Talvez você não conheça John Draper ou “Captain Crunch”, mas ele e sua blue box foram uma inspiração fundamental para Steve Jobs e Steve Wozniak ao criarem a Apple. Ele agora está em apuros e precisa da nossa ajuda. Woz escreveu este artigo fascinante para você entender como ele influenciou os dois, e quanto todos nós devemos a ele.

Eu conheci Steve Jobs na primavera de 1971. Nós nos demos bem como amigos. Eu estava trabalhando fazia um ano, programando, de modo a não sobrecarregar meus pais com as despesas da faculdade no meu terceiro ano em Berkeley.

Um dia antes do início das aulas, eu vi uma revista em nossa mesa de jantar que eu nunca havia lido. Folheando a revista, me deparei com um artigo que eu achava ser ficção. Ele falava sobre uma rede de engenheiros brilhantes realizando todo tipo de atividade na rede de telefonia da época. Fiquei fascinado por esses personagens fictícios e instantaneamente eles se tornaram heróis para mim, com mais habilidades do que as grandes corporações. Eu aprontava minhas travessuras e me sentia deslocado, então eu desejava ser um desses personagens estranhos.

No meio do artigo, eu tive que ligar para Jobs e ler partes do artigo para ele, incluindo descrições de um estranho personagem, o Captain Crunch. Eu li uma parte para Jobs explicando que Crunch sabia “driblar” a empresa de telefonia, mas ele estava com medo de falar sobre isso, com medo de que o estivessem espionando. Crunch dizia ter uma nobre ambição de tentar descobrir e expor fraquezas no sistema para ajudar a Bell Telephone Company a melhorar. Ele era um personagem estranho, assim como outros naquele artigo, mas é assim que você parece quando está fora do mainstream social.

Jobs e eu fizemos uma pesquisa rápida no mesmo dia. A biblioteca técnica mais fácil de se visitar em um domingo estava no SLAC, que era o CERN da época. Pessoas inteligentes tendem a não trancar as portas: fomos até o SLAC e encontramos uma porta aberta para acessar sua biblioteca técnica. Na verdade, em qualquer domingo era fácil entrar em qualquer edifício no SLAC apenas vendo se as portas estavam abertas.

Quando Steve e eu descobrimos que o “phreaking” de telefones era real – era possível hackear linhas telefônicas e fazer ligações gratuitas – nossos queixos caíram. Isso também significava que personagens como Crunch eram pessoas reais, inteligentes demais para serem pegos pelo FBI. Logo depois, ouvimos que Crunch tinha concedido uma entrevista para a rádio KTAO em Los Gatos, Califórnia. Jobs ligou para a rádio e deixou uma mensagem, mas Crunch nunca retornou.

Divulgação“Sem a blue box, não haveria Apple”, disse Steve Jobs. Foto por Anthony Warnack/Flickr

Eu criei minha própria blue box. Seriam cinco anos até que nós fundássemos a Apple, mas as regras de engenharia nos livros não se aplicavam para mim. Em uma peça de magia em design, eu fiz um arranjo de diodos escolher entradas para chips TTL, dizendo-lhes quais tons gerar, dependendo de qual botão fosse pressionado (1, 2, 3 etc.). Eu sabia o suficiente sobre o lado analógico desses chips digitais para perceber que cada entrada também é uma saída, fornecendo alguma corrente elétrica. Através da matriz de seleção de diodo, eu peguei essa corrente vinda dos chips e liguei um interruptor eletrônico (transistor Darlington) para fornecer energia aos chips. Assim, os chips recebiam comandos como lógica e sabiam qual tom gerar, e usavam essas entradas como saídas para conduzir um circuito que ativava os chips.

Isso exigiu algum bom conhecimento do circuito interno dos chips, mas realmente funcionou. Eu gostaria de ter sido tão inteligente em projetos posteriores. A lição importante é que, quando você faz as coisas para a sua própria diversão, nada impede você de ter criatividade e genialidade.

Contamos a nossos pais sobre esta curiosa jornada em que estávamos, e a única regra deles era não usar nossos telefones de casa para fazer phreaking.

Eu estava espalhando a ideia de fazer phreak nos dormitórios universitários de Berkeley. Eu conseguia demonstrar como fazer chamadas gratuitas para números nacionais, mas ainda não tinha descoberto o método para discagem internacional com a minha blue box. O estranho é que eu estava seguindo algumas instruções vagas no artigo da Esquire, e isso deveria ter funcionado.

Um amigo do ensino médio chegou ao meu dormitório e eu o enchi de histórias da magia que poderia ser feita no sistema de telefonia. Descrevi Captain Crunch como um dos líderes. Meu amigo, Dave Hurd (agora da banda Cornell Hurd em Austin) me disse que sabia quem era o Captain Crunch. Eu fiquei chocado. Nem mesmo o FBI tinha pego Crunch ainda. Dave disse que ele havia trabalhado na rádio KKUP em Cupertino, e que Crunch tinha trabalhado lá também – seu nome era John Draper.

