Em uma participação na seção de Tendências, da Folha de S. Paulo, o apresentador de TV Luciano Huck se pôs a falar do futuro, afirmando com bastante segurança que os carros autônomos se tornarão realidade muito em breve, que o nosso córtex será conectado à nuvem, que haverá mineração no espaço e que a inteligência artificial irá devorar a força de trabalho humana – tudo no melhor estilo futurólogo e, em alguns dos destaques, meio capitão óbvio.

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E aquilo que parecia uma aula sobre como será o mundo do futuro virou rapidamente um discurso político que parece confirmar ainda mais as intenções de Huck de ser candidato à presidência. Contando sobre seu “mergulho estruturado” sob curadoria da Singularity University, que de universidade tem pouco – a instituição é uma think tank que oferece cursos de especialização e workshops no Vale do Silício –, Luciano reflete sobre o futuro que nos aguarda e de repente dá um salto, “tentando enxergar o lugar do Brasil neste novo planeta que se desenha rapidamente”, enquanto seus pares estavam lá “buscando oportunidades de empreender ou de ressignificar seus negócios”.

Estaria Luciano Huck planejando ser o nosso Mark Zuckerberg? Não é um exercício difícil de se fazer, vamos lá: em março deste ano, na mesma Folha de S. Paulo, o apresentador concedeu uma entrevista cujo destaque era a frase: “Quem entrou na faculdade em 1990 está chegando agora aos espaços de poder. Faço parte desta geração”, enquanto se esquivava do questionamento sobre a possibilidade de uma candidatura à presidência. Em maio, ele apareceu de novo na Folha – dias após uma matéria da Piauí sobre o flerte que vinha tendo com o partido NOVO –, reiterando que não é candidato a nada. Mas o seu posicionamento nunca foi tão assertivo. Em diversos momentos, ele afirma que não irá deixar de se envolver.

Enquanto isso, o fundador e CEO do Facebook tem viajado por diversas cidades dos Estados Unidos, encontrando-se com todos os tipos de pessoas em sua grande peregrinação americana, de “operários de fábrica” a “viciados em opioides” – algo que Huck faz há anos, afirmando, inclusive, que “seu maior ativo são as pessoas” –, realizando discursos digno de político e criando iniciativas com o propósito futurista de curar todas as doenças.

A diferença essencial está nos negócios, é claro. De um lado, o criador da maior rede social do mundo, utilizada por mais de dois bilhões de pessoas no mundo e o legítimo copiador do Snapchat. De outro, um apresentador de TV da maior emissora do país, reformador de carros e casas e diretor-presidente do Instituto Criar. Cada um tem o Zuck ou Huck que merece.

Nos últimos parágrafos de seu texto, Huck arremata: “Não podemos mais ficar inertes; temos que enxergar com clareza o país que queremos e usar esta revolução tecnológica a nosso favor”. “Não, você não precisa se preocupar com a inteligência artificial. Melhor se preocupar com a estupidez humana”, finaliza. Bem, seria interessante, e ao mesmo tempo assustador, se o apresentador brasileiro tivesse peito para entrar na discussão pública  junto com Zuckerberg e Elon Musk sobre o futuro da IA.

Imagem do topo: JustoRuiz/Flickr