Eis aqui um segredinho que você pode nunca ter imaginado: As pessoas que podem realizar feitos mnemônicos incríveis como memorizar a ordem de um baralho com as cartas embaralhadas ou centenas de números aleatórios em minutos não têm memória fotográfica. Eles têm cérebros normais como você e eu. Mês passado eu competi no 15º Campeonato Anual de Memória dos Estados Unidos – um tipo de olimpíada onde “atletas mentais” testam suas habilidades de memória. Para minha sorte, eu aprendi alguns truques com Nelson Dellis, o campeão pelo segundo ano consecutivo. Eis aqui as técnicas que Nelson me ensinou que você pode começar a incorporar no seu dia a dia para deixar sua memória mais forte.

Técnicas de memória que qualquer um pode aprender

Apesar de a minha memória ser boa de modo geral, eu tenho que admitir, eu sou horrível com nomes. Eu sou tão ruim que esqueço o nome da pessoa antes mesmo dela terminar de pronunciá-lo – é como se eu nem mesmo quisesse ouvir. Depois de uma conversa/sessão de treinamento com Nelson, entretanto, eu fui capaz de lembrar dezenas de nomes de estranhos em apenas alguns minutos.

Nelson, um ex-desenvolvedor de software de 28 anos que virou um “alpinista mnemônico”, era um estudante normal com uma memória normal, segundo ele. Quando a sua avó Josephine começou a perder a memória – e as lembranças que tinha dele – para o Alzheimer, ele foi estimulado a aprender mais sobre técnicas para melhorar a memória. Ele agora tem duas vitórias em competições nacionais de memória e o recorde de memorizar 303 números aleatórios em cinco minutos (superando seu recorde do ano anterior de 248 números). Sua mensagem é que qualquer um pode fazer isso. É só treino e técnica.

Meu treinamento intensivo de memória

Meu treinamento intensivo para este evento começou duas semanas antes da competição. Eu recebi duas garrafas de suplementos DHA brainstrong (dos patrocinadores do evento), uma camiseta, um manual de treinamento, e uma lista de eventos, os quais incluíam: uma memorização em 15 minutos de 117 nomes e rostos, memorização em 5 minutos de 500 números, memorização em 15 minutos de um poema não publicado de 50 linhas, e memorização em 5 minutos de um baralho com as cartas embaralhadas. Eu realmente não fazia ideia do que estava me metendo.

“Como está a sua memória?” Nelson perguntou, no começo da nossa conversa de treinamento. Hmmm, ok, eu acho.

Quando eu virei essa tabela assustadora com 500 números aleatórios (onde tem 25 linhas com 20 números cada), que eu supostamente deveria memorizar em 5 minutos, eu quase caí da cadeira:

Transforme em uma imagem e fixe em algum lugar

Aquela tabela de números era a parte mais intimidadora, mas na minha sessão de treinamento com Nelson, ele me ensinou como olhar de forma que a fizesse parecer levemente menos intimidadora. (eu tenho que admitir, eu só decidi participar do evento dos números no último minuto, por um capricho). Existem basicamente dois passos, para todos os desafios de memória, esteja você em um estranho hobby/esporte mental ou tentando lembrar onde você estacionou seu carro:

1-      Transforme coisas abstratas e tediosas que o cérebro não gosta de lembrar e não pode realmente entender (como nomes e números) em coisas mais visuais.

2-      Encontre um lugar para guardar ou fixar imagens mentais onde é mais provável que você lembre-se deles – também conhecido como seu “palácio mental” no método da jornada

Então, por exemplo, para lembrar-se de rostos e nomes, ele diz que pega um nome como Nelson tenta transformar com uma imagem ao associar com uma pessoa famosa como Nelson Mandela (passo 1). E no passo 2, encontra um lugar encontra um lugar proeminente nessa pessoa para coloca-la, por exemplo no seu nariz avantajado – então imagine Nelson Mandela se arrastando dentro de seu próprio nariz. Quanto mais vívido, grotesco, sexual ou incomum, melhor.