Eu gostava de dirigir para casa nos fins de semana, quando Jobs e eu saíamos juntos. Do quarto dele, Jobs ligou para a KKUP, dizendo que queria falar com John Draper. A pessoa que atendeu disse que “ele sumiu de vista depois do artigo da Esquire“. EUREKA! Deixamos uma mensagem e, cinco minutos depois, recebemos um telefonema do verdadeiro Captain Crunch. Marcamos uma visita dele ao meu dormitório na semana seguinte.

DivulgaçãoFoto por Alexandra Gómez/campuspartycolombia/Flickr

A noite em que Crunch visitou meu dormitório (sala 110, Norton Hall) foi um dos momentos mais angustiantes da minha vida. Eu tinha falado muito sobre ele em todo o nosso dormitório e campus, descrevendo-o como um herói incrível que virou o jogo contra as maiores empresas do mundo. Minha visão de Draper era a de um cara sociável (geralmente as pessoas eram mais aptas socialmente do que eu). Mas o cara que apareceu no meu dormitório estava desgrenhado e imundo; faltavam-lhe alguns dentes; não era a pessoa que eu esperava. Ele viu minha surpresa e anunciou: “Eu sou ELE, o Captain Crunch”.

Crunch olhou para a minha blue box digital e me ensinou a fazer chamadas internacionais. Fiquei surpreso porque era o mesmo método que eu tentei sozinho. Em seguida, Crunch disse que queria pegar a blue box “automatizada” dele no carro. Eu tinha lido o artigo na Esquire e imaginei sua van cheia de racks de equipamentos de comutação telefônica. Tinha que ver aquilo, então perguntei se poderia andar com ele até o carro naquela noite. A resposta dele foi mais ou menos “por que você iria querer isso?”, me fazendo sentir que talvez minhas visões baseadas no artigo estavam erradas. Nós fomos até a van dele e ela estava praticamente vazia, exceto por uma antena em forma de T, que servia para transmitir a “San Jose Free Radio” enquanto ele dirigia por aí.

Naquela noite, Crunch ensinou para mim e para Jobs todo tipo de códigos, números e truques para phreaking. Eu tomava notas enquanto conversávamos até altas horas na pizzaria Kips. Nesse ponto, Jobs e eu tínhamos que dirigir para a casa dele, onde meu carro estava estacionado. Dirigir de Berkeley até Los Altos demora uma hora. Crunch estava indo para a casa de outra phreak, um cara em Berkeley que se chamava algo como Groucho (desculpe, o nome verdadeiro me escapa agora).

DivulgaçãoFoto por Christian Benke/Flickr

O carro de Jobs estava com um gerador defeituoso e a bateria acabou perto de Hayward. As luzes do carro desligaram e tudo parou de funcionar, então Steve encostou na Rota 17. Vimos as luzes de um posto de gasolina nas proximidades. Nosso plano era ligar para Groucho e pedir a Crunch uma carona de volta para casa, pois Crunch vivia com os pais em Los Gatos. Poderíamos ter usado uma moeda para fazer a ligação, mas queríamos experimentar como fazer chamadas em um telefone público usando a blue box.

Então Jobs usou a blue box no telefone público. Steve de repente desligou, exclamando que a operadora entrou na linha. Tenha em mente que nós estávamos tentando algo ilegal e com pouca experiência. Eu disse a Jobs que ele precisava dizer à operadora que esta era uma chamada de “dados”, e que ela deveria ignorar a luz piscando, assim como Crunch nos tinha ensinado. Jobs tentou ligar de novo para Groucho usando o telefone público e a blue box. Steve, de novo, desligou rapidamente com medo quando a operadora entrou na linha.

Em seguida, parou um carro da polícia. Jobs passou para mim a caixa azul quando o policial não estava olhando. O policial passou por nós e apontou a lanterna para o mato, como se tivéssemos escondido drogas ali. O policial me revistou, e perguntou o que era a blue box. O sintetizador de música Moog era uma tecnologia nova e bem conhecida na imprensa, então eu disse que aquilo era um sintetizador. Você aperta botões e saem sons dele. Telefones com tom de ligação ainda eram praticamente desconhecidos, portanto, um dispositivo que emite som não seria considerado como algo feito para telefonar.

Um segundo policial perguntou sobre a blue box, e Jobs e eu continuamos a mentir. Os policiais nos fizeram entrar na parte de trás do carro deles, e ficamos com medo de onde iríamos parar. Em seguida, o policial passou a blue box de volta para mim e disse: “um cara chamado Moog fez essa caixa antes”.

Nós conseguimos a nossa carona com Crunch naquela noite. Peguei meu carro e, ao dirigir de volta para Berkeley para as aulas do dia seguinte, adormeci na Rota 17 em torno de 1h da manhã, e bati meu carro – foi perda total. Eu andei o resto da noite de Oakland até meu dormitório em Berkeley, e disse ao meu companheiro de quarto como foi bom não ter pago a taxa de estacionamento de US$ 25 para o próximo trimestre.

