais me preocupa é que a HP era a última que poderia apostar em ganhar dinheiro no ecossistema, se arriscasse. Samsung, HTC, Asus e outros fabricantes de tablets só podem lucrar com hardware, e por isso dificilmente poderão concorrer de maneira agressiva com o iPad. Para mim, a HP era a última esperança de ver um tablet com preço competitivo. A não ser que o Google mude a sua lógica na parceria com a Motorola e decida perder um pouco de dinheiro para segurar a maçã, o futuro para a concorrência dos tablets é sombrio. Desde 2002 analistas dizem que seria impossível a Apple manter os seus 70% de marketshare no ramo de tocadores de MP3, e olha que o iPod não era nem tão melhor ou com preço competitivo como o iPad. Será que isso se repetirá nos tablets?

É um pouco cedo. Precisamos ver as novidades do próximo Android, os avanços de hardware com o Kal-El, e a estratégia do Windows 8, que segue uma outra lógica em relação aos tablets apresentados até agora, tornando-o mais familiar aos usuários de PC, são ameaças importantes. (UPDATE: Sem esquecer, como alguns comentaristas lembraram, do tablet da Amazon). Mas não são pra agora.

Eu não duvido que o segundo (ou primeiro, nunca teremos dados confiáveis) tablet mais vendido no Brasil seja um Coby Kyros ou algo do tipo. Quando o mercado não tem certeza da necessidade, ou mesmo utilidade de um tablet, preço é algo fundamental, como nos mostra o TouchPad. Se ninguém cortar os valores radicalmente, o iPad será absoluto em 2012 também. Queremos mais concorrência, e as empresas precisam estar dispostas a correr riscos. Precisamos torcer para isso.