Eu não lembro a última vez que eu pulei tão alto. Kinect Adventures pareceu tão bobo na conferência da Microsoft há apenas dois dias, mas agora eu estou aqui pulando e me mexendo como uma minhoca epiléptica para vencer. É divertido demais.

Pule para ir mais rápido. Desvie para a esquerda para passar por um obstáculo que passa à sua direita. Olhando para o lado eu vejo o meu competidor, com quem eu agora há pouco dividia um bote descendo um rio, pulando e desviando juntos – outra experiência inesperadamente legal.

Com o meu coração acelerado, eu me dei conta de uma coisa: o Wii Remote recompensa a proficiência dos jogadores em fazer o menor movimento possível – tanto é que se você ir muito à loucura com ele na mão, ele pode parar completamente de responder –, enquanto, no Kinect, eu me vi exagerando todos os movimentos.

A experiência com Kinect Sports é a mesma. Eu subestimei a diversão que ele proporciona até ter a chance de experimentar. Ele é menos como Wii Sports e mais como Mario & Sonic at the Olympic Games. Uma prova de corrida exigiu que eu corresse no lugar, levantando bem os joelhos a cada "passo", e pulasse nos momentos certos para ultrapassar os obstáculos. O lag do Kinect me fazia ter que pular um pouco antes, sim, mas a competição frenética e justa (um testamento ao design do jogo) mantém a diversão no alto.

Há algo muito especial no ato de usar o Kinect, algo que o separa de qualquer outra combinação de software e hardware que eu já tenha usado. O Kinect se adapta e se acomoda ao usuário. Eu não tenho que aprender como lidar com o Kinect; ele é que tem que aprender a lidar comigo.

Talvez eu esteja usando a palavra "aprender" com menos moderação do que deveria. O Kinect só funciona porque ele já aprendeu como os humanos se movem, graças à pesquisa da Microsoft e da Prime Sense. A inteligência já está lá antes que eu apareça na frente dele.

Eu nunca senti que um computador tivesse me entendido, um humano de carne e osso, tão bem. Algumas vezes outros humanos, os próprios designers dos jogos que eu estava jogando, tentaram me explicar e esclarecer como jogar. Pessoas muito legais, mas elas só estavam atrapalhando minha nova amizade.

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Outro dos jogos do Kinect Sports me impressionou de uma forma completamente diferente: boliche. Este jogo realmente mostra a flexibilidade com que aplataforma lida com movimentos humanos naturais. Eu estiquei o braço para a direita, em direção ao vhão, para pegar a minha bola, e perguntei: "posso jogar boliche como de verdade, dando os três passos antes de jogar a bola?". Os designers olharam um para o outro nervosamente. Eles disseram que eu deveria tomar cuidado para não sair do campo de visão do Kinect.

Eu fiquei com a impressão de que o boliche não foi testado dessa forma, mas testei mesmo assim. Encurtei um pouco meus passos, mas joguei normalmente. A bola rolou pela pista sem problemas.

Os designers admitem que, diferente do boliche do Wii, o Kinect não consegue adicionar giro à bola baseado no movimento do meu pulso – para isso você precisa exagerar no movimento inteiro de lançar a bola –, mas a flexibilidade me mantém imerso. Eu joguei a bola por entre as pernas e de lado. Eu jogo boliche muito mal e estava zoando, mas o Kinect não se importou.

Depois de jogar o suficiente, eu perguntei ao Jason se ele queria entrar no meu lugar. O PlayStation Move me obrigou a ficar de pé, parado num lugar, com duas er… bolas no queixo, para calibrar uma única partida, mas o Kinect deixou o Jason entrar no meu lugar instantaneamente. Sem pausas, sem recalibragem, sem confusão. No meio da partida.

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Minha camiseta está úmida, e eu, com sede. Ironicamente, eu nem testei YourShape: Fitness Evolved, o jogo de exercícios da Ubisoft.

Anos atrás, eu comprei um jogo da Nike chamado Kinetic para o PlayStation 2. Ele nunca funcionou. A iluminação da minha sala de estar, combinada com a tecnologia de câmera da Sony, impediu o jogo de me enxergar corretamente. Mais recentemente foi o Wii Fit. Com uma capacidade muito limitada do jogo de responder aos meus movimentos em tempo real, eu simplesmente fiquei desapontado de novo.

