Na madrugada de sexta-feira para sábado, os americanos puxaram o cabo da TV analógica de vez e deixaram quase 3 milhões de pessoas vendo fantasmas do canal 3 só chiados e ruídos. Os Estados Unidos tem 307 milhões de habitantes, então na real pouquissimas pessoas ficaram sem TV. No Brasil este momento está previsto para acontecer em 2016. Como estamos nos preparando para isso?

A resposta é: não estamos. Pelo andar da carruagem, 2016 parece incrivelmente… Perto. A TV digital no Brasil é uma sequência de promessas não cumpridas. Era pra começar em 2005, para podermos ver o desastre da seleção em 2006 em alta-definição. Acabou começando em dezembro de 2007, em São Paulo, para incríveis 1.000 (mil) domicílios com capacidade para receber o sinal digital, já que a venda de conversores já era bem baixa comparada ao esperado. Aos poucos o governo continua aumentando a área de cobertura digital, que em fevereiro chegava a 46% da população nacional e, com a adição de João Pessoa (PB) esta semana, estará presente em 16 capitais. Mas ter cobertura não quer dizer que tem gente assistindo. No final de 2008, só 3,2% dos domicílios assistiam o conteúdo digital. E no ano passado foram vendidos quase 500 mil produtos ligados à TV digital no Brasil entre celulares, TVs e adaptadores, segundo a Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), uma adesão beeeem pequena comparada com a área coberta. O SBTVD que é o fórum do sistema brasileiro de TV digital disse que em 2009 teremos o dobro de usuários de 2008. Mas o dobro de quase nada é muito pouco.

Talvez o maior problema para a adoção da TV digital é o preço do conversor. Antes mesmo do lançamento do sinal digital o governo anunciava a caixinha mágica com o preço de R$ 80 e R$ 100. Mas nas lojas, o aparelho custa de R$ 200 chegando a mais de R$ 1.000 em alguns lugares hoje em dia. A Positivo Informática esperava vender 400 mil conversores em 2008, vendeu 25 mil. A implementação dos conversores integrados é tímida. A LG tem 15% de suas televisões acima de 32 polegadas de LCD com o conversor embutido, nas acima de 42 polegadas são 35%. A Samsung tem apenas 5% de sua linha de televisões com conversor embutido, e também não planejam vender somente o set-top box (fonte).

E mesmo para aqueles que têm o conversor, o potencial digital no Brasil mal está sendo usado. Por exemplo, a interatividade prometida no lançamento através do GINGA ou o escasso conteúdo em alta definição, limitado por enquanto a novelas, alguns filmes ou futebol – cerca de 13% do que passa na Globo.

Aliás, as pessoas se perguntam pra quê diabos estamos correndo para ter TV Digital? Para ver que o Sílvio Santos, mesmo com câmara criogênica, tem rugas? O motivo é um pouco mias nobre. Nos EUA, o objetivo de mudar todo o sistema para sinal digital foi o espectro de ondas ocupado pela transmissão analógica para novos serviços de telefonia sem fio e mais canais de radio para emergências. Lá a mudança foi bem menos traumática, já que a maioria dos domicílios já usavam tv a cabo e satélite. E para as pessoas que não tinham esses serviços, o governo concedeu cupons de desconto de US$ 40 para a compra de conversores. E detalhe: lá o preço do top-set box é entre US$ 60 a US$ 80 dólares, ou seja, fica BEM em conta. Mesmo assim, pessoas pobres e vários imigrantes ficaram sem saber quando a TV parou de funcionar, no dia do Juízo Final da conversão final. Por isso nossos amigos do Gizmodo americano fizeram um completo fluxograma para ajudar as pessoas nessa situação.

 

Temos de apressar o passo. O fim da TV analógica tem data marcada para  junho de 2016 e muitas coisas precisam ser resolvidas. Além do preço, o governo, as emissoras e fabricantes de eletrônicos têm de convencer o brasileiro que a TV digital é realmente melhor, e isso vai desde o cara que mora em uma grande capital até o tiozinho no interior, ou vamos adiando e adiando e adiando…