Para um nome, não se prenda muito a como se escreve, ao invés disso preste atenção na pronuncia. Quebre-o em sílabas e transforme em imagens. (Se você não conhecer nenhuma Maria, você pode Pensar no Ma que parece mar e ria que é uma risada, então a imagem mental que você precisaria formar seria o mar gargalhando).

Algo chamativo (para fixar melhor) poderia ser uma peça de roupa, um olho, um bigode, ou qualquer coisa que chame atenção naquela pessoa.

Durante a competição, uma das fotos tinha um cara de óculos escuros chamado Neil e eu pensei no Neil Gaiman, o escritor de fantasia/ficção científica, então eu desenhei caveiras nos óculos, o que me ajudou a lembrar o nome. Em outra foto havia uma garota chamada Laurie, como uma que eu conheci no ensino fundamental que vivia com o nariz escorrendo, então eu imaginei uma caixa de lenços de papel embaixo do nariz dela. Eu acho que acertei pelo menos estes dois nomes.

Meu manual de treinamento sugere que uma Maria pode ser Maria Mole e se a característica que você usou para lembrar foi o nariz da moça, você pode imaginar socar o nariz dela até quebrar e ao invés de sair sangue sai Maria Mole. Eww, nojento.

Na verdade, quanto mais exagerado e absurdo melhor. (eu tinha que apelar para o meu lado mais secreto e bizarro às vezes). E quanto mais pessoais as associações, melhor.

Em suma: Quando você conhecer uma pessoa, aprenda e diga o nome dela, faça uma imagem com as sílabas do nome dela e coloque essa imagem em qualquer característica chamativa que você tenha escolhido para ela. Da próxima vez que encontra-la, você irá ver essa imagem na característica e lembrar o nome instantaneamente. (Só não vá falar qual característica chamativa você escolheu para lembrar-se dela ou a imagem que você inventou, e tente não ficar encarando a tal característica!)

Kevin Spacey pegando rosquinhas com um tênis no meu sofá

Para lembrar um monte de dígitos e cartas aleatórias, as mesmas técnicas básicas (de tornar coisas abstratas em algo mais visual e ancorar em algum lugar) ainda se aplicam, mas técnicas e sistemas mais fortes também são necessárias.

A técnica que todo mundo usou foi o Sistema Dominic, inventado pelo campeão da memória Dominic O’Brien que basicamente traduz números em letras. Então nós transformamos dígitos em iniciais de duas letras para pessoas e ações e objetos associados, para que possamos visualiza-las melhor. Então, por exemplo, o número 0, como é redondo, é um O, e como está no começo ele é traduzido em duas letras como OO. Muitas pessoas usam Ozzy Osbourne, como a pessoa para o número 0, a ação pode ser morder a cabeça de um morcego e o objeto um morcego. É mais fácil lembrar de Ozzy Osbourne mordendo a cabeça de um morcego do que um 0 em um mar de números.

Mas para este sistema funcionar, você tem que deixá-lo personalizado, então para memorizar um baralho, eu tive que criar uma pessoa com uma ação e objeto para cada uma das 52 cartas. O valete de copas virou meu marido fritando ovos e o objeto eram os ovos na frigideira. O rei de espadas era Kevin Spacey (KS de King of Spades) em Os Suspeitos, acendendo um isqueiro dourado e o objeto era um isqueiro dourado. O 3 de espadas era Edward Mãos de Tesoura aparando arbustos e o objeto era um arbusto.

E então você precisa encontrar um lugar familiar para guardar a informação. Nós notamos como campeões anteriores construíram um palácio da memória para vincular informações em lugares familiares. É a mesma técnica que Nelson me ensinou. No meu palácio da memória, eu caminhei pela minha casa, começando pela porta, e coloquei essas pessoas familiares ou números na minha mobília.

O sistema permite que você rapidamente memorize três cartas de cada vez. Imagine a pessoa da primeira carta fazendo a ação da pessoa na segunda carta com o objeto da pessoa da terceira carta. Virando três cartas, eu vi Audrey Hepburn (rainha de ouro) tomando banho (5 de copas) com uma espada de pirata (valete de espadas) no meu sofá. Scooby Doo (6 de ouro)  tocando violoncelo (6 de espadas) com um haltere (ás de espadas) no balcão da minha cozinha. E Nicolas Cage (9 de paus) fazendo iodelei (3 de ouro) com a arma do Batman (4 de paus) na minha sala de estar. Isso é meio estranho, mas tudo bem.

Isso leva bastante tempo para organizar e praticar, mas também exercita seu cérebro e quando você praticar colocar as cartas juntas, elas realmente fazem você pensar com criatividade (Kevin Spacey aparando arbustos com as mãos do Edward mãos de tesoura e um anel de hobbit?). Eu fiquei impressionada como os campeões de memória podiam decorar um baralho (Nelson tem o recorde de um minuto e três segundos para lembrar a ordem de um baralho).

O seu treinamento intensivo de memória

Para o dia a dia, o palácio de memória ajuda a lembrar de uma lista ou sequência de coisas. Comece uma jornada em um lugar que seja bem familiar para você como, digamos, sua casa, começando da porta. Então para uma lista de compras, imagine uma caixa de leite transbordando na porta de sua casa, e quando você entrar, talvez dois bifes gigantes te ataquem logo no hall de entrada. Continue até a sala de estar para encontrar bisnaguinhas dançando no seu tapete.

Novamente, quanto mais animada e exagerada for a história que você elaborar no seu palácio da memória ou jornada, melhor para a sua memorização. E quanto mais você fortalecer sua memória e continuar praticando para deixar seu cérebro treinado, melhores são as suas chances de lutar contra o mal de Alzheimer.

Se você não acha que é uma pessoa visual, incorpore outros sentidos: sons, cheiros, toque. No dia-a-dia, preste mais atenção para as sensações de tato, de olfato e auditivas das coisas, o que pode melhorar suas habilidades de visualização. Comece a olhar mais para coisas e prestar mais atenção. (Eu confesso, eu sempre esqueço os nomes e rostos das pessoas por pura falta de atenção!)

Se você realmente quer treinar como um campeão de memória, tente este ótimo jogo para lembrar nomes, faça o download do Memoriad (Windows), um software de treinamento de competição e passeie pelos fóruns Mnemotécnicos. E talvez nos encontremos no campeonato de memória do ano que vem!

(Nota: Nelson e outros atletas mentais, incluindo um time de estudantes do ensino médio de Hershey, PA, fazem parecer fácil, mas para se tornar um campeão de memória é preciso de muito treino sério e prática. A maioria das minhas horas treinando foram gastas apenas para desenvolver o sistema de cartas e para trabalhar no sistema numérico, que no final das contas nem era tão bom assim (pois como eu tinha um prazo curto, ao invés de pegar 100 pessoas para memorizar cada dígito, como eu deveria fazer, eu usei 10 personagens dos vídeos do Here Come The 123s do They Might Be Giant’s. Péssima ideia. Para cada número, eu ficava presa em um vídeo em loop cantando na minha cabeça por um tempão). Em casa poderia completar cerca de metade de um baralho de cartas em um cinco minutos, mas na competição, distraída e atordoada, eu só consegui fazer metade disso. Eu consegui atribuir nomes aos rostos corretamente em cerca de um terço das tentativas, graças a praticar obcessivamente com aquele jogo de nomes divertido que eu mencionei acima. No fim, eu fiquei em 36º entre os 46 atletas mentais que apareceram para competir – talvez não tenha me saído tão mal para alguém que nunca sonhou em entrar em algo assim antes e que treinou apenas algumas horas ao longo de uma semana. E segundo a história do treinamento de Joshua Foer sugere, ainda há esperança – se você treinar como um atleta mental de nível mundial.)