YourShape corresponde às minhas expectativas, que eu mesmo admito serem altas. Quando eu fico de pé na frente do jogo, ele mede não apenas a minha altura, mas também a distância da minha mão até o chão. Ele mostra uma representação da minha estrutura interna, e consegue isolar vários grupos de músculos com com uma precisão considerável.

A estética gelatinosa da minha persona na tela é estranha, com certeza. Mas, ao experimentar os vários modos, como uma aula de Yoga ou ginástica, eu vejo o meu corpo ali. É o meu corpo. O Kinect tem atrasos, mas eu consigo ver quase instantaneamente se a minha posição está correta – até mesmo antes que a interface de wireframe ou o prestativo instrutor virtual aponte meus trejeitos desajeitados e peça correção.

Eu nunca me preocupei em sair da área de visão do Kinect. Eu nunca achei que a câmera não estivesse registrando minhas poses ou exercícios corretamente. E enquanto eu casualmente observava meu avatar, eu puxava meus ombros para trás e encolhia a barriga. Caramba, que má postura que eu tenho.

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"O que você está achando?", pergunta Wil Mozell, um GM da Microsoft que supervisiona muitas das empresas que estão produzindo jogos de lançamento do Kinect.

"É bem legal", eu digo. "Mas e o lag? Vocês vão conseguir acabar com ele?"

"Podemos acabar com boa parte dele. Tenha em mente que estes jogos estão 80, 85 por cento prontos. Ainda há bastante otimização a fazer."

"Mas e os jogos hardcore? Os FPSs, a jogabilidade que precisa de precisão absoluta?", eu insisto.

"O Kinect não vai substituir o controle tradicional com o qual trabalhamos nestes jogos pela última década. Não é isso que estamos tentando fazer. O Kinect vai funcionar junto com os controles para jogos tradicionais. Para jogar uma granada, para comandos de voz, para…"

"Para head tracking??"

"Sim, head tracking! Exatamente". Ele dá um grande sorriso. Ele quer falar mais. Por conta de contratos de confidencialidade com a Microsoft, ele não pode.

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O último jogo do dia foi o melhor. Ele se chama Dance Central. Foi feito pela Harmonix, a empresa que inventou Guitar Hero e agora faz a série Rock Band. E eu acho que o Dance Central será o "killer app" do Kinect, aquele software que vai fazer o público querer e entender o hardware.

A premissa é simples: toca uma música; eu faço passos de dança no ritmo. E não é como em Dance Dance Revolution: a Harmonix contratou um coreógrafo em tempo integral para criar mais de 600 passos para o jogo, que variam de simplesmente cruzar os braços agressivamente a apontar o meu dedo para o céu com a confiança de um John Travolta em Embalos de Sábado à Noite.

Diferente de outros jogos do Kinect, eu não vejo meu avatar na tela fazendo exatamente o que eu faço. A Harmonix fez o favor de esconder meus movimentos duros por trás de um personagem pré-animado. Eu não "me vejo" à parte de uma pequena silhueta num quadrado no canto da tela, mas eu sei exatamente o que eu estou fazendo errado, graças às indicações na tela, no chão próximo ao personagem que eu estou fazendo dançar. Se o chão ao redor dele brilhar em vermelho, eu fiz coisa errada ou fora do ritmo.

 

Quando eu tento explicar o jogo por escrito — especialmente a parte de eu não ser exatamente o dançarino que eu vejo na tela —, nem eu mesmo entendo como isso pode ser divertido. Talvez seja o brilho de uma interface invisível, um sistema que rastreia o meu corpo e entende o que eles está fazendo em vez de adivinhar aleatoriamente.

O Kinect libera os desenvolvedores de ter que pensar demais sobre as ações do jogador. E libera os jogadores de terem que pensar demais sobre… qualquer coisa.

O Kinect é maravilhoso pelo que ele está fazendo pelos jogos de movimento. Mas também pelo que vai fazer pelo home theater, pelo hardcore gamer e por colocar mais diversão orgânica na jogabilidade.

Mas o maior truque do Kinect está além de tudo isso. O Kinect é mais do que um "dispositivo de interface humana" abstrato. É algo mais sutil: um dispositivo de entrada que consegue ver um bando de braços e pernas se movendo na frente de dele e entender: "Ei, isto é uma pessoa!"