Jobs estava muito desconfiado de Draper. Ele achava que Draper era perigoso e poderia nos colocar em apuros. Jobs só queria vender blue boxes feitas à mão para ganhar dinheiro. Eu gostava de me encontrar mais com Crunch ao longo do tempo, porque gosto de pessoas interessantes, do tipo que você vê nos filmes. Ele acabou me surpreendendo com alguns truques, como ouvir ligações em linhas telefônicas do FBI em San Francisco, ou mexendo em interruptores em um determinado telefone público de Los Altos após as 18h, para fazer chamadas gratuitas para Nova York. Eu não queria passar a perna na empresa de telefonia (ignorando o fato de que nós vendemos blue boxes para pessoas que realmente queriam passar a perna na Bell). Eu só queria descobrir coisas incríveis, desconhecidas e malucas que se podia fazer com a rede de telefonia.

DivulgaçãoFoto por DualD FlipFlop/Flickr

Ao perceber que você pode ser inteligente e fazer coisas que apenas um mago poderia imaginar, você começa a entender que o impossível na verdade pode ser possível. Isso leva a uma exploração profunda, tentando encontrar maneiras para driblar barreiras nos sistemas de tecnologia, uma mentalidade de hacking. Quando você faz as coisas por si próprio, por razões pessoais e para se divertir, você pode fazer o impossível.

Esta forma de pensar, e os valores positivos que eu associei a isto, estão relacionados com a nossa vida e invenções digitais até hoje. Eu conheço grandes criadores de alguns dos produtos tecnológicos mais importantes de nossas vidas. Muitas vezes eles são o CEO ou estão em um cargo muito alto nas empresas. E a primeira coisa que eles querem discutir é a própria “experiência blue box” deles.

Quando começamos a Apple, o monopólio da telefonia havia sido quebrado, e era enfim possível que outras empresas fizessem dispositivos para conectar à rede de telefone. Eu senti que era importante que o Apple ][ fizesse isso, então eu contratei o único engenheiro de telefone que eu conhecia, Captain Crunch. Ele desenvolveu uma placa incrível. Ela entendia sozinha coisas como sinal de ocupado, tudo em BASIC. Só doze anos depois, os modems finalmente aprenderam a desligar instantaneamente quando recebessem sinal de ocupado.

Crunch foi detido e recebeu uma advertência. Ele foi detido novamente e recebeu outro aviso mais sério de um juiz, que disse: “se eu vir você de novo, você vai para a cadeia”. Aí ele foi detido uma terceira vez, e passou pelo mesmo juiz de antes. Então agora Crunch estava na prisão, com muito tempo livre em suas mãos.

Ele tinha o Apple ][ que eu tinha lhe dado quando ele trabalhou na Apple. Ele me ligou um dia e estava quase em lágrimas depois de perder a impressora. Impressoras com qualidade de carta tinham acabado de ser lançadas e eram caras, mas eu ofereci uma a Crunch como um amigo. Estas eram as únicas impressoras de qualidade empresarial naquela época.

Na prisão, Crunch escreveu o processador de textos Easy Writer. Quando ele saiu, as vendas do Apple ][ explodiram no mercado empresarial devido ao Visicalc, e Crunch tinha o único processador de texto de qualidade empresarial. Ele ganhou cerca de um milhão de dólares com isso. Algum tempo depois, a IBM entrou no mercado e tornou o Easy Writer seu processador de texto oficial.

Eu acompanhei Crunch à medida que ele se tornou um programador de Macintosh bastante astuto, depois trabalhando em segurança de hardware e software. Ele nunca se atreveria a fazer algo tão ilegal quanto copiar uma música ou usar software roubado. Ele contou com amigos, inclusive eu, para uma ajuda ocasional. Ele ainda tem o amor dos velhos tempos de diversão, mas agora é uma pessoa produtiva e capaz. Eu o admiro e admiro aqueles que o ajudam na vida. -Woz


Vários problemas de saúde debilitantes afetaram John Draper no hospital (por mais de um mês), onde ele teve que passar por várias cirurgias, programas de reabilitação e até mesmo lutar por sua vida (ele sofreu uma parada cardíaca sob anestesia). John é um lutador e conseguiu superar o pior; ele recebeu alta há poucos dias e está se preparando para continuar seu programa de reabilitação, agora que ele se pergunta como vai se sustentar.

Crunch, agora com 70 anos, não é um homem rico. Ele conseguia viver com os próprios recursos até há alguns meses, quando ficou doente e não pôde mais trabalhar. Vale lembrar que, nos EUA, tratamentos de saúde não são gratuitos. Agora é hora de todos nós ajudarmos Captain Crunch, uma lenda da computação – nós deveríamos honrá-lo e ajudá-lo pelo que ele fez